Para mim a liderança é pessoal, mas não sei se devia ser assim. A liderança é pessoal quando a nossa principal missão enquanto líderes é desenvolver as pessoas que estão sob a nossa responsabilidade. A liderança é pessoal quando desafiamos constantemente as pessoas que lideramos, mesmo quando isso não interessa à empresa onde trabalhamos.

Mas será que é assim que deve ser? Há várias frases atribuídas a vários líderes famosos que basicamente dizem o seguinte: se os líderes se centrarem no desenvolvimento dos seus colaboradores a empresa vai ter melhores resultados porque são os colaboradores que garantem o sucesso da empresa.

No mundo real, as coisas não são tão bonitas e cor de rosa. É que quando as pessoas aprendem mais e sabem fazer melhor, a sua função fica cada vez mais apertada e as pessoas ficam cada vez mais claustrofóbicas porque sabem que são capazes de fazer muito melhor e sabem que valem cada vez mais. Mas em muitas empresas não há muito sítio para onde ir e não há muito orçamento para pagar mais. Por isso é que não sei se é bom ter uma liderança pessoal porque é uma questão de tempo até ter que gerir frustrações em vez de gerir potencial.

A liderança também é pessoal quando os nossos projetos são uma parte de nós. Quando cada projeto é uma nova esperança. Quando cada novo projeto é um ato de expressão, tal como um novo livro é a expressão da voz de uma escritora e um novo quadro é a expressão interior de uma pintora. Os livrinhos de desenvolvimento pessoal que falam de paixão, resiliência e “grit” sugerem que isto é bom. Mas sofre-se muito assim. Não há muitas ideias que sobrevivam sem mudanças e cortes à sequência de reuniões em que se tomam decisões nas empresas. É como se alguém decidisse alterar um par de capítulos de um livro em que você escreveu cada página com todo o cuidado e deliberação, ou alguém pintasse por cima de um quadro que expressa o que lhe vai dentro.

No mundo real, lutar por uma ideia pode acabar por se tornar numa série de combates que não só não conseguimos ganhar, mas que não devemos conseguir ganhar. É que os processos de decisão nas empresas não são destrutivos por o ser. Os processos de decisão nas empresas servem para temperar ideias mais ambiciosas e para assegurar que se integram vários pontos de vista e vários tipos de conhecimento. Eu sei isso tudo, mas ainda dói ver as minhas ideias perderem uns bocados e ganhar outros quando passam de reunião em reunião.

Para mim a liderança é pessoal e vai continuar a ser assim. Tem custos e desvantagens. Mas, para mim, a verdadeira recompensa da liderança é ter um espaço de expressão da minha voz de líder. Liderar para mim é mais parecido com a arte e o artesanato, do que com a ciência e a engenharia. Algo que é uma recompensa em si mesmo, ainda que os resultados não sejam sempre os que quero.

 

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Sobre o autor

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais