Nos oito anos que levo de experiência como empresário, um júnior portanto, ainda com muito para aprender, nunca conheci um empreendedor com vontade de falhar. No entanto, é óbvio que nem todos atingiram o sucesso almejado e, como diz o adágio popular, “Cada um sabe de si, mas Deus sabe de todos”!

Quero com isto dizer que, com cada insucesso, os empresários constroem a sua história, sobretudo aprendem. No entanto, esta bagagem para a vida deixa marcas e, aos olhos de uns, mesmo no caso dos insucessos, são medalhas, para outras cicatrizes. Mas, a meu ver, o empreendedor, por cada insucesso, carrega consigo uma medalha sobre cada cicatriz!

Na minha outra vida, mais académica, sempre que ouvia falar de insucesso empresarial, atribuía as culpas aos seus executores, sendo óbvio, à data, que tal só poderia resultar de incompetência ou impreparação (excluo os casos de má fé).

Hoje, depois de já ter tido alguns casos em que as ideias que procurei transformar em negócio não resultaram, sim mea culpa, reconheço que não fui competente e certamente que, de alguma forma, não estava preparado, fosse a equipa, o financiamento ou a não adequação do produto às necessidades do mercado.

O que ficou? Aprendi! E, a cada novo projeto, sinto-me mais capaz de perceber o que não vai funcionar. E agora, não voltarei a falhar? Sim, falharei certamente, mas trabalho para o fazer cada vez menos. E o sucesso futuro só será possível por ter falhado? Também!

Nos processos que resultam em insucesso, acumulam-se muitas cicatrizes, sejam dívidas, menos amigos, sentimento de frustração, perda de vontade para tentar de novo, baixa autoestima, sei lá, um rol infindável de marcas para a vida, umas de curto prazo, outras para sempre. Todas estas feridas saram, porque o tempo tudo cura e, no momento em que estamos prontos para mais uma batalha, tudo o que aprendemos, em conhecimento e competências, transformemo-lo em medalhas que, sobre as nossas cicatrizes, nos darão o alento para continuar e ao mercado a confiança de que a nossa experiência confirma a maior probabilidade de sucesso.

Das minhas primeiras viagens à volta do mundo, de Nova Iorque a São Francisco ou de Xangai a Berlim, recordo-me de um investidor que, depois de, muito simpaticamente, me dizer que não a uma oportunidade de investimento, me convidou para um café e me disse que “risco não é saltar para dentro de um poço, isso é loucura, risco é saltar para dentro do poço tendo a noção se tem água ou não e, se não tem, qual a distância para o fundo”. Ora, na vida dos empresários, sobretudo dos jovens, nem todos os dias são de Sol e há que recomeçar muitas vezes. Aqueles que estão disponíveis para partilhar o risco connosco, fazem fé de que as nossas Medalhas são testemunho de experiência e competência.

Até hoje, não conheci um empresário que goste de falhar. Se tal aconteceu, foi porque, nesta vida, umas vezes ganhamos, outras aprendemos.

No meu contexto educacional de aprendizagem em escolas públicas, gostava de ter tido a oportunidade de contactar com a realidade do mundo empresarial. Sinto que há muito por desmistificar, nublosas que impedem jovens empresários de procurar novos caminhos, no fundo de arriscar. Há muito por fazer e por inventar. Dos preconceitos que tinha, o que mais me assustava era o estigma do falhanço, de que, se falhasse, nunca mais ninguém confiaria em mim para nada, para nenhum projeto, tão pouco me contrataria para trabalhar por conta de outrem. Hoje, continuo a não gostar de perder. Quem joga futebol semanalmente comigo, sabe bem que não.

No mundo empresarial, trabalham diariamente centenas de empreendedores focados em construir produtos interessantes, úteis e… com sucesso, na sua longa caminhada de acumulação de experiência. Os que já recomeçaram várias vezes, carregam as memórias das feridas, mas, sobre cada cicatriz, uma medalha de competência e conhecimento, um amuleto que, nos dias cinzentos, os conforta e lhes reforça a confiança para seguir rumo ao futuro!

É preciso educar os jovens, mostrar-lhes que falhar não é o fim, mas uma etapa, que recomeçar é o intermédio entre o início e o sucesso, mas, sobretudo, que não há que ter vergonha do insucesso, porque, como todos sabemos, falhar é sinónimo de fazer!

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Alexandre Pinto iniciou a sua carreira académica pela História, vida que abandonou para se dedicar ao empreendedorismo! Teve a oportunidade de liderar alguns projetos e ser cofundador de start-ups, com as quais em diferentes momentos angariou capital de risco de... Ler Mais