Escritores famosos contestam a utilização das suas obras pela IA

Milhares de escritores de todo o mundo uniram-se num movimento comum para protestar contra o uso pela inteligência artificial das suas obras protegidas por direitos autorais.

O conflito entre a indústria criativa e as grandes empresas de tecnologia, concretamente as de inteligência artificial, deu origem a um movimento sui generis no Reino Unido pelo facto de estas usarem livros de autor para testarem os seus modelos de IA sem pagarem direitos de autor.

Um grupo de quase 10 mil escritores uniu-se para protestar contra o “roubo” de livros por empresas de inteligência artificial (IA) e decidiu publicar o “Don’t Steal This Book”  (“Não roube este livro”, na versão portuguesa), um livro em branco onde apenas consta a lista dos nomes que assinam o protesto. Ali, podem encontrar-se escritores de relevo da literatura mundial entre os quais o Kazuo Ishiguro, Nobel da Literatura em 2017, Philippa Gregory, Richard Osman, Mick Herron, Marian Keyes, o historiador David Olusoga ou Malorie Blackman. O “livro” foi apresentado em meados de março na Feira do Livro de Londres.

Coordenado pelo compositor e ativista Ed Newton-Rex, o movimento teve como ponto de partida uma proposta do governo britânico que, entre outras medidas, quer permitir que as empresas de inteligência artificial possam usar obras protegidas por direitos autorais para treinar seus modelos de IA sem autorização prévia dos autores. Ou seja, o autor da obra tem de divulgar perentoriamente que não permite a utilização do seu trabalho, porque se não o fizer é assumido que permite o seu uso.

Acontece que o desenvolvimento de alguns sistemas de IA depende de grandes volumes de dados, entre os quais textos, livros e obras visuais disponíveis na internet, na sua maioria protegidos por direitos de autor e que acabam por não ser pagos.

Para Newton-Rex, um dos nomes mais ativos na luta pelos direitos autorais dos criadores face ao avanço da inteligência artificial, a questão vai além da legislação. Na sua opinião, a indústria de IA foi “construída com trabalho roubado, sem permissão ou pagamento”. Além disso, considera que “a IA generativa concorre diretamente com as pessoas cujas obras usa para treinar, retirando delas o sustento”, afirmou ao The Guardian.

A controvérsia entre as empresas de IA e as indústrias criativas já levou a processos judiciais, em vários países, e numa chamada de atenção para o problema, a indústria editorial no Reino Unido reagiu com o “Don’t Steal This Book”.

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