Uma carreira já não chega. Geração Z aposta em múltiplas fontes de rendimento.
33% dos profissionais da Geração Z já têm ou ponderam ter uma atividade profissional paralela, sendo que 48% procuram desta forma reforçar a sua segurança financeira, diz estudo.
O Dia Internacional da Juventude, celebrado hoje, constitui uma oportunidade para refletir sobre a transformação do mundo do trabalho e sobre o papel das gerações mais jovens na definição do seu futuro. À medida que a Geração Z ganha um peso cada vez mais significativo no mercado de trabalho, devendo representar cerca de um terço da força de trabalho global até 2030, compreender as suas necessidades, frustrações e ambições torna-se cada vez mais importante para as empresas.
Um novo estudo da International Workplace Group (IWG), plataforma de trabalho e fornecedora de espaços de trabalho flexíveis, revela que os profissionais da Geração Z estão a repensar as suas carreiras, adotando percursos mais flexíveis, potenciados pela IA e assentes em múltiplas fontes de rendimento, com o objetivo de reforçar o seu potencial de rendimento a longo prazo.
A IA não representa apenas mais uma vaga de inovação, mas uma das transformações mais profundas na forma como vivemos e trabalhamos das últimas décadas. O ritmo de mudança é extraordinário, com funções profissionais inteiras a serem redefinidas em tempo real e novas funções a surgirem com igual rapidez. Esta relação entre os profissionais mais jovens e a tecnologia é já visível em Portugal. De acordo com o Gen Z and Millennial Survey 2025, da Deloitte, mais de metade dos inquiridos portugueses da Geração Z, 54%, afirma utilizar IA generativa no seu trabalho diário, enquanto 72% considera que a tecnologia melhorou a sua produtividade.
Paralelamente, os jovens portugueses estão a entrar num mercado de trabalho marcado pela pressão financeira, por uma menor previsibilidade dos vínculos laborais e por uma rápida transformação tecnológica. De acordo com um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, quase 39% dos trabalhadores com menos de 30 anos têm contratos temporários, enquanto dados da Deloitte mostram que 54% dos inquiridos portugueses da Geração Z vivem de salário em salário.
Em conjunto, estas pressões estão a levar os profissionais mais jovens a olhar para além dos modelos tradicionais de carreira linear e a considerar de que forma a flexibilidade, o desenvolvimento de novas competências e a diversificação das fontes de rendimento podem proporcionar maior segurança a longo prazo.
O estudo da IWG sugere que está a emergir um novo modelo de carreira, no qual o sucesso depende cada vez mais não apenas das competências técnicas, mas também da adaptabilidade, do espírito empreendedor e da capacidade de trabalhar lado a lado com tecnologias em rápida evolução.
Com base num estudo realizado junto de profissionais da Geração Z no Reino Unido, os resultados mostram que 33% já têm ou ponderam desenvolver uma atividade profissional paralela, sendo que quase metade, 48%, é motivada pela necessidade de obter um rendimento adicional e alcançar maior segurança financeira num contexto de aumento do custo de vida, inflação e dívida estudantil.
Crescem os percursos profissionais com múltiplas fontes de rendimento
Em vez de depender exclusivamente de uma única entidade empregadora ou função, a Geração Z está cada vez mais a construir “carreiras de portefólio”, combinando diferentes fontes de rendimento como forma de tornar os seus percursos profissionais mais resilientes num contexto de incerteza económica e tecnológica.
Esta mudança está estreitamente relacionada com a crescente influência da IA, com 55% dos profissionais a acreditar que esta tecnologia irá transformar as suas carreiras. Em resposta, os jovens estão a desenvolver proativamente novas competências e a diversificar as suas fontes de rendimento, procurando manter-se adaptáveis à medida que as funções continuam a evoluir.
Uma tendência semelhante de diversificação dos rendimentos está também a emergir em Portugal. Um estudo do Observador Cetelem revela que 74% dos jovens adultos entre os 18 e os 35 anos já têm ou ponderam vir a ter uma segunda fonte de rendimento, através de um segundo emprego ou de um projeto paralelo.
O mesmo estudo indica ainda que quatro em cada dez já conciliam a sua principal atividade profissional com uma fonte adicional de rendimento, enquanto 34% ponderam fazê-lo no futuro.
Esta tendência reflete também uma transformação mais ampla do futuro do trabalho: à medida que a IA assume um número crescente de tarefas técnicas e repetitivas, as competências humanas, como criatividade, colaboração, adaptabilidade e liderança, tornam-se ainda mais valiosas. De facto, 90% dos responsáveis de Recursos Humanos consideram que não dar prioridade às competências humanas representa um risco para a inovação, enquanto 65% afirmam que a IA não consegue replicar a empatia humana e 53% consideram que a liderança continua a ser uma capacidade exclusivamente humana.
Mobilidade profissional impulsionada pelo potencial de rendimento
O potencial de rendimento continua a ser um fator determinante. Entre os profissionais que mudaram de função nos últimos três anos, 30% afirmam que a principal motivação foi conseguir um salário mais elevado e 43% mudaram de função duas ou três vezes durante este período.
Contudo, a Geração Z não está simplesmente a seguir os percursos tradicionais de progressão profissional. Em vez disso, muitos jovens estão a adotar uma abordagem de “career lily pads”, deslocando-se estrategicamente entre funções, setores e projetos com o objetivo de aumentar o seu potencial de rendimento e responder a compromissos financeiros como renda, despesas correntes e pagamentos associados a empréstimos estudantis.
Para os profissionais mais jovens, as tradicionais longas deslocações diárias para o trabalho são cada vez mais vistas como um modelo ultrapassado. Muitos querem trabalhar mais perto de casa, a partir de espaços de trabalho profissionais e com recurso a tecnologia que lhes permita colaborar, criar redes de contactos e desenvolver as suas carreiras sem passarem várias horas por dia em deslocações.
Segundo o estudo, 65% dos profissionais da Geração Z afirmam que estariam menos disponíveis para desenvolver projetos empreendedores ou múltiplos percursos profissionais caso tivessem de realizar longas deslocações diárias para o trabalho.
A importância da flexibilidade é também evidente em Portugal. Mais de um em cada quatro profissionais portugueses da Geração Z, 27,2%, afirma que recusaria uma proposta de emprego com um salário mais elevado caso a entidade empregadora não disponibilizasse a possibilidade de trabalhar remotamente ou num modelo híbrido, de acordo com um estudo da Randstad.[v]
O trabalho híbrido e flexível está a facilitar esta transformação, proporcionando aos jovens profissionais maior controlo sobre o seu tempo. Cerca de 24% afirmam que o trabalho híbrido reduz o tempo gasto em deslocações, libertando horas que podem reinvestir em projetos pessoais ou fontes adicionais de rendimento. Outros 20% consideram que lhes permite explorar novos percursos profissionais sem abandonar a sua principal função, enquanto 21% afirmam que facilita a colaboração com profissionais de outros setores.
O afastamento das longas deslocações diárias está também a ser reforçado pela próxima geração a entrar no mercado de trabalho. Um estudo adicional da IWG revela que três quartos, 75%, dos jovens da Geração Alpha, entre os 11 e os 17 anos, consideram que eliminar o tempo desperdiçado em deslocações será fundamental para a forma como irão organizar o seu dia de trabalho.







