“Crescer para a vida” numa época onde o desejo comum passava por trabalhar numa única grande empresa em busca de estabilidade financeira e com o sonho de alcançar uma carreira sólida e duradoura, incute-nos muitas vezes, um sentimento de medo do desconhecido e uma falta de confiança em nós próprios.

Mas o facto é que, atingindo a barreira dos 40, posso afirmar que realmente o nosso “eu” transborda, a alma inflama e damos vazão a uma série de pensamentos que já não representam os mesmos anseios do passado. Dá-se uma clara mudança de mindset!

Agradeço aos 20 anos de aprendizagem obtida numa carreira corporativa da qual me orgulho. Sem dúvida, sinto-me privilegiada pelas empresas por onde passei, pelas pessoas com quem trabalhei e aprendi, pelas amizades que amealhei e pelas funções que desempenhei. Tive a sorte de realmente me divertir enquanto trabalhava e aprendia.

Passar de “provadora de loiras” como carinhosamente fui nomeada em 2014 pela revista Visão, para empreendedora não foi um percurso fácil, mas a vontade de resistir às adversidades falou mais alto e com sorte, mais uma vez cruzei-me com as pessoas certas que iriam contribuir para o meu crescimento em todos os aspetos.

Start-ups e a cultura de inovação
Primeiro gostaria de fazer uma breve introdução ao tema “start-up” perante o meu ponto de vista. Mais do que a remuneração, o propósito, o ambiente e a aprendizagem passaram a ser os novos motivadores para os profissionais do agora.

A velha estabilidade dá lugar à liberdade criativa, à carreira para as profissões informais e a novos cargos multidisciplinares, fazendo com que surjam cada vez mais adeptos.

Em paralelo, o mundo passou por uma revolução digital profunda nos últimos anos, que alterou fortemente a maneira como produzimos e consumimos. Ao mesmo tempo, vivemos numa época de enorme disrupção e incertezas, na qual deixou de ser possível prevermos o futuro com precisão e passou a ser imperativo criar técnicas de gestão mais adequadas a essa nova realidade.

Uma start-up, na sua essência, deve seguir o princípio de transformação contínua. É preciso inovar sem parar, num processo de aprendizado evolutivo constante. Só assim é possível entrar em novos mercados, competir globalmente, reduzir custos e tirar partido das novas tendências tecnológicas. Nunca será um processo fácil. Pelo contrário, até pode-se dizer que será um caminho algo doloroso.

O que acontece quando uma start-up é financiada e/ou incorporada numa grande organização, é correr o risco desse ADN de “inovação constante” se perder, por isso o “empreendedorismo” deve ser integrado no tecido dessa mesma organização.

Muitas vezes, infelizmente a cultura organizacional das grandes empresas não combina com o ADN de uma start-up. São tantos departamentos, tantas regras, tantas ideias preconcebidas, que qualquer possibilidade de inovação é sufocada.

Mesmo que uma start-up acabe por integrar uma grande organização, para ser bem-sucedida precisa de um líder com uma visão clara do que pretende alcançar ao mesmo tempo que compreenda a necessidade de desenvolver um negócio mais inclusivo e sustentável, capaz de ultrapassar as pressões de apresentar resultados rápidos e a curto-prazo, que impedem o crescimento, a inovação e a geração de valor. É preciso incentivar os investidores e empresários a adotar metas de longo prazo.

As métricas convencionais estipuladas nas grandes empresas podem não ser bem-sucedidas em start-ups que se querem inovadoras. É preciso apostar num novo tipo de métricas, que indiquem os índices de mudança futura.

A inovação enquanto pilar fundamental de uma start-up, não pode ser “delegada”. Ela existe enquanto DNA da organização, pois inovar é algo implícito no funcionamento diário de toda uma equipa que trabalha para um objetivo em comum e com uma mesma performance.

E como é ser empreendedor numa start-up?
Não há de ser diferente de ser empreendedor em qualquer outro desafio! Empreendedorismo é a palavra de ordem nos dias que correm. Vivemos um momento de oportunidades e euforia, onde ser empreendedor torna-se cada vez mais um caminho atraente e aparentemente viável.

Contudo, quando se fala em “empreendedorismo”, imaginamos muitas vezes o “empreendedor” como um ser iluminado, inspirado, visionário e realizador. De facto, deverá reunir essas características, porém, para se chegar a esse patamar de evolução, o que a maioria das pessoas muitas vezes ignora é que durante o seu percurso foi necessário passar por muitos fracassos, tentativas, erros, recomeços e muito aprendizado. E para completar a receita, devemos acrescentar uma atitude mental chamada “Resiliência”. Trata-se, pois, da capacidade de enfrentar, resistir, superar, aprender, crescer e se fortalecer em situações adversas, seja no âmbito pessoal, profissional ou empresarial.

Não existe espaço para medo de tentar, medo de errar e principalmente medo de “dar o litro”, se optarmos por uma linguagem mais popular. É justamente no desconforto que adquirimos a disciplina necessária, a capacidade de superação, a resiliência e o tão sonhado “sucesso”.

E ao mesmo tempo que vivemos num momento de oportunidades e euforia, vivenciamos a assimetria das informações e dos recursos que prevalece enquanto realidade, apesar de todo o barulho gerado pelo boom económico.

Um dos desafios que os atuais empreendedores têm de enfrentar é o forte e dissonante ruído que essa mesma euforia e aparente oportunidade estão a gerar. O excesso de informação deu lugar ao excesso de ideias, e o grande desafio passa por identificar as oportunidades que realmente respondem às nossas necessidades económicas e sociais.

Não nos podemos esquecer que “empreender” não é uma invenção deste século. O empreendedorismo existe desde que existe a humanidade e sempre foi um fator promotor do desenvolvimento económico e social de uma sociedade. O que muitas vezes acontece é uma oportunidade para reinventar o que já foi criado utilizando os recursos atualmente disponíveis que muitas vezes incorporam inovação.

Empreender é uma escolha que deve ser guiada pelo seu propósito de vida e pela meta que enquanto profissional deseja atingir.

___________________________________________________________________________________

Formada em Gestão Financeira e em Marketing, Ana Osório conta com mais de 20 anos de experiência profissional realizada na indústria de FMCG, passando pelos diferentes canais Off e On Trade. No seu percurso constam empresas como a Danone International Brands e a Unicer – Carlsberg Group.
Paralelamente ao percurso corporativo e após a conclusão do mesmo, teve a oportunidade de desenvolver outras capacidades enquanto consultora independente e empreendedora, trabalhando de perto com diferentes realidades, negócios e mercados, sobretudo, na área de inovação e tecnologia, sustentabilidade e em negócios sociais, em especial no setor das micro finanças e do capital rising.

Comentários