Licenciados ganham mais 28% e mestres mais 49% do que trabalhadores com ensino secundário

A percentagem de jovens adultos com ensino superior em Portugal quadruplicou nos últimos 25 anos, aproximando o país da média europeia. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos conclui que o investimento num curso superior continua a gerar retornos salariais elevados, mas alerta para desigualdades no acesso.

O ensino superior em Portugal registou uma expansão significativa nas últimas décadas e tornou-se um fator determinante de valorização no mercado de trabalho. A percentagem de jovens adultos com ensino superior quadruplicou nos últimos 25 anos, passando de 11%, no final da década de 1990, para 43% em 2024, aproximando Portugal da média da União Europeia, situada nos 44%.

As conclusões constam do policy paper “Ensino Superior e emprego jovem em Portugal: tendências, resultados e comparações internacionais”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, da autoria de Luís Catela Nunes, que coordena o estudo, Pedro Reis e Teresa Thomas. O documento analisa os ganhos económicos associados ao prosseguimento de estudos no ensino superior, as transições entre o ensino secundário e o ensino superior, bem como os efeitos desses percursos no emprego e nos salários.

Segundo o estudo, os diplomados do ensino superior apresentam remunerações significativamente superiores às dos trabalhadores que concluíram apenas o ensino secundário. Em média, os licenciados ganham mais 28%, enquanto os mestres auferem mais 49%. Estas vantagens surgem logo no início da carreira e tendem a acentuar-se com a experiência profissional.

A análise mostra ainda que, numa perspetiva financeira individual, o investimento no ensino superior em Portugal apresenta retornos elevados. Por cada euro investido pelos estudantes, considerando custos diretos e rendimentos de trabalho sacrificados, o retorno médio é de 13,7 euros em ganhos salariais ao longo da vida. Este valor é 68% superior à média da União Europeia, que se situa nos 8,2 euros.

Em 2024, Portugal atingiu também um número recorde de novos diplomados, com mais de 100 mil pessoas a concluírem um curso superior. As licenciaturas continuam a ser a qualificação mais comum, representando 58% dos diplomados, seguidas dos mestrados, com 33%.

Apesar desta evolução, o estudo alerta para desigualdades persistentes no acesso ao ensino superior. Entre os alunos dos cursos científico-humanísticos do secundário, 76% prosseguem estudos superiores. Já entre os estudantes do ensino profissional, essa transição ocorre apenas em 22% dos casos. O contexto familiar continua a ter um peso relevante: 47% dos estudantes de famílias sem formação superior optam pelo ensino profissional, face a 20% entre os jovens que têm pelo menos um dos pais diplomado.

No mercado de trabalho, os diplomados do ensino profissional apresentam, numa fase inicial, taxas de emprego superiores às dos diplomados dos cursos científico-humanísticos que não prosseguem estudos superiores — 72% contra 56%. No entanto, ao fim de cinco anos, essa diferença praticamente desaparece, com taxas de emprego de 88% e 86%, respetivamente. Já ao nível salarial, a diferença entre estes dois percursos é residual, situando-se em cerca de 1%, embora o crescimento salarial de ambos fique muito abaixo do registado entre trabalhadores com ensino superior.

O estudo identifica ainda diferenças significativas entre áreas de formação. Os cursos superiores nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas como STEM, são os que proporcionam salários médios mais elevados. Destacam-se, em particular, as áreas de Tecnologias da Informação e Comunicação, Matemática e Estatística e Engenharia. Saúde, Gestão e Administração e Direito também apresentam salários elevados entre diplomados com mestrado. Em sentido contrário, os mestres em áreas como Educação e Serviços Sociais ganham, em média, cerca de metade do salário dos mestres em TIC.

Apesar dos retornos positivos, os autores alertam para o facto de os custos diretos do ensino superior, embora baixos em termos absolutos, representarem uma percentagem elevada do PIB per capita em Portugal quando comparados com a maioria dos países europeus. Esta realidade pode constituir uma barreira à entrada de muitos estudantes, sobretudo de famílias com menores rendimentos, diz a análise.

O modelo de financiamento do ensino superior português é outro dos pontos críticos identificados. De acordo com o estudo, as despesas de funcionamento das instituições, em média por estudante, estão 35% abaixo da média da União Europeia. Ao mesmo tempo, as famílias suportam 30% dessas despesas, mais do dobro da média europeia, que é de 13%.

Perante estes desafios, o policy paper recomenda a adequação do financiamento público aos benefícios individuais e sociais do ensino superior, o reforço das bolsas de estudo para estudantes de baixos rendimentos e a avaliação da viabilidade de um sistema de empréstimos indexados ao rendimento. Os autores defendem ainda que eventuais revisões das propinas devem ser acompanhadas de apoios financeiros dirigidos aos estudantes mais vulneráveis.

Entre as recomendações está também a criação de estratégias académicas mais flexíveis, alinhadas com as necessidades futuras de qualificação, incluindo programas pensados para diplomados do ensino profissional. O estudo propõe ainda a criação de um sistema estatístico nacional que integre dados da educação e do mercado de trabalho, permitindo acompanhar percursos, emprego e salários por curso, com informação acessível a estudantes, famílias e decisores políticos.

O estudo está disponível no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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