Há uns dias falava com alguns colegas que partilhavam estar exaustos e que ansiavam muito pelas férias deste ano. Tentei perceber se o cansaço era idêntico aos anos anteriores à pandemia, nesta altura do ano, ou se algo tinha mudado com este novo contexto.

Foi então claro para todos nós que existe a perceção que o ano em pandemia foi mais trabalhoso do que anos anteriores, pelo impacto em duas vertentes da nossa vida:

A. O nosso contexto familiar

  • Vivemos algo inimaginável para muitos de nós, que nos trouxe sobretudo uma experiência do medo (por nós, pela família, pelos mais velhos, pelo trabalho…) e da vulnerabilidade que não conhecíamos;
  • Tivemos que fazer esta aprendizagem ao mesmo tempo que os nossos filhos e outros familiares, tateando como fazer, o que dizer, onde estar…
  • A redução dos contactos sociais trouxe-nos rotinas diárias diferentes e uma sensação de perda que tivemos que gerir;

B. O nosso contexto profissional

  • A grande mudança veio pelo facto de não conseguirmos “desligar” e os tempos de trabalho e tempos da família se terem esbatido;
  • Existe um sentimento de viver em permanente alerta, pois a qualquer hora pode “cair” um mail e será suposto que seja lido de imediato;
  • Este “exemplo que vem de cima” e que muitas vezes alimenta esta tensão, tanto acontece ao nível da gestão de topo, como das chefias intermédias;
  • O esforço que fazemos para acompanhar a vida da empresa, estando muitas vezes em remoto, querendo não perder o que se passa;
  • A cultura de algumas empresas mantém-se alicerçada na “presença”, seja ela física ou, agora, digital;
  • E mantemos modelos de liderança assentes no controlo de tarefas, não tendo evoluído para modelos que se desenvolvem em torno da responsabilização, da autonomia, da confiança, gestão por objetivos e do controlo pelos resultados.

Com este panorama, chegamos a junho com a sensação de maior cansaço, que mais não é do que a reação do corpo e da mente a estes contextos mais complexos.

Então, em vez de nos queixarmos, vamos assumir que é nossa a responsabilidade de colocar limites e prepararmo-nos para ter as férias que precisamos.

Para evitar voltar deste tempo de descanso tão cansado como foi…

  1. Prepare-se para ir de férias:
  • Veja que trabalhos tem entre mãos, o que tem ainda que garantir antes de ir de férias, o que pode delegar e o que fica para assegurar quando regressar. É preferível fazer mais umas horas na última semana de trabalho e ir tranquilo, do que com a noção de ter deixado algo não terminado/assegurado;
  • Confie na sua equipa: antes de ir de férias, diga-lhes “Se houver algum problema, resolvam. Tenho confiança que o saberão fazer”;
  • Se durante as suas férias estiver agendado algum evento onde estaria se estivesse a trabalhar, indique quem o irá substituir, deixando assim assegurada a sua representação. Não caia na armadilha de dizer que se conectará em férias para estar presente…
  • Se se sentir mais tranquilo, combine com um dos seus reportes como e quando pode ser contactado (ex: se houver alguma situação muito complexa, pode lhe enviar um sms e logo decidirá se deve contactar a empresa);
  • Fale com a sua chefia e diga que vai de férias naquele período, que tudo está assegurado e a sua equipa (ou uma pessoa em particular) estará disponível para algum tema ou pedido que lhe queira dirigir. Deixe claro que irá de férias, logo, sem estar conectado à empresa numa base diária.
  1. Durante as férias:
  • Não se sinta na obrigação de mostrar que está conectado. Ao contrário do que lhe pareça, é um sinal de fragilidade e de falta de confiança que está a transmitir:
  • Se possível, não se conecte digitalmente à empresa. Se se sentir mais tranquilo, estabeleça 10 minutos por dia (numa hora menos social /familiar) para ver os mails. Seja rigoroso e não ultrapasse este tempo;
  • E viva as férias! Assuma que este período é fundamental para voltar à empresa mais apto a desempenhar as suas funções.
  1. Respeite as férias dos outros:
  • Se tem um colaborador de férias, não o incomode. Não lhe envie mails, não o coloque em cc ou bcc;
  • Assuma que é seu dever garantir o descanso dos seus colaboradores.

Mudar culturas implica dar o exemplo. Pode ser difícil, mas é o caminho para fazermos a diferença nas nossas empresas.

Dê o exemplo! E tenha boas férias!!

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Sobre o autor

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais