Comecei a trabalhar no século passado, em 1998. Eu ainda sou do tempo em que não tinha email profissional nem internet no local de trabalho, nem telemóvel da empresa. Utilizava o fax. Recordo o pager (ou bipe), apenas de algumas conversas com amigos, não enquanto utilizadora.

O offline não era uma escolha nem um conceito ou buzz word. Era uma grande parte do nosso tempo, da nossa realidade. Por esta altura, a geração Z começava também a dar os primeiros passos, ainda pelos seus pés e sem apps.

Em 2021, em plena era da informação (ou da infoxicação?) e das distrações (demasiadas?), com o tema da saúde mental a tomar proporções nunca antes vistas, arriscaria a afirmar que o offline “is the new need“. Será o offline o novo in? Voltar a experienciar a vida, em modo mais analógico. Em 2014, o futurista Gerd Leonhard lançava o mote para o offline “as the new luxury“. Um visionário, ainda sem a lente da pandemia, a qual mudou a forma como observamos a realidade. Hoje, na sua versão 5.0. Pensando não só na “internet das coisas” mas também na tão necessária “humanidade das coisas”. Não esquecendo a possibilidade de fazermos escolhas, embora (quase) sempre always on, numa vida filmada, fotografada e vigiada por nós próprios ou por terceiros. Raramente estamos em modo pausa.

Num mundo marcado pela velocidade da mudança, pela interconexão e pela interdependência, mas também pela poluição digital, a tecnologia parece assumir um duplo papel neste filme a que chamamos vida real: por um lado, numa lógica “para o bem” (#tech4good) permitindo a proximidade e a ligação entre pessoas, com um verdadeiro impacto social. Mas, por outro, tornando-nos reféns perante a sua utilização excessiva – trabalhar e viver sem “desconectar”.

A nossa capacidade de desligar é muito mais do que fazer log off dos nossos aparelhos. Como desligar mentalmente, tendo em consideração que nós humanos, na nossa versão atual, não trazemos um botão on/off? Responsabilidade individual acrescida. O chamado efeito Zeigarnik vinga: aquela sensação incómoda que nos perturba quando temos alguma coisa inacabada, qualquer tarefa ou atividade. E se há sempre algo a acontecer e para fazer, ao ritmo frenético a que vivemos, como gerir esta sensação do ponto de vista emocional? Como e quando assumir que não podemos fazer tudo e ter tudo, apesar de tudo nos parecer acessível e possível, muitas vezes à distância de um clique? Porque não aproveitar as pausas, sem sentimentos de culpa? Relativizemos e saibamos gerir as nossas próprias expectativas, a pressão social e as nossas prioridades. Menos pode ser mais, não só na gestão profissional, mas também na gestão pessoal. Não podemos ter mais tempo nem podemos parar o tempo, mas podemos não o desperdiçar.

Façamos uma utilização inteligente da tecnologia, colocando-a ao nosso serviço. Na era do deslumbramento tecnológico, não deixaria de ser irónico observar o minimalismo digital a tornar-se numa nova tendência.

*E CEO & Founder da ONYOU

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Networker, curiosa e de espírito empreendedor, é Chief Energy Officer & Founder da ONYOU – Empowering & Learning Experiences, desenvolvendo vários projetos na área da educação e da formação de jovens universitários e executivos, com ênfase nas competências comportamentais pessoais... Ler Mais