Opinião

Em 2017 a Nike surpreendeu a todos com uma campanha a que chamaram “Time is Precious”. O objetivo era chamar a atenção para o tempo que perdemos agarrados aos nossos ecrãs, tempo que podia ser usado para correr.
A campanha tinha vários formatos e é explicada pela Nike como uma forma de cortar com a vida sedentária a que nos fomos aos poucos habituando. O que me chamou a atenção, desde que vi este anúncio pela primeira vez, foi a simplicidade com que a Nike demonstra o desperdício de tempo que muitas vezes acontece quando ficamos amarrados aos nossos ecrãs, e a patetice do que por lá vemos. Não que tempo para desligar e relaxar não seja preciso.
Lembro-me bem da pediatra das minhas filhas (uma mulher extraordinária, ótima profissional e com uma vida cheia!) me contar que todos os dias guardava para si uma meia hora de estupidificação, em que se sentava no sofá a ver uma qualquer novela e desligava do mundo. Seja desta forma ou de qualquer outra, este tempo de desligar do que nos absorve o dia inteiro é fundamental para conseguirmos seguir em frente na vida agitada e multifacetada que vivemos.
Mas não precisa ser tanto e tão permanente.
Várias são as imagens a que temos acesso de pessoas agarradas a ecrãs, nas mais diversas situações, reais ou criadas para demonstrar essa realidade. E sempre com a mesma mensagem de fundo – porque perdemos tanto tempo a viver online, muitas vezes a vida dos outros, em vez de viver a nossa vida?
Não sei qual a resposta mais correta…
Viver a vida dos outros que vemos online é mais fácil.
Sonhar online transporta-nos para mundos onde nunca poderemos ir.
Estar online implica menos comprometimento do que estar presente fisicamente.
Relações online exigem menos.
Tantas e tantas hipóteses!
E não há forma de ignorar os benefícios da comunicação feita e da informação recolhida online. A velocidade, a diversidade, a facilidade e o baixo custo são argumentos suficientes para nos impedir de negar a riqueza que o digital nos empresta. O problema é quando abusamos.
Quando a vida dos outros nos parece sempre perfeita (qual é o sítio onde toda a gente sorri e o céu é sempre azul? O Instagram!).
Quando aceitamos tudo o que lemos ou vemos sem espírito critico.
Quando somos enganados por ciência de pacotilha e factos inventados.
Quando nos escondemos atrás do ecrã por ser mais fácil.
Ou quando resumimos a nossa vida a esse mesmo ecrã.
É preciso cuidado.
A ansiedade causada pelos mundos perfeitos da vida dos outros que nos parecem inatingíveis; as asneiras que fazemos / dizemos induzidos pelo que lemos / vemos e não filtramos; o desespero por não conseguir fazer o que os “outros” fazem; o despego da realidade decorrente dum excesso de vida online… são apenas alguns dos malefícios que o uso excessivo do digital pode causar.
Deixo este desafio!
Vamos pensar sobre isto?
Vamos ter mais cuidado com aquilo em que acreditamos?
Vamos olhar mais para o que está à nossa volta e menos ao nosso ecrã?
E vamos nunca esquecer que o tempo é precioso, e que temos de gerir com o máximo cuidado como o usamos!