Entrevista/ “Um ecossistema só ganha relevância quando liga diferentes tipos de players com objetivos complementares”
“Quando juntamos empresas que trabalham no mesmo setor, criamos contexto para discussão técnica, partilha de desafios comuns e aceleração da inovação em problemas específicos”, afirma Miguel Ricardo, General Manager do SITIO.
O Dia Mundial da Criatividade e da Inovação convida à reflexão sobre o papel das ideias na transformação das organizações. Como é que o SITIO integra estes conceitos no seu dia a dia?
No SITIO, a criatividade e a inovação não são apenas conceitos inspiracionais, fazem parte da operação diária e do mote da nossa rede de espaços de trabalhos flexível. Trabalhamos continuamente para criar ambientes onde as ideias possam surgir, ser testadas e evoluir. Isso concretiza-se através da criação de comunidades, da dinamização de eventos e workshops, da ligação entre empresas e da promoção de espaços de partilha e networking. Ao facilitar o contacto entre diferentes perfis e áreas, estimulamos a troca de conhecimento e a promoção de novas soluções que ajudam empresas a adaptarem-se e a crescerem num contexto em constante transformação.
Este ecossistema estende-se a todas as localizações da rede, independentemente da sua geografia. Com espaços em Lisboa, Aveiro, Gaia, Guimarães, em breve também Évora, entre outros, toda a comunidade SITIO beneficia desta dinâmica e das sinergias criadas entre empresas e equipas distribuídas pelo país.
“Ao contrário dos modelos tradicionais, onde o escritório é apenas um local de trabalho, no SITIO existe uma dinâmica contínua de interação entre empresas (…)”.
O SITIO posiciona-se como mais do que um espaço de trabalho, assumindo-se como um ecossistema. O que distingue, na prática, este modelo de outros formatos mais tradicionais?
O que nos distingue é precisamente a dimensão de ecossistema. Não oferecemos apenas o espaço físico, mas sim um ambiente pensado para potenciar relações, colaboração e crescimento. Ao contrário dos modelos tradicionais, onde o escritório é apenas um local de trabalho, no SITIO existe uma dinâmica contínua de interação entre empresas, acesso a programas de incubação e aceleração, ligação a investidores e uma agenda ativa de eventos. Esta abordagem cria condições para que as empresas evoluam de forma mais rápida e sustentada num ambiente colaborativo.
De que forma a diversidade de perfis — desde start-ups a grandes empresas — contribui para acelerar a criatividade e gerar inovação relevante?
A diversidade de perfis que acolhemos nas localizações da rede é um dos principais motores de inovação dentro do SITIO. Ter startups, PME e grandes empresas a partilhar o mesmo espaço permite cruzar diferentes níveis de experiência, desafios, ambição e capacidade de execução. As start-ups trazem agilidade e novas ideias, enquanto as empresas mais consolidadas aportam escala, conhecimento de mercado e estabilidade. Esta complementaridade gera oportunidades únicas de colaboração, acelera processos criativos e potencia o desenvolvimento de soluções mais robustas e relevantes.
“Neste espaço [AIhub ] têm emergido projetos ligados à aplicação prática da inteligência artificial em diferentes sectores (…)”.
O AIhub é um dos exemplos mais recentes dessa aposta. Que tipo de projetos e dinâmicas têm emergido deste hub?
O AIhub é um excelente exemplo de como estamos a materializar esta visão. Neste espaço têm emergido projetos ligados à aplicação prática da inteligência artificial em diferentes sectores, desde automação de processos a soluções de análise de dados e machine learning. Para além dos projetos, destacam-se as dinâmicas colaborativas, como workshops, sessões de partilha entre startups e corporates, e iniciativas que promovem a adoção de IA por empresas e instituições. O objetivo é criar um ponto de referência que acelere a inovação nesta área em Portugal.
Este projeto conta com parceiros como a Unicorn Factory Lisboa, a Microsoft, a Accenture e a Avanade. Que papel têm estas parcerias na criação de valor dentro do ecossistema?
Estas parcerias são estruturais para aquilo que queremos construir no SITIO. Um ecossistema só ganha relevância quando liga diferentes tipos de players com objetivos complementares. É exatamente isso que conseguimos aqui.
Por um lado, temos parceiros com uma forte componente tecnológica e capacidade de investigação, como a Microsoft e a Avanade, que trazem conhecimento técnico, acesso a ferramentas avançadas e contacto com tendências globais. Por outro, organizações como a Accenture contribuem com uma visão estratégica e com experiência na implementação de soluções em larga escala dentro de grandes empresas.
A Unicorn Factory Lisboa desempenha também um papel muito relevante ao nível da ligação ao ecossistema empreendedor da cidade e à estratégia de inovação de Lisboa, o que reforça a capacidade de atrair talento e projetos diferenciadores. O mais importante é que estas entidades não estão apenas associadas ao projeto. São parte integrante da nossa comunidade.
Para além da Inteligência Artificial, o SITIO tem vindo a apostar em hubs como Saúde, Urban Tech, Web3 e Gaming. Qual é a importância desta especialização por áreas?
A especialização por áreas é uma peça importante da nossa estratégia porque permite criar comunidades com foco, densidade de conhecimento e maior capacidade de gerar soluções relevantes. Quando juntamos empresas que trabalham no mesmo setor, criamos contexto para discussão técnica, partilha de desafios comuns e aceleração da inovação em problemas específicos.
No caso de áreas como Saúde, Urban Tech, Web3, Gaming ou fintech, como na Fintech House, isso é particularmente evidente. São setores com dinâmicas próprias, desafios complexos e forte evolução tecnológica. Ter hubs dedicados permite aprofundar esse conhecimento e criar condições para que surjam projetos mais maduros e alinhados com as necessidades reais do mercado.
No entanto, apesar de os hubs serem claramente uma mais-valia por estas razões, é igualmente importante sublinhar outro fator diferenciador do SITIO. Ter espaços onde empresas de diferentes setores e áreas de atuação coabitam é tão ou mais valioso.
Muitas vezes, as soluções para os desafios que uma empresa enfrenta estão a ser desenvolvidas no mesmo piso, por outra equipa que trabalha num setor completamente diferente. Outras vezes, são formas distintas de ver um problema que acabam por desbloquear uma ideia que estava parada. Essa convivência diária entre indústrias diferentes cria um nível de serendipidade muito difícil de replicar noutros contextos. É precisamente na interseção entre especialização e diversidade que o ecossistema ganha mais força e produz inovação com maior impacto.
“Quando vemos empresas a nascer, crescer e colaborar dentro da nossa rede, sabemos que estamos a cumprir a nossa missão”.
Muitas vezes fala-se de inovação, mas nem sempre de impacto. Como é que o SITIO mede ou observa o impacto real das ideias que nascem nos seus espaços?
O impacto mede-se sobretudo pela evolução das empresas que fazem parte do SITIO. Observamos isso através do crescimento das equipas, da captação de investimento, das parcerias que surgem dentro dos nossos espaços e da capacidade de escalar projetos. Para além de métricas quantitativas, valorizamos também o impacto qualitativo, como a criação de sinergias, a retenção de talento e a satisfação dos membros. Quando vemos empresas a nascer, crescer e colaborar dentro da nossa rede, sabemos que estamos a cumprir a nossa missão.
Num contexto altamente competitivo, como é que estes ambientes contribuem para atrair e reter talento qualificado?
Estes ambientes são cada vez mais relevantes para atrair e reter talento porque respondem às expectativas atuais dos profissionais. Hoje, as pessoas procuram mais do que um local de trabalho, procuram flexibilidade, bem-estar e sentido de comunidade. No SITIO, criamos espaços confortáveis, dinâmicos e humanos, onde existe interação, eventos e oportunidades de desenvolvimento. Isso ajuda as empresas a oferecer uma experiência mais rica aos seus colaboradores, o que se traduz em maior satisfação e retenção.
“Esta lógica de descentralização e proximidade está também presente na expansão da nossa rede, com a abertura prevista de um novo espaço em Évora (…)”.
Como antecipa a evolução dos espaços como o SITIO nos próximos anos, tendo em conta tendências como trabalho híbrido, inteligência artificial e descentralização das equipas?
Vejo uma mudança muito clara no papel dos espaços de trabalho. Cada vez mais, as empresas procuram soluções como o SITIO porque querem focar-se exclusivamente no seu negócio e eliminar tudo aquilo que não é core. Isso inclui decisões e tarefas que tradicionalmente ocupam tempo e energia, mas que não fazem parte da sua atividade principal.
Quando uma empresa escolhe o SITIO, não precisa de pensar em questões como gestão de instalações, internet, limpeza ou serviços de apoio. Não precisa de se preocupar com o que acontece quando a equipa cresce ou quando há necessidade de reorganizar espaço. No nosso modelo, isso está resolvido. Se a empresa precisa de crescer, muda de sala ou de piso. A infraestrutura acompanha o crescimento de forma natural e imediata. Isto resolve também um problema muito concreto de muitas organizações. O crescimento deixa de ser um desafio logístico e passa a ser apenas um desafio de negócio.
Por outro lado, vemos cada vez mais empresas a utilizar estas soluções como parte da sua proposta de valor para os colaboradores. Não é apenas uma decisão operacional, é também uma ferramenta de atração e retenção de talento. Há empresas com sede em Lisboa, por exemplo, que recorrem aos nossos espaços descentralizados para oferecer aos seus colaboradores a possibilidade de trabalhar mais perto de casa, com maior flexibilidade e melhores condições.
Esta lógica de descentralização e proximidade está também presente na expansão da nossa rede, com a abertura prevista de um novo espaço em Évora, reforçando o nosso compromisso de levar inovação e novas dinâmicas de trabalho a diferentes regiões do país. Este tipo de utilização reforça a ideia de que o espaço de trabalho deixou de ser apenas um local fixo. Passou a ser uma rede de acessos, distribuída e adaptável às necessidades das equipas.
No futuro, acredito que este modelo vai ganhar ainda mais relevância. O trabalho híbrido vai consolidar-se, a inteligência artificial vai automatizar muitas das tarefas operacionais e a descentralização das equipas vai aumentar. Nesse contexto, o valor estará cada vez mais em soluções que simplificam a vida das empresas e lhes permitem concentrar energia no que realmente importa para o seu negócio.
Se tivesse de deixar uma ideia-chave sobre criatividade e inovação nas empresas portuguesas, qual seria?
A criatividade e a inovação não acontecem de forma isolada. Surgem quando existem as condições certas para colaboração, diversidade e “meter as mãos na massa”. Mais do que investir apenas em ideias, as empresas portuguesas devem investir em ambientes e ecossistemas que permitam que essas ideias cresçam, ganhem forma e tenham impacto real.








