Segundo Mike Tyson, “toda a gente tem um bom plano, até levar um murro na cara”, afirmação forte vinda de alguém que, durante parte da sua vida, foi conhecido por acabar com “planos” de outros.

A vida ensina-nos, umas vezes por observação e outras – mais dolorosas – por vivência, que, quando menos se espera, um bom plano pode ser brutalmente interrompido por um “murro na cara”, muitas vezes sem se saber porquê. Mas, às vezes, tal até seria espectável, em função das ações realizadas ao longo do tempo. Ações, ou omissões que, mais tarde ou mais cedo, provocam tal “murro”.

Decorra este de situações limite, como podem ser as de saúde, ou de outras que podem ir de uma crise económica que leve ao fecho de uma empresa e ao desemprego dos trabalhadores, a um acidente grave ou mesmo ao acaso. Seja o que for e como for, viver é estar sujeito a levar-se muitos “murros na cara”.

A frase de Mike Tyson, mesmo que ele não o soubesse quando a proferiu, engloba em si muito mais do que a “literalidade” da mesma, vivida pelo próprio nos ringues de boxe. Tem implícita também a necessidade de uma pessoa, não deixando de planear, manter flexibilidade perante o imprevisto – o tal “murro na cara” – e, por muito que doa, não se deixar abater, mas sim levantar-se e continuar a lutar. Lutar sempre.

Num tempo em que tanto se fala de empreendedores, é fundamental, para além das justas loas que lhes são feitas, alertá-los para que não é só o bom plano, ideia ou projeto, ou o domínio de uma nova e inovadora tecnologia que os fará, e conservará, bem-sucedidos. É na resiliência e na capacidade de se reerguerem após os maus momentos, que podem alcançar, e merecer, o sucesso que almejam.

É também importante que percebam, para o seu próprio bem, que sucesso não é apenas ganhar muito dinheiro e/ou obter grande poder. Em especial não o é se, para tal, ignorarem princípios e maltratarem pessoas. Porque, um dia, quando menos esperam, levam um “murro na cara”, como resultado desse comportamento.

Julgo que, em tempos, alguém disse que só se conhece verdadeiramente a essência de uma pessoa quando esta obtém, e exerce, uma qualquer forma de poder. Seja este materializado no porteiro da discoteca que decide quem entra e quem fica à porta, no gestor que lidera colaboradores ou no político que decide quem é objeto da “bondade” das suas decisões, ações e omissões. Tenha ou não sido dito, é algo que todos nós já confirmamos por observação direta.

Então em Portugal, país onde o Estado tem um desmesurado peso na sociedade e na economia, onde tantos empregos e benesses são fruto dessa realidade, é comum observarmos como mudam certas pessoas na mudança de ciclo político. Desde aqueles que “nada eram” e, de repente, passam a “ser tanto”, até àqueles que “tanto eram” e passam “a ser nada”. A observação desta, e de outras realidades, devia tornar todos humildes, mas, antes de mais, os diretamente implicados, em especial os que chegam ao “olimpo” com tamanhos “pés de barro”. Mas é engraçado ver como, inebriados pelo recente poder, o exercem sem qualquer pejo e vergonha, atropelando quem ousa colocar-se no seu caminho. Sempre que tal vejo, lembro-me que “toda a gente tem um bom plano, até levar um murro na cara”. É que esse bendito “murro” pode demorar, mas, muito provavelmente, chegará.

Quando falamos em público ou escrevemos, para além do prazer próprio que o expressar das nossas opiniões e ideias nos proporciona, temos aquela – talvez ingénua – esperança de contribuirmos para mudar para melhor aqueles que nos ouvem ou leem, em especial se forem jovens e bem formados, e ainda passíveis de não se corromperem pelo cinismo da vida adulta ou, melhor dito, pelo cinismo de uma certa forma de “vida adulta”.

Jovens que crescem na esperança de atingir os seus objetivos e sonhos pelas suas capacidades e mérito, pelo seu esforço e resiliência, mesmo se com sofrimento, mas sempre em respeito pelos outros. Estes não irão conseguir evitar alguns dos “murros” que a vida lhes reserva, mas, provavelmente, serão menos vezes “esmurrados” e, quando o forem, não só resistirão melhor, como terão à sua volta quem os queira ajudar. Vai doer, seguro que vai, mas menos. E quem sabe se não os fará mais fortes e melhores pessoas.

Para quem merece, o desejo de bons “planos” e, sempre que possível, evitando “murros na cara”.

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Sobre o autor

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Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores. É assessor da Administração da JADE Groupe, Vogal do Conselho Fiscal da 321 Crédito, Instituição Financeira de Crédito e Director do Porto Canal. É ainda Presidente Emérito da Invicta Angels, a Associação... Ler Mais