Mais de metade dos colaboradores prefere formação em IA a um aumento salarial
Nos próximos dois anos, 65% das empresas esperam que entre 11% e 30% da sua força de trabalho seja reafectada ou requalificada devido à IA, revela novo estudo da Mercer.
As empresas estão sob pressão para apresentar um desempenho sustentado. No entanto, as suas ambições estão em risco devido a uma força de trabalho esgotada e a um desalinhamento organizacional. Esta é uma das conclusões do estudo “Global Talent Trends 2026”, realizado pela Mercer junto de cerca de 12 mil executivos de topo, responsáveis de recursos humanos, investidores e colaboradores em todo o mundo.
Os investidores mostram-se predispostos a recompensar as empresas que aproveitam a colaboração eficaz entre humanos e a IA, com 72% a concordar que as organizações que adotam a integração das competências humanas e da IA estão bem posicionadas para obter uma vantagem competitiva.
Segundo o estudo, os executivos de topo enfrentam um paradoxo na gestão de talento. Por um lado, com a IA, as organizações podem precisar de menos pessoas para o mesmo trabalho; por outro, não existem talentos suficientes com as competências certas para as funções futuras que a IA exigirá. A escassez de talento é uma questão significativa para os executivos, com mais de metade (54%) a identificá-la como o principal fator que influencia os seus planos de recursos humanos. Neste contexto, 59% dos líderes de recursos humanos apontam a dificuldade em atrair talento com competências digitais essenciais como o seu principal desafio nesta área.
“Os líderes estão empenhados no crescimento este ano, mas, para o alcançar, as organizações precisam de que todas as equipas tenham um desempenho máximo”, afirma Joana Fernandes, Líder de Career da Mercer Portugal. “Embora os executivos vejam a IA como a chave para desbloquear um desempenho exponencial e um crescimento acelerado, a concretização de um verdadeiro retorno dos investimentos em IA depende da reformulação intencional do trabalho e da criação de modelos operacionais habilitados para a IA que ampliem as capacidades e a experiência da força de trabalho”, acrescenta.
Resolver o problema da escassez de talento coloca os líderes numa situação difícil. À medida que a IA substitui, complementa e transforma o trabalho, as competências necessárias mudam drasticamente, criando a necessidade de requalificação e reafetação. Uma má gestão desta questão pode agravar a escassez de talento e comprometer a resiliência e o desempenho da força de trabalho.
Para enfrentar estes desafios, 98% dos executivos inquiridos planeiam alterações na estrutura organizacional nos próximos dois anos e 65% esperam que entre 11% e 30% da sua força de trabalho seja reafetada ou requalificada devido à IA nesse período. Os executivos de topo estão prontos para apostar ainda mais nas competências, com 63% a concordar que precisam de avançar para práticas de gestão de talento baseadas em competências, a fim de preparar as suas organizações para o futuro.
Os colaboradores estão plenamente conscientes da necessidade de melhorar e requalificar as suas competências, com 53% a demonstrar preocupação com a falta de competências preparadas para o futuro. Quando questionados sobre o que, hipoteticamente, trocariam por um aumento salarial de 10%, 63% dos colaboradores afirmaram que abdicariam desse aumento em troca de oportunidades para desenvolver competências em IA e competências digitais.
Os investidores reconhecem que a atualização e a requalificação são imperativos empresariais, sendo 77% mais propensos a investir em empresas empenhadas em capacitar os colaboradores através de educação e formação em IA.
Desalinhamento triplo põe em risco o crescimento
O estudo aponta ainda que existe uma desconexão entre os colaboradores, os RH e a direção das organizações que pode comprometer o caminho para o desempenho máximo. Os colaboradores demonstram sinais de esgotamento, com apenas 44% a referir que estão a prosperar no trabalho, um declínio acentuado face aos 66% registados em 2024 – um valor ainda mais baixo do que o registado durante a pandemia de COVID-19. Além disso, a preocupação dos colaboradores com a perda de emprego devido à IA aumentou de 28% em 2024 para 40% em 2026.
Este cenário ameaça a produtividade, uma vez que uma força de trabalho esgotada, marcada pelo «FOBO» (fear of becoming obsolete – medo de se tornar obsoleta), não consegue manter um desempenho sustentado.
A ansiedade irá comprometer a produtividade, a menos que os líderes a abordem. A maioria dos colaboradores (62%) concorda que os líderes subestimam o impacto emocional da IA, mas apenas 19% dos responsáveis de RH consideram esses impactos como parte da sua estratégia de implementação digital.
Embora a principal prioridade dos executivos de topo, em termos de retorno do investimento, seja a reestruturação do trabalho para incorporar IA e automação (63%), a principal prioridade dos RH é melhorar a experiência dos colaboradores para atrair e reter os melhores talentos. Numa altura em que as empresas têm de se transformar para a era homem-máquina, os executivos de topo e os RH não estão alinhados quanto aos fatores que impulsionam o desempenho.
Para a direção executiva, o futuro da função de RH reside na gestão conjunta do talento humano e dos agentes digitais (82%). Talvez por esta razão, os profissionais de RH estejam a considerar formas de reinventar a função, com muitos a defender que as funções de RH e TI se deverão aproximar.
Um novo modelo de liderança
Apesar do forte investimento na implementação da IA, os líderes da direção executiva estão hoje menos confiantes de que a sua organização está bem preparada para ter sucesso na era homem-máquina – 51% em 2026, contra 65% em 2024. À medida que as empresas se preparam para um futuro impulsionado pela IA, inspirar a mudança e adotar novas formas de trabalhar tornaram-se fundamentais. Os investidores reconhecem isso, com 83% a afirmar que as organizações lideradas por executivos adaptáveis e resilientes terão um desempenho superior ao dos seus pares durante a disrupção.
Apesar de 75% dos líderes reconhecerem a necessidade de as suas organizações se tornarem mais digitais para competir, apenas 30% classificam a sua agilidade digital como elevada. Colmatar esta lacuna é vital, uma vez que a fluência em IA se tornará tão crítica para o sucesso da liderança como a perspicácia financeira, refere a Mercer.








