Que o empreendedorismo constitui um motor fundamental do desenvolvimento económico e social dos países, regiões e comunidades é já hoje plenamente aceite pelos líderes mundiais e pelas principais instâncias internacionais.

E que a aposta no “empreendedorismo” é mais eficaz do que a aposta na mera constituição de novos negócios (indiferenciados) também está na base de muitas políticas implementadas a nível local e nacional. E porquê? Porque o empreendedorismo está focado na criação de novos negócios – que sejam inovadores e que se diferenciem dos já existentes – pelo que as probabilidades de sobrevivência são maiores (assim mostram as estatísticas mais recentes do GEM, PORDATA ou INE).
No entanto, mesmo constituindo negócios inovadores, a taxa de mortalidade dos novos negócios recém-formados é elevada, especialmente em Portugal (cerca de 50% das novas empresas tendem a morrer ao fim de apenas dois anos de atividade, de acordo com a PORDATA). Perante este cenário, uma questão fundamental se coloca: O que é que está na base da decisão de fundação de um novo negócio? Por outras palavras: Porque é que as pessoas decidem criar novos negócios?

Olhando para os diferentes estudos de caso e para a literatura, tendem a existir duas abordagens fundamentais acerca da decisão de criar novos negócios: uma de tipo top down e uma outra de natureza mais bottom up. A primeira abordagem, mais tradicional, tende a defender que as novas ideias advêm de uma longa experiência profissional numa dada área, em que os potenciais empreendedores exploram a fundo a concorrência, mostrando-se a seguir capazes de identificar uma nova oportunidade (que vem preencher uma lacuna no mercado). E esta convicção leva os potenciais empreendedores a elaborarem extensos planos de negócio, em que fundamentam muito bem a sua proposta de valor face à concorrência.

Um olhar atento pelos casos de êxito do empreendedorismo – como a Starbucks, a Amazon ou as (chinelas) Havaianas – mostra que talvez nem sempre a geração de novas ideias siga esta abordagem tradicional. Tal como defendido pela especialista Saras Sarasvathy, através do método “Talk Loud” – em que pedia aos empreendedores de sucesso que partilhassem as suas experiências, motivações e geração de soluções – muitas das ideias de negócio surgem das mais variadas experiências (em atividades de lazer, por exemplo), dos conhecimentos e das competências desenvolvidas nessas atividades e da rede de contactos. A vontade destes empreendedores em empreender é tão grande que, mais importante do que elaborar extensos planos de negócios, é passar à prática: “arregaçar as mangas e fazer acontecer!” – i.e. criar negócios!

Em tom de conclusão, o campo profissional não tem que assumir-se como a área por excelência para a geração de novas ideias! Mas … e mais importante ainda – que é comum às duas abordagens – é o fator “experiência”! Mesmo na abordagem mais emergente, as novas ideias tendem a surgir de uma experiência e prática continuada e deliberada nas mesmas atividades. Só assim os potenciais empreendedores se mostram capazes de perceber “o que está a ser feito” e “o que é que pode ser melhorado”, tal como tive oportunidade de escrever no livro “Paixão e Talento no Trabalho”[1]. E esta ideia é aplicável a casos tão diferenciados como o fundador da Microsoft, Bill Gates, ou mesmo o líder espiritual Mahatma Gandhi, também ele um grande empreendedor (como desenvolvi nesse mesmo livro).
Finalizando: desde que haja motivação (paixão) é a prática (experiência, talento) que leva à criação de novos negócios inovadores e sustentáveis!

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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[1] Palma, P. J. & Lopes, M.P. (2012). Paixão e Talento no Trabalho. Lisboa: Edições Sílabo.

 

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Sobre o autor

Patrícia Jardim da Palma

Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais