Entrevista/ “O maior desafio é crescer mantendo a cultura e a agilidade”
Para a General Manager da Biocodex Portugal, inovação não significa só lançar novos produtos, mas “questionar o status quo e encontrar novas formas de acrescentar valor”. Filipa Horta analisa o percurso dos últimos dois anos e revela as prioridades para o futuro próximo.
Há dois anos na liderança da Biocodex Portugal, Filipa Horta reconhece que hoje a empresa “está mais preparada para crescer, orientada por dados, mais ágil na tomada de decisão e mais próxima dos seus clientes e parceiros”.
A atuar no mercado da microbiota e da saúde da mulher, entre outras áreas terapêuticas, esta empresa farmacêutica quer continuar a evoluir sem perder aquilo que a distingue, “a ciência, a inovação e uma forma humana e próxima de fazer negócio”. Filipa Horta valoriza cada vez mais os dados, a inovação e as pessoas como elementos fundamentais no desenvolvimento da empresa.
Em setembro completa dois anos como General Manager da Biocodex Portugal. Que balanço faz deste período e quais foram as principais mudanças na empresa desde que assumiu a liderança?
O balanço é positivo, não apenas pelos resultados alcançados, mas sobretudo pela evolução da organização. Hoje, a Biocodex Portugal está mais preparada para crescer, orientada por dados, mais ágil na tomada de decisão e mais próxima dos seus clientes e parceiros. Uma das principais mudanças foi precisamente trazer cada vez mais dados para a forma como analisamos o negócio, definimos prioridades e tomamos decisões.
As pessoas têm sido outra prioridade muito clara, temos procurado construir uma organização onde se sintam felizes, autónomas e com espaço para crescer. Em que as segundas não pesem! Continuámos também a apostar na inovação. A inovação, para nós, não significa apenas lançar novos produtos. Significa questionar o status quo e encontrar novas formas de acrescentar valor, trabalhar com parceiros encontrando formas que criem valor para todas as partes.
Quando chegou ao cargo, afirmou que a sua missão passava por preservar o ADN da empresa e reforçar a posição da Biocodex nos mercados dos probióticos e da saúde da mulher. Até que ponto conseguiu concretizar essa visão?
Diria que estamos no caminho certo. Preservar o ADN da Biocodex não significa manter tudo como estava, mas evoluir sem perder aquilo que nos distingue: a ciência, a inovação e uma forma humana e próxima de fazer negócio. Na microbiota, reforçámos a nossa liderança e continuamos a investir na investigação e divulgação de conhecimento científico. É uma área com enorme impacto: um estudo recente do Projeto Saúdes, da AGEAS, revelou que 45% dos portugueses entre os 18 e os 65 anos sentem desconforto intestinal.
Na saúde da mulher reforçámos o nosso portefólio, nomeadamente na menopausa, uma fase da vida que está finalmente a deixar de ser tabu e que as mulheres querem viver com mais informação e qualidade de vida. É particularmente interessante ver estas duas áreas cada vez mais interligadas. A ciência tem vindo a explorar a relação entre a microbiota e várias condições que afetam a saúde da mulher, como a endometriose.
“O maior desafio é crescer mantendo a cultura e a agilidade”.
A Biocodex Portugal passou de uma equipa de cinco pessoas, quando iniciou em Portugal, para uma organização com cerca de 50 colaboradores. Quais são os maiores desafios de fazer crescer uma empresa a este ritmo?
O maior desafio é crescer mantendo a cultura e a agilidade. Uma dimensão maior exige mais estrutura e mais processos, mas temos de evitar que isso se transforme em burocracia. Queremos continuar a ser uma empresa próxima e ágil, onde as pessoas têm autonomia para agir e capacidade para responder rapidamente ao que acontece à sua volta.
A liderança tem aqui um papel fundamental. Temos hoje uma equipa de liderança muito alinhada nesta visão e o nosso próximo desafio é fazer com que esse alinhamento se estenda aos restantes managers e, progressivamente, a toda a organização.
Quais têm sido os principais motores de crescimento da operação portuguesa?
Um dos principais motores tem sido a capacidade de continuar a fazer crescer a nossa marca histórica, UL-250®. Manter o crescimento de uma marca com 60 anos, líder de mercado, num contexto cada vez mais concorrencial é, para mim, uma das nossas maiores conquistas. Temos sabido renová-la, modernizámos a sua imagem, lançámos novas apresentações e continuamos a encontrar novas formas de responder às necessidades do mercado. É interessante ver que, seis décadas depois, a força da marca continua a crescer.
Outro motor importante tem sido a melhoria da nossa capacidade de execução. Hoje conhecemos melhor o mercado, utilizamos mais dados para identificar oportunidades e conseguimos adaptar mais rapidamente a nossa estratégia.
Temos também procurado novas formas de crescer através de parcerias com clientes e outros parceiros. E, naturalmente, nada disto acontece sem uma equipa comprometida, ambiciosa e com vontade de fazer diferente. A combinação entre marcas fortes, inovação, execução e pessoas explica uma parte importante do crescimento que temos conseguido alcançar.
Que peso têm atualmente as áreas da microbiota e da saúde da mulher no negócio da Biocodex Portugal e onde identifica maior potencial de desenvolvimento?
A microbiota representa hoje uma parte muito significativa do nosso negócio. Apesar da nossa posição de liderança, continuamos a ver muito potencial de crescimento. A ciência está a mostrar-nos que o seu impacto vai muito além da saúde digestiva, abrindo novas possibilidades de intervenção em diferentes áreas da saúde.
A saúde da mulher tem ainda um peso menor no nosso negócio, mas é uma das áreas onde mais queremos crescer nos próximos anos. Existem necessidades que durante muito tempo foram pouco valorizadas e hoje há mulheres mais informadas, que procuram respostas e soluções para viver melhor.
Mas não nos fechamos nestas duas áreas. Estamos atentos a oportunidades que complementem o nosso portefólio e nos permitam aumentar a nossa relevância junto das farmácias e responder melhor às necessidades dos seus clientes.
Num setor altamente regulado e competitivo, como equilibra a necessidade de inovar com a exigência de garantir evidência científica, segurança e confiança junto dos profissionais de saúde e dos consumidores?
Na Biocodex, inovação e evidência científica não são objetivos distintos. Para nós, a inovação tem de ser sustentada por investigação robusta e por benefícios demonstrados. Temos um centro próprio de Investigação & Desenvolvimento e várias parcerias com universidades e spin-offs destas. Esta combinação entre investigação interna e colaboração com a comunidade científica permite-nos acompanhar a evolução da ciência, identificar novas oportunidades e garantir o rigor das soluções que desenvolvemos.
Num contexto em que profissionais de saúde e consumidores têm acesso a cada vez mais informação, e nem sempre é fácil distinguir a sua qualidade, esse compromisso com a ciência é também fundamental para construir confiança.
Portugal é sobretudo um mercado de comercialização ou tem condições para assumir um papel mais relevante dentro do grupo, nomeadamente nas áreas da inovação, investigação e desenvolvimento de novos projetos?
Portugal tem todas as condições para assumir um papel cada vez mais relevante dentro do grupo. Temos profissionais altamente qualificados, centros de investigação reconhecidos internacionalmente e uma comunidade médica muito dinâmica.
Temos vindo a reforçar parcerias com especialistas, sociedades científicas e instituições nacionais. Mais do que sermos um mercado de comercialização, queremos afirmar Portugal como um parceiro ativo na geração de conhecimento e no desenvolvimento de iniciativas que possam inclusivamente ser replicadas noutros mercados.
Quais são hoje os principais riscos para o crescimento do setor farmacêutico e, em particular, do mercado dos probióticos em Portugal?
No mercado dos probióticos vejo um paradoxo: temos cada vez mais oferta, mas o consumidor continua a ter poucas ferramentas para distinguir produtos muito diferentes entre si.
Na Europa, a ausência de alegações de saúde aprovadas especificamente para probióticos limita a capacidade de comunicar de forma simples e clara os seus benefícios. Ao mesmo tempo, coexistem no mercado soluções com níveis muito diferentes de evidência científica e qualidade. Nem todos os probióticos são iguais, nem se destinam ao mesmo fim. A escolha deve ter em conta a estirpe, a dose estudada, a evidência científica disponível e a garantia da viabilidade dos microrganismos ao longo do prazo de validade.
O grande desafio é, por isso, dar aos profissionais de saúde e aos consumidores melhores ferramentas para fazerem escolhas informadas.
Quais serão as principais prioridades estratégicas da Biocodex Portugal nos próximos dois a três anos? Há novas áreas terapêuticas, produtos ou segmentos de mercado que possam ganhar relevância?
Queremos continuar a consolidar a nossa liderança na microbiota e reforçar o posicionamento na saúde da mulher, mas uma das prioridades será evoluir cada vez mais para a prevenção e para a promoção da qualidade de vida. Queremos também trabalhar com as farmácias neste caminho, ajudando-as a reforçar o seu papel não apenas na cura da doença, mas também na prevenção, educação e acompanhamento das pessoas.
A microbiota tem um enorme potencial nesta visão preventiva. Queremos contribuir para aumentar a literacia sobre a importância de cuidar da microbiota ao longo da vida e mudar progressivamente a forma como olhamos para os probióticos: não apenas como uma resposta pontual quando surge um problema, mas como uma possível ferramenta para ajudar a manter o equilíbrio da microbiota e promover o bem-estar.
Como antecipa a evolução do mercado dos probióticos, numa altura em que os consumidores estão mais informados, mas também expostos a uma oferta muito diversificada e nem sempre sustentada por evidência científica?
Acredito que o mercado continuará a crescer, mas também a tornar-se mais sofisticado. Estamos a passar de uma visão do probiótico muito associada à resposta a um problema gastrointestinal pontual para uma abordagem mais ampla, ligada ao equilíbrio da microbiota, à prevenção e ao bem-estar.
Esse crescimento traz também maior responsabilidade para a indústria. Os consumidores estão mais informados e exigentes, mas simultaneamente expostos a um enorme volume de informação. Será cada vez mais importante ajudá-los a distinguir produtos sustentados por evidência científica daqueles que não apresentam o mesmo nível de validação.
E há ainda um enorme território por explorar à medida que compreendemos melhor a influência da microbiota para além da saúde digestiva e a sua relação com outras áreas da saúde. É aí que vejo grande parte do futuro desta categoria.
“(…) acredito que a IA terá um impacto extraordinário é precisamente no estudo da microbiota”.
Que transformações poderão a inteligência artificial, os dados e as novas tecnologias introduzir na indústria farmacêutica e na relação com os profissionais de saúde e os consumidores?
Uma das áreas onde acredito que a IA terá um impacto extraordinário é precisamente no estudo da microbiota. Hoje conseguimos gerar enormes quantidades de informação através da sequenciação, mas o verdadeiro desafio está em analisar e interpretar toda essa complexidade. A inteligência artificial permitirá cruzar volumes de dados impossíveis de analisar pelos métodos tradicionais, identificar padrões e acelerar a compreensão da relação entre a microbiota e diferentes áreas da nossa saúde.
O mais interessante não será termos mais dados, mas conseguirmos transformar dados em conhecimento e esse conhecimento em novas formas de prevenção e soluções cada vez mais direcionadas e personalizadas.
Mas a tecnologia vai também desafiar a forma como nos relacionamos com os profissionais de saúde. Num mundo em que o acesso à informação é praticamente imediato, as nossas interações terão de acrescentar cada vez mais valor, despertar curiosidade e trazer algo que não se encontra simplesmente numa pesquisa.
Qual foi a maior aprendizagem destes dois anos como General Manager?
Talvez a maior tenha sido perceber verdadeiramente a complexidade das pessoas. Não existem fórmulas universais: aquilo que motiva uma pessoa pode ser completamente irrelevante para outra, e a mesma decisão pode ser recebida de formas muito diferentes.
Estes dois anos ensinaram-me a procurar conhecer as pessoas para além da função que desempenham, perceber o que as move, o que valorizam, onde querem chegar e aquilo de que precisam em diferentes momentos. Tratar todos com equidade não significa necessariamente tratar todos da mesma forma.
Isso torna a liderança mais exigente, mas também muito mais interessante. Obriga-nos a ouvir mais, a questionar as nossas próprias certezas e a adaptar a forma como lideramos, sem perder coerência nem transparência. Esta individualidade reforçou também a importância que atribuo a uma comunicação clara e transparente, que reduza ambiguidades. A forma como comunicamos tem um impacto enorme no alinhamento das equipas e na forma como as pessoas se sentem na organização.
Que conselho daria a um profissional que se prepara para assumir, pela primeira vez, a liderança de uma organização em crescimento?
Diria que não precisamos de ter todas as respostas, nem de ser especialistas em todas as áreas. Devemos rodear-nos de pessoas que sabem mais do que nós, nas suas áreas de expertise, confiar nelas e criar as condições para que possam contribuir com o melhor das suas competências.
Acrescentaria a importância de manter a curiosidade: continuar a procurar conhecimento, observar atentamente o que acontece à nossa volta e fazer boas perguntas. Num mundo que muda tão rapidamente, aquilo que sabemos hoje pode não ser suficiente amanhã.
E, finalmente, tentaria nunca perder de vista o propósito. Podemos ter pessoas extraordinárias, com competências e perspetivas muito diferentes, mas é importante que saibamos para onde queremos ir e que estejamos alinhados sobre o porquê.
Como gostaria que a Biocodex Portugal fosse reconhecida dentro de cinco anos?
O nosso objetivo é que, quando se pensa em probióticos e em saúde da mulher, se pense na Biocodex como uma referência. Queremos ser reconhecidos em ambas as áreas, não apenas pela qualidade do portefólio, mas também pelo nosso contributo para o desenvolvimento científico e para a literacia em saúde. Queremos continuar a ser vistos como um parceiro de confiança dos profissionais de saúde.
Gostaria também que fossemos reconhecidos como uma empresa responsável, consciente do impacto que tem para além do negócio, com uma preocupação genuína com a sustentabilidade ambiental e com o seu contributo para a sociedade. E quero continuar a trabalhar para construir uma organização onde as pessoas se sintam cada vez mais valorizadas, desafiadas e orgulhosas de trabalhar e que esse reconhecimento ultrapasse as nossas portas.








