Numa dessas viagens longas ao Médio Oriente que tenho vindo a fazer nos últimos anos, tive uma escala demorada em Frankfurt que me levou a passar pela livraria do aeroporto. Nas visitas a este tipo de lojas no aeroporto acabo sempre por escolher temas relacionados com Gestão, Medicina ou Psicologia. Raramente me deixo tentar por romances em inglês, prefiro ler este género de livros em português ou em espanhol. Deve ser um bias cultural.

Naquela ocasião acabei por comprar o livro GRIT da Ângela Duckworth e valeu mesmo a pena a espera no aeroporto. Essencialmente a principal mensagem do livro é que o esforço conta muito mais na fórmula para o sucesso do que o talento.

O que a autora nos demonstra através de vários estudos científicos e uma extensa investigação, é que o talento, considerado uma aptidão natural para executar uma determinada tarefa ou ação não é suficiente para atingir o nível de diferenciação que permita ter mais sucesso do que os pares.

Enquanto o esforço e a superação contínua, o espírito de sacrifício e a vontade intrínseca de fazer cada vez melhor são aspectos determinantes para atingir o sucesso, o talento apenas permite aos afortunados que o possuem, começar a corrida mais à frente. Mas se estes não tiverem garra, a força de carácter e a coragem para continuar em situações difíceis, rapidamente serão ultrapassados.

É fácil entender este conceito em alguns setores de atividade, onde certas personalidades se destacam de forma consistente nos resultados que obtêm ao longo do tempo. No desporto e na música todos sabemos identificá-los. No nosso grupo de amigos e no contexto profissional próximo também é fácil distinguir as pessoas que têm estas características desenvolvidas e até é possível fazê-lo de forma mais ou menos intuitiva. Mas o que para mim foi interessante verificar é como no contexto do empreendedorismo a tripla de variáveis paixão-resiliência-vontade de superação é um factor crítico de sucesso indiscutível. Eu até diria que é absolutamente impossível ser empreendedor sem ter “grit”.

Não é possível apenas com paixão e talento criar uma empresa, fazê-la crescer e eventualmente acabar por vendê-la bem. Porque a paixão desaparece quando é necessário repetir todos os dias a apresentação de um produto sem obter nenhum resultado a médio prazo (mais de dois e meio é um sinal claro). Porque o talento se ofusca quando não há dinheiro para pagar ordenados decentes a ninguém e o promotor tem de fazer tarefas que nada estão relacionadas com “o tal talento”.

Há uma dose de sacrifício e dor que nos situa na linha que separa o querer desistir do “vou conseguir”, que não se pode chamar só resiliência, porque aquela tem outro ingrediente que complementa esta: a garra! Absolutamente essencial para o instinto de sobrevivência.

Refleti sobre como virá a ser o sucesso da nova geração de empreendedores, porque embora reconheça muitas virtudes nos millennials, a paciência e a automotivação não se encontram entre elas. É hoje difícil convencer um jovem a esperar por resultados que não são imediatos ou muito próximos. Adicionalmente a minha experiência de trabalho em empresas com colaboradores de média inferior a 25-30 anos, mostra que a gestão destas organizações tem uma grande preocupação por manter constantemente motivados esses colaboradores, numa tentativa de redução das taxas de rotatividade. Hoje, as empresas oferecem-lhes benefícios extraordinários na procura pela diferenciação e como mecanismos de “âncora” .

Quando penso em jovens empreendedores da nova geração não consigo resolver a equação do sucesso baseada na paixão-resiliência-vontade de superação.

Poderíamos sentir a tentação de fugir do problema e concluir que talvez não haja empreendedores na nova geração, mas seria absurdo porque nenhuma sociedade evolui sem espírito empreendedor.

Talvez aconteça uma de duas coisas:

Ou o conceito de empreendedorismo muda e tem de ser entendido de outra forma mais profunda e contextualizada de forma correta, o que, já agora, não seria necessariamente mau porque hoje qualquer pessoa se atribui o nome de empreendedor sem ter o perfil necessário ou o ecossistema lhe dá este nome sem ele/ela ter dado provas nem de sucessos nem de fracassos;

Ou encontramos uma forma eficaz de ensinar e desenvolver nas escolas os princípios subjacentes ao conceito de “grit”.

Aposto em que esta é uma equação com as duas soluções.

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Sobre o autor

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Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais