Opinião
Significado e propósito – trabalhar para um bem maior
Num mundo profissional cada vez mais exigente e competitivo, alcançar resultados é, sem dúvida, fundamental; no entanto, alcançar resultados a todo o custo, sempre buscando o curto prazo e de forma muitas vezes desconexa e imediatista, não garante nem estabilidade nem sustentabilidade a longo prazo dos projetos e das marcas.
Hoje as pessoas procuram cada vez mais significado naquilo que fazem. Querem saber que o seu trabalho tem valor, que contribui para algo relevante e que deixa um impacto positivo. Por isso, mais do que viver o seu trabalho como um mero meio de, como se diz “ganhar a vida”, os colaboradores das empresas e organizações são cada vez mais atraídos para projetos que, para além de apresentar cenários credíveis de sustentabilidade financeira, irrigam as suas estratégias e ações com um claro “sentido de Propósito”, bem definido, compreensível e suficientemente mobilizador para dar forma, sentido e substância aos sonhos e aspirações dos seus colaboradores, atuais e futuros.
No fundamental, ter um Propósito é compreender que o nosso trabalho vai além das tarefas, dos objetivos e dos resultados. É saber para que fazemos aquilo que fazemos e quem beneficiará com o nosso contributo. Como refere o Comendador Rui Nabeiro, na contracapa do livro “Marcas com Propósito” (1), “As empresas devem ter uma “alma” que motive todos os que nela trabalham e todos os que com ela contactem. Essa “alma” é o verdadeiro Propósito das Marcas, o significado, o valor que as torna originais, diferenciadoras, únicas”.
Para viver essa “alma”, todos, na empresa ou na organização, devem ser capazes de sentir orgulho em pertencer àquela instituição e a fruição do bem-estar que resulta de sentir que se está a contribuir para “um bem maior”.
Trabalhar para um bem maior significa colocar as nossas competências, experiência e energia ao serviço de uma visão que transcende o mero interesse individual. Significa procurar resultados que não beneficiem apenas a organização ou a nossa carreira, mas que também criem valor para as pessoas, para as equipas e para a sociedade.
Quando existe um Propósito, sentido a nível individual e em alinhamento com o Propósito da Organização, o trabalho ganha de facto uma nova dimensão. Os desafios deixam de ser apenas obstáculos e passam a ser oportunidades de crescimento. As dificuldades tornam-se momentos de aprendizagem. E os resultados deixam de ser apenas números para representar o impacto concreto que conseguimos gerar.
Uma organização com pessoas alinhadas com um Propósito comum consegue criar mais do que produtos ou serviços: cria valor, confiança e transformação. E líderes com sentido de Propósito conseguem inspirar as suas equipas, porque não comunicam apenas o que é preciso fazer, mas sobretudo porque vale a pena fazê-lo.
No fundamental, este sentido de “trabalhar para um bem maior” consiste em transformar competência em contribuição, esforço em impacto e trabalho em Propósito.
Por isso, não deixa de ser um pouco surpreendente a afirmação de Lynda Gratton, prestigiada autora de livros importantes sobre o “futuro do trabalho”, quando afirma, numa entrevista à Revista Líder, que, e cito, “no meu novo livro não uso a palavra Propósito, de todo. Abandonei-a completamente de qualquer um dos meus ensinamentos. Qual é o meu propósito? Simplesmente não sei, não faço a mínima ideia e isso faz levar as pessoas a uma mentalidade de reflexão, que diz: Meu Deus, qual é o meu propósito? Diria, simplesmente: Encontra um trabalho que gostes de fazer.”
Em primeiro lugar, sou sensível ao argumento de que falar de Propósito (ou de Missão, que é um termo que tem vindo a ser descontinuado em função do primeiro), pode redundar numa certa abstração, sendo que se torna difícil, para muita gente, ser capaz de o definir com clareza e, sobretudo, com, digamos, um sentido mais “operacional”. Eu próprio tive essa experiência, enquanto anterior formador do modelo “Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, da FranklinCovey, quando realizava um exercício correspondente ao Hábito 2, onde convidávamos as pessoas a definirem a sua Missão. O resultado era, maioritariamente, ou meras formulações do senso comum, ou, então, expressões que tinham sugestivas ressonâncias de natureza espiritual.
Todavia, reduzir o Propósito, ou mesmo, substituí-lo, por, apenas, “encontrar um trabalho de que se gosta”, pode, na minha perspetiva, conduzir a uma possível sobreposição de conceitos entre o que é o Propósito e um outro elemento que, embora complementar, é diferente tanto na sua dimensão concetual, como nas respetivas consequências práticas: o Significado.
Mas qual é, finalmente, a diferença entre Significado e Propósito?
Embora muitas vezes sejam utilizados como sinónimos, Propósito e Significado não são exatamente a mesma coisa. São conceitos diferentes, mas profundamente ligados e compreender essa diferença pode transformar a forma como encaramos o nosso trabalho, as nossas escolhas e a nossa vida.
O Propósito está relacionado com a direção. O Significado está relacionado com o valor.
O Propósito responde à pergunta para quê? É a razão que orienta as nossas ações, a visão que nos dá uma direção e aquilo que queremos alcançar ou contribuir para o mundo. Ter Propósito é saber onde queremos chegar e por que razão esse caminho é importante.
O Significado, por outro lado, responde à pergunta: porque é que isto é importante para mim?
Está relacionado com o sentido que atribuímos à nossas experiências e ao impacto que aquilo que fazemos tem em nós e nos outros. É o valor pessoal que encontramos no caminho que percorremos.
Neste sentido, podemos ter um Propósito muito claro e, ainda assim, sentir pouco Significado no trabalho. Podemos saber exatamente o que queremos alcançar, mas não sentir uma ligação emocional ou pessoal com aquilo que fazemos para alcançar esse objetivo.
Inversamente, podemos sentir uma forte ligação emocional com o trabalho e “gostarmos muito do que fazemos”, sem ter claramente a noção de qual é o nosso Propósito.
Na sua expressão mais concreta, o Propósito ajuda-nos a decidir para onde queremos ir. O Significado ajuda-nos a compreender porque vale a pena fazer essa viagem.
Pela minha experiência de muitos anos a trabalhar nesta área, reconheço que um dos problemas maiores que tenho encontrado nas organizações deriva justamente do facto de o Significado do trabalho, para os colaboradores, não estar alinhado, ou estar mesmo completamente desalinhado, com o Propósito afirmado e publicado pela gestão de topo.
O Propósito olha para o futuro: que diferença quero fazer? O Significado olha para o presente e para a experiência: Porque é que esta diferença importa? E, muito embora se diga que “o futuro é já hoje”, afirmando a impossibilidade de previsão em contextos de grande…imprevisibilidade, todo o colaborador, e todo o ser humano em geral, precisa de ter, e manter, a esperança em que algo de melhor pode vir a acontecer. E o Propósito é o principal ingrediente da esperança.
O Propósito diz-nos para onde vamos; o Significado diz-nos se vale a pena ir por onde estamos a ir. E, embora os poetas gostem de afirmar que “o caminho faz-se caminhando”, é bem verdade que muitos de nós, ou a maioria, precisa de ver “a luz ao fundo do túnel”.
Por isso, a relação entre o Propósito e o Significado é seguramente uma relação virtuosa, porque, quando conseguimos alinhar aquilo que fazemos com aquilo em que acreditamos o trabalho ganha uma nova dimensão. Deixamos de trabalhar apenas para alcançar resultados e passamos a trabalhar para criar impacto
Porque, no fim, o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelo que alcançamos, mas também pelo valor que criamos e pelas vidas que conseguimos melhorar através daquilo que fazemos.
Referências
Entrevista a Lynda Gratton. Revista Líder. Março-Agosto 2026
NABEIRO, Rui. Contracapa do livro “Marcas de Propósito” de Rita Sambado e Rodrigo Maia de Loureiro (2018). Edição Casa das Letras








