A pandemia veio sublinhar, se tal fosse necessário, a crucial importância da medicina nas sociedades modernas. O combate à Covid-19 é, sem dúvida, o mais exigente desafio que os profissionais de saúde e os sistemas nacionais de saúde enfrentam na história recente da humanidade. E a verdade é que, apesar de dura e longe de concluída, a batalha contra o novo coronavírus tem vindo a ser ganha pelo conhecimento científico, pela capacidade médica e pelo engenho humano.

Com a crise pandémica, os esforços europeus para desenvolver o setor da saúde são ainda mais amplos e enérgicos. A nova geração de programas e fundos comunitários vai ter uma forte incidência nas questões da saúde, o que se traduzirá em maiores oportunidades de financiamento quer para a investigação clínica e a inovação terapêutica, quer para a iniciativa empresarial na bioindústria. De resto, por pressão do Parlamento Europeu, o programa de saúde EU4Health vai ter um envelope financeiro três vezes superior.

Algumas das descobertas científicas mais importantes em Portugal nos últimos anos ocorreram, justamente, nas ciências da vida e da saúde. O nosso país dispõe de excelentes institutos de I&D nesta área científica, como o i3S no Porto, o iMM em Lisboa, o IGC em Oeiras e o Biocant Park em Cantanhede. Temos, pois, uma base científica e tecnológica sólida para o desenvolvimento de serviços e produtos de valor acrescentado na área da saúde e para atrair empresas estrangeiras que queiram realizar ensaios clínicos.

Por outro lado, o health cluster português integra hoje perto de 90 mil empresas, é responsável por cerca de 300 mil postos de trabalho e apresenta um volume de negócios anual da ordem dos 30 mil milhões de euros e um valor acrescentado bruto de 9 mil milhões de euros. As exportações do setor atingiram os 1,8 mil milhões euros anuais, tendo aumentado 16,4% (mais 810 milhões de euros) no 1.º semestre deste ano face ao período homólogo, em contraciclo com o resto da economia. Empresas como a Bial, a Hovione ou a Bluepharma são referências internacionais e exemplos da competitividade do país no setor da saúde.

Também muitas start-ups biotecnológicas têm vindo a introduzir no setor da saúde português novos conhecimentos médicos, novas tecnologias, novos meios de diagnóstico, novos fármacos e novas terapias. Immunethep, Biosurfit, Magnomics, Exogenus Therapeutics, entre muitas outras eHealth start-ups, tornaram o nosso setor da saúde não só mais inovador e intensivo em tecnologia como também, e por consequência, mais competitivo internacionalmente.

Trata-se, contudo, de uma atividade empresarial com um ciclo longo de desenvolvimento, já que depende dos resultados das atividades de I&D. Também o retorno do investimento, que é habitualmente elevado, só chega passados vários anos e a entrada nos mercados internacionais revela-se morosa e complexa. Além disso, o setor da saúde é altamente regulado e obriga a aturados processos de certificação e controlo. Acresce, por fim, que a bioindústria requer capital intensivo, conhecimento especializado, tecnologias sofisticadas e recursos qualificados.

Todos estes fatores penalizam a taxa de sucesso do empreendedorismo na saúde e a afirmação das eHealth start-ups no mercado internacional. Ainda assim, é um setor em que vale a pena apostar e ao qual deviam ser dadas, em Portugal, melhores condições de investigação, competitividade e financiamento. A pandemia, e sobretudo a corrida à vacina contra a Covid-19, tornou ainda mais evidente não só o potencial económico do health cluster, mas também a importância da saúde para a afirmação geopolítica dos Estados e para a defesa dos seus interesses estratégicos.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais