Dar voz a portugueses que estão à frente de empresas e projetos pelo mundo fora é o objetivo do projeto do Link To Leaders e da Plataforma Portugal Agora. Leonor de Sá Machado, presidente da The Bridge Global, é a quarta convidada desta iniciativa.

Vou escrever sobre Angola. Não tem jeito. Não sei se somos nós que lideramos em Angola ou se é Angola que nos lidera. Para quem é empresário por estes lados, há um mixfeeling acerca deste tema da liderança.

Com planos, estratégias, capacitações de colaboradores, preocupação com o entendimento da cultura local e um enorme amor por esta terra, raramente, muito raramente as coisas acontecem como nós, líderes, tínhamos planeado.

Nas reuniões depois dos eventos, projetos, ações, com toda a equipa reunida numa enorme vontade de analisar “o que está bem e corrigir o que está mal”, deparamo-nos com pessoas que assumem as críticas e nos agradecem por estarmos a ensinar, mas na semana seguinte …tudo começa de novo.

É uma dinâmica interessante. É um país onde os professores são respeitados e os alunos agradecem as oportunidades. Os livros, porque há poucos, são tratados com respeito e um jornal pode ser lido duas semanas depois com a mesma atenção que teve no dia em que saiu.

Aqui, as pessoas andam quilómetros para participarem numa formação, se assim for preciso, mas é como se fosse algo natural, no momento de serem autónomos seguem os seus instintos sem se lembrarem do que lhes foi dito com veemência, autoridade, mas também amor e respeito.

Sou CEO de duas empresas que vingaram no mercado com conceitos próprios e uma postura Angolana. Tornei-me também Nacional porque para mim não há outro lugar onde quisesse trabalhar. Orgulhosamente, represento a minha empresa como Angolana, para grande alegria dos meus colaboradores.

Na verdade a liderança é uma aprendizagem mútua que se vai ajustando, criando novas formas e adequando localmente conhecimentos passados. Não é rápido nem satisfatório para quem vem de fora e confunde esta questão da liderança com poder.

Acabamos, como responsáveis, por nos apaixonarmos por estas pessoas que não gritam nunca, que são educadas e respeitadoras mas que de um dia para o outro se vão embora, depois de anos de investimento em formação. É impossível saber para onde vão trabalhar. Ficamos zangados, injustiçados pela traição e eles agradecem-nos pelo que fizemos por eles.

É toda uma forma de pensar que é diferente. Podemos liderar de uma forma mais agressiva ou ameaçar ou despedir como exemplo, nada disso vai mudar a sua forma de pensar ou atuar.

Precisamos explicar exatamente o que queremos vezes sem conta, não porque não entendem, mas porque precisam mudar uma introversão de emoções ligada ao que a vida os fez passar, afinal ganharam hábitos próprios que nós queremos mudar. É muito importante esse respeito que lhes devemos.

Depois de muitas explicações, de uma paciência enorme, ficamos com equipas maravilhosas de jovens que trabalham com sentido de humor, competência e espírito de sacrifício.

Momentos inesquecíveis de emoção, de amor conjunto pelo trabalho que fazemos, pelo apoio que damos à sociedade, pela resiliência para sobrevivermos juntos, com solidariedade, empatia e diferenças culturais imensas.

É preciso ter um grande sentido de humanidade para ser líder em Angola.


Leonor Sá Machado tem uma sólida experiência na área de Marketing, Comunicação e Responsabilidade Social.

Entre os anos de 1987 e 2013 foi executiva de importantes empresas multinacionais em Portugal e Espanha, como a Johnson&Johnson, Bimbo Bakeries, Heinz e Renova e no Banco Espírito Santo, em Angola. Atualmente, é CEO da TheBridgeGlobal, empresa de consultoria, formação, eventos, responsabilidade social e educação para a cidadania, criada em 2012. Além disso também é CEO da IMAGINE C4D e presidente da RARSE – Rede Angolana de Responsabilidade Social Empresarial.

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