“A próxima década será marcada por empresas que tenham um propósito social e ambiental”. Quem o diz é um partner da Index Ventures, um dos maiores fundos de capital de risco da Europa.

Esta visão é corroborada pelo CEO da Y Combinator, uma das principais aceleradoras do mundo e que investiu em empresas como o AirBnB, Dropbox, Reddit, entre muitas outras.

O facto deste tipo de análise surgir de fundos de capital de risco e aceleradoras, que apoiam e investem em fases iniciais do desenvolvimento de uma empresa, demonstra a necessidade, oportunidade e mudança a que vamos assistir nos próximos anos.

Tenho o privilégio de trabalhar na MAZE, que foi criada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2013, como uma empresa de impacto, exclusivamente orientada para apoiar e investir em soluções que contribuem para a resolução de desafios sociais e ambientais. Cumprimos esta missão de três formas: apoiando entidades públicas a inovar na prestação de serviços sociais, acelerando start-ups de toda a Europa e investindo através de um fundo de capital de risco.

Enquanto empresa de impacto, é relevante o que fazemos, mas também como o fazemos. Há quatro princípios que regem o impacto na MAZE:

Assegurar a missão de impacto. A Fundação Calouste Gulbenkian é acionista da MAZE através de apenas uma ação. No entanto, esta ação confere-lhe direito de veto em decisões estratégicas que a equipa de gestão da MAZE faça e que possa comprometer a sua missão social e ambiental. Tendo em conta que a Fundação Calouste Gulbenkian foi instituída em perpetuidade e tem como propósito fundamental melhorar a qualidade de vida das pessoas através da arte, da beneficência, da ciência e da educação, este mecanismo acionista assegura o cumprimento da missão da MAZE no longo prazo, independentemente das alterações que possam existir na equipa de gestão.

Reinvestimento do valor criado. A MAZE não existe para distribuir dividendos aos seus acionistas. Os lucros que a empresa possa vir a gerar por via da sua atividade, são automaticamente reinvestidos na própria empresa, com o objetivo de melhor cumprir a sua missão. Desta forma, o valor gerado é realocado em atividades que continuam a contribuir para a criação de impacto. Os acionistas da MAZE que, a par da Fundação Calouste Gulbenkian, são todos os colaboradores que ficam mais de um ano na empresa, não têm qualquer benefício económico com estas ações. A estrutura acionista existe e contempla os colaboradores para promover uma gestão participada da empresa.

Remuneração com base no desempenho de impacto. O fundo Mustard Seed MAZE nasce da joint venture entre a MAZE e a Mustard Seed e é o primeiro fundo independente e privado reconhecido pela CMVM como ‘fundo de empreendedorismo social’. Para cada investimento feito pelo fundo, são definidas uma ou mais métricas de impacto e estabelecidas metas de desempenho num determinado período. Estas métricas e metas são validadas por um Conselho Consultivo independente da equipa de gestão do fundo.

Quaisquer lucros distribuídos à sociedade gestora estão dependentes do cumprimento das metas de impacto estabelecidas. Ou seja, se uma empresa investida pelo fundo apresentar um desempenho financeiro excelente, mas não cumprir, por exemplo, as metas de redução de CO2 ou criação de emprego junto de populações vulneráveis, a sociedade gestora é penalizada. Desta forma, o fundo Mustard Seed MAZE tem os incentivos alinhados para que as empresas no seu portefólio cumpram tanto os objetivos financeiros como os sociais e/ou ambientais.

Gestão de impacto. Não assumimos o impacto como algo binário. Acreditamos que o impacto não se encontra feito, faz-se, em parceria com start-ups, organizações sociais, grandes empresas, entidades públicas e investidores privados. Nesse sentido, existem várias estratégias e formas de gerir impacto.

A MAZE é a única organização portuguesa que é parceira estratégica do Impact Management Project, utilizado por mais de 2000 organizações em todo o mundo, incluindo a OCDE, Nações Unidas, Banco Mundial, Blackrock, Deutsche Bank, entre outras. Esta metodologia não pretende medir os resultados sociais e ambientais ou monetizá-los. O seu principal benefício é criar um consenso sobre as diferentes formas de classificar impacto e os diversos contributos que investidores e empresas têm.

A MAZE adotou o Impact Management Project em 2018 para mapear as várias estratégias de impacto que procuramos ter no nosso trabalho com o setor público, aceleradora e fundo de capital de risco. No final de 2020 iremos partilhar publicamente os resultados da nossa gestão de impacto, passando a divulgar estes dados anualmente

As decisões da MAZE prenderam-se sempre com a nossa realidade e com a forma como respondemos à pergunta “como podemos criar impacto positivo na sociedade e no planeta?”

O caminho feito pela MAZE e os quatro princípios que seguimos para estruturar o impacto dentro da nossa organização não se aplicam a todos os casos. Estruturas acionistas participativas não se adaptam nem são eficientes para muitas empresas; a distribuição de valor a acionistas é algo fundamental para a sustentabilidade das empresas e da economia; as estratégias para criação de impacto variam de indústria para indústria.

Cada organização terá uma resposta diferente e adaptada à sua realidade. No entanto, ao contrário do que aconteceu nas últimas décadas, nos próximos anos as empresas terão obrigatoriamente de fazer a mesma pergunta “como podemos criar impacto positivo na sociedade e no planeta?”

A forma como responderem definirá o seu sucesso de longo-prazo.

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Sobre o autor

Antonio Miguel

O António Miguel é fundador e CEO da MAZE, uma empresa de investimento de impacto criada pela Fundação Calouste Gulbenkian. É responsável pelas áreas de investimento, através do fundo MSM, e setor público, tendo trabalhado em propostas que mobilizaram mais... Ler Mais