Opinião
Se a inteligência artificial fizer o trabalho, como aprendemos a pensar?
Sabem quando antes sequer de irmos à fórmula ou procurarmos a origem do erro, há qualquer coisa que salta à vista: “Isto não pode estar certo?”. Não sabemos necessariamente ainda onde está o problema. Mas sabemos que há um problema.
Esse instinto não nasceu connosco. Construiu-se depois de vermos centenas de análises, fazermos contas, cometermos erros, percebermos ordens de grandeza e aprendermos como determinadas variáveis se relacionam. Se deixarmos de fazer o trabalho, como desenvolvemos o critério para avaliar o trabalho que a IA faz por nós?
Sou uma entusiasta de IA, parei a ONE por 4 dias para todos termos uma formação em ferramentas de IA muito prática – é uma preocupação e algo que pode potenciar muito uma organização.
E não tenho dúvidas de que a IA nos vai tornar muito mais produtivos. Já o está a fazer. Eu própria a uso diariamente e seria absurdo defender que devemos continuar a fazer manualmente aquilo que uma ferramenta consegue fazer melhor e mais depressa.
Durante muito tempo, uma parte importante da nossa aprendizagem profissional aconteceu precisamente enquanto fazíamos o trabalho. Um analista não aprendia apenas a construir um modelo. Ao construir dezenas de modelos, começava a ganhar referências. Um número parecia demasiado alto. Uma margem não podia ter variado daquela forma.
Com o tempo, deixava de precisar de verificar tudo para perceber que alguma coisa não batia certo. Chamamos-lhe experiência, judgement, sentido crítico. Mas foi construído fazendo.
E o mesmo acontece noutras áreas. Como aprende alguém a construir uma estratégia se começa sempre por pedir dez opções à IA? Como aprende a escrever bem se nunca passa pelo esforço de organizar uma ideia? Como desenvolve criatividade e aquele rasgo de ligar duas coisas aparentemente desconexas se começa sempre com uma página já preenchida?
Curiosamente, esta reflexão fez-me voltar a um dos valores que mais quero cultivar na ONE e que aprendi a valorizar muito onde trabalhei antes: obligation to dissent.
Se não concordamos com alguma coisa, temos a obrigação de o dizer. Não apenas a liberdade. A obrigação.
Gosto muito deste princípio porque está diretamente ligado a ownership. Se sou responsável pelo resultado, e não pela tarefa, não posso executar algo que não me faz sentido e, se correr mal, dizer no final: “eu já achava”. Mas para discordar não basta ter coragem. É preciso ter pensamento próprio.
E há aqui um equilíbrio importante. Pensamento crítico não é discordar de tudo. Também exige humildade para perceber o que não sabemos, fazer perguntas, ouvir argumentos melhores e mudar de opinião. Nem aceitar por defeito, nem discordar por sistema. Pensar. E claro, questionar o que a IA nos diz, porque diz muita coisa que não está bem.
E se começarmos a usar a IA antes de desenvolvermos esse músculo, será que podemos tornar-nos muito mais eficientes sem necessariamente nos tornarmos melhores?
Sabiam que alunos com acesso livre a uma ferramenta de IA tiveram resultados 48% melhores enquanto praticavam matemática, mas 17% piores num exame posterior, quando deixaram de ter acesso à ferramenta? Fiquei muito impressionada com esta métrica da OCDE e com o conceito de “cognitive offloading”. Na prática, delegamos numa ferramenta parte do esforço mental que antes era necessário para executar uma tarefa. Ou seja, conseguir chegar a uma resposta melhor não significa necessariamente ter aprendido a pensar melhor.
E isto não me parece ser apenas um problema da escola. É um problema das empresas.
Se uma parte do trabalho mais júnior for progressivamente automatizada, temos de pensar em como substituímos também a aprendizagem que acontecia enquanto esse trabalho era feito. Como se ganha experiência sem algumas das repetições que construíam experiência? Como ensinamos alguém a questionar uma resposta antes de essa pessoa ter referências suficientes para perceber que está errada?
Não acredito que a resposta seja usar menos IA. Não tenho a resposta, tenho a inquietação.
Deixo um último desafio, muito simples, para quem coloca o Waze ou o Google Maps assim que entra no carro: experimentem conduzir dois ou três dias sem GPS, pelo menos em percursos que conhecem razoavelmente. Provavelmente vão enganar-se numa saída, demorar mais tempo ou descobrir que afinal não sabiam tão bem o caminho como pensavam. O GPS é uma ferramenta extraordinária porque nos leva mais depressa ao destino, mas, se nunca fizermos o caminho sem ele, deixamos progressivamente de construir o nosso próprio mapa mental.
Talvez com a IA o desafio seja semelhante: usá-la para chegarmos mais longe e mais depressa, sem deixarmos de construir o mapa que nos permite perceber se estamos, de facto, no caminho certo.








