Opinião

Liberdade, resistência e o papel transformador da educação e da cultura nas sociedades

Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus
Foto: Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus

O regresso após o merecido período de férias é, para mim, um momento de reflexão. É nesta fase que revejo objetivos, é tempo para repensar em estratégias e, acima de tudo, volto a centrar-me no essencial: aquilo que quero construir, transformar e quem quero impactar.

Desta vez, não vos quero falar apenas sobre a importância do regresso à rotina. Quero falar-vos de algo mais profundo, que me marcou durante estas semanas de pausa: um filme que considero absolutamente essencial nos tempos que vivemos – “Ler Lolita em Teerão”, inspirado na obra de Azar Nafisi.

A história de Nafisi transporta-nos para o Irão pós-Revolução Islâmica, onde sete jovens alunas, em segredo e com risco para as suas vidas, reúnem-se para ler obras proibidas do Ocidente. Para elas, estes encontros eram mais do que simples leituras: eram momentos de verdadeira liberdade num regime onde, especialmente para as mulheres, tudo estava limitado.

E foi precisamente esta palavra – liberdade – que ecoou na minha mente. Porque, ao observar estas mulheres, percebo que a sua coragem não é apenas um ato de rebeldia, mas um exemplo vivo de resistência e de esperança.

Num mundo em que assistimos, ainda hoje, a retrocessos no que diz respeito aos direitos fundamentais, estas histórias recordam-nos de que não podemos aceitar passos atrás. A luta pelos Direitos Humanos, e em especial pelos direitos das mulheres, não é um tema distante ou restrito ao Irão: é uma causa universal, que exige a nossa atenção e a nossa voz.

Azar Nafisi afirma que as novas gerações, com acesso à internet e a uma visão global, carregam consigo a possibilidade real de transformação. E não falamos apenas de política: falamos de valores existenciais – de liberdade, dignidade e equidade. O acesso à Internet permite-lhes ter a mundividência necessária para perceberem que as leis pelas quais se regem são na verdade um atentado contra a sua própria individualidade. Um atentado contra as suas liberdades, percebendo que há mais mundo para além do seu mundo.

Exemplos recentes comprovam que o acesso à informação pode mudar vidas, tal como acontece no filme de que vos falo. Recordo o caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento. Graças à mobilização internacional amplificada pelos meios de comunicação social e à intervenção de organizações de Direitos Humanos como a Human Rights Watch, contribuíram para que a sentença fosse revertida, assumindo que este ato era algo primitivo e um atentado contra os Direitos Humanos. Vários atores conhecidos do público e dirigentes políticos condenaram publicamente e veemente este ato. O caso mostrou-nos que quando conhecimento e consciência coletiva se unem, a mudança torna-se possível. Mudar é possível!

A educação desempenha um papel central. Voltamos sempre ao papel da educação e a importância que tem para a transformação do futuro, como escrevo em quase todos os meus artigos. É através dela que formamos cidadãos críticos, capazes de questionar, de se posicionar e de construir soluções, fazendo-os entender que o mundo vai muito além das suas realidades geográficas, sociais e culturais. E é também através da leitura, como nos mostra “Ler Lolita em Teerão”, que encontramos respostas às questões mais recônditas. Temos de procurar essas respostas, onde menos esperamos encontrá-las.

Vivemos um momento histórico que pode ser de mudança. O enfraquecimento de regimes opressivos, como os do Irão, que devido aos últimos acontecimentos e guerras têm demonstrado a sua fraqueza e a dificuldade em manterem os seus valores e normas primitivas erguidas, sendo que aquilo que consideravam inabalável parece estar a ser colocado em causa, porque a força das novas gerações, cada vez mais informadas e conectadas, podem abrir caminho para transformações profundas. É por esse motivo que vemos os jovens a serem presos pela forma como se vestem, pelos livros que leem, pelas músicas que ouvem, pela forma como pensam. Pensar, talvez seja este o grande mal para sociedades como esta de que vos falo.

A escritora Nafisi numa entrevista dada acerca da importância que a Internet tem para as gerações mais jovens em regimes oprimidos disse algo que considero ser bastante importante e que deixo para reflexão. Cito:  “O mundo ficou menor, e isso é bom para as relações e para os Direitos Humanos”. A internet veio aproximar as nossas realidades.

Como líderes – seja no setor da educação, seja em qualquer outro – temos a responsabilidade de fomentar ambientes que valorizem a liberdade, a empatia e o pensamento crítico. Porque só assim podemos preparar as novas gerações para o exercício pleno da cidadania e da defesa intransigente dos Direitos Humanos.

Tal como as mulheres de Teerão encontraram na leitura um ato de resistência, nós também devemos encontrar na educação um ato de coragem e compromisso.

O passo deve manter-se firme. A luta por um mundo melhor começa todos os dias. A Educação é a nossa melhor forma de transformarmos o Planeta. A Humanidade conta connosco!

Bibliografia:

Stamboroski, A. (2010, agosto, 06). “A juventude é a esperança do Irão para o futuro”, diz Azar Nafisi. Globo 1.
Salem, M. (2025, julho, 01). Análise: Líder supremo do Irão enfrenta o maior desafio até agora. CNN Brasil.

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Teresa Damásio

Teresa Damásio

Teresa Damásio é Administradora do Grupo Ensinus desde julho de 2016, que faz parte do Grupo Lusófona, o maior grupo de ensino de língua portuguesa no mundo. É também Administradora do Real Colégio de Portugal e do Grupo ISLA. Presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau e Membro do Conselho de Administração do ISUPE Ekuikui II, em Angola. Presentemente, integra a Direcção da AEEP. Foi fundadora da Internacionalização do Grupo Lusófona, passou pela Assembleia da República como... Ler Mais..

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