Opinião

“Quando os irmãos não se entendem”

Filipe Bergaña, fundador da Audaz Capital

Como clarificar papéis entre herdeiros evita guerras silenciosas e protege o valor da empresa familiar. O jantar começara bem. Três irmãos, os pais, dois netos a correr entre a cozinha e a sala. À sobremesa, o pai arrisca: “Temos de falar da empresa.”

Em segundos, o ambiente fica mais tenso. O filho mais velho desvia o olhar para o telemóvel, a irmã – que trabalha na empresa – denota nervosismo, o mais novo – que vive lá fora – pergunta a brincar se é desta que “vende tudo e vai passar uma temporada a Bali”. Todos sabem que a sucessão está atrasada. Ninguém sabe quem deve dizer o quê. O tema muda para férias de Verão. A empresa fica, mais uma vez, para depois.

Em muitas famílias empresárias portuguesas com vários herdeiros, o problema não é falta de afeto nem de mérito. É falta de conversa estruturada. Confunde-se amor com consenso automático. Parte-se do princípio que “os miúdos se entendem” quando o fundador sair, como se a geração seguinte fosse toda do mesmo molde. Não é. Há expetativas diferentes, vidas diferentes, ritmos diferentes. Se não forem nomeadas a tempo, estas diferenças transformam-se em fricção silenciosa – e essa fricção, mais tarde, cobra juros.

Os conflitos entre irmãos raramente começam em grandes discussões. Começam em pequenas assimetrias que ninguém quer encarar de frente. O filho ou filha que está na empresa há anos sente que “carrega a casa às costas”. O irmão que seguiu outra carreira sente que é visto apenas como “acionista de quotas” e teme ficar refém das decisões dos outros. Quando se fala de dinheiro, mistura-se tudo: salários, prémios, dividendos, casas de férias e até o apoio que o pai deu a cada um em momentos diferentes da vida. Não é um problema apenas financeiro; é um problema de reconhecimento. Quem sente que não é visto, dificilmente aceita o resultado de uma negociação, por mais justa que pareça no papel.

Há três tipos de tensão que aparecem quase sempre. A primeira é a clássica: quem manda vs. quem trabalha na empresa. Quem está no dia a dia sente que deve ter mais voz. Quem não está, lembra-se que também é dono e que o risco do património é partilhado.

A segunda é a tensão salários vs. dividendos. Para uns, a empresa é trabalho e carreira; para outros, é sobretudo poupança e reforma. Se não houver um critério explícito, instala-se a sensação de que uns “vivem para a empresa” e outros “vivem da empresa”.

A terceira tensão nasce nas margens: cônjuges e cunhados. Não porque sejam vilões, mas porque trazem, legitimamente, outras prioridades e comparações. O que se discute, no fundo, é se a empresa é um ativo individual de cada herdeiro ou um projeto comum da família.

Uma forma simples de ordenar este caos é separar, de facto, três mesas: família, propriedade e gestão. À mesa da família tratam-se relações, valores, o que a empresa representa para aquele grupo de pessoas. À mesa da propriedade define-se quem é dono de quê, com que direitos económicos e políticos, em que condições se pode vender ou comprar participações. À mesa da gestão decide-se o dia a dia do negócio: orçamento, pessoas-chave, investimento, risco. O que complica muitas empresas familiares é tentar resolver mágoas emocionais na reunião de conselho, ou discutir remunerações de diretores ao domingo ao almoço. Quando cada tema passa a ter a sua mesa, a conversa torna-se menos explosiva e mais produtiva.

Não é preciso começar por um tratado jurídico. Um protocolo familiar pode, na primeira versão, ter poucas páginas e três blocos claros: critérios para familiares entrarem (ou não) na gestão, política de dividendos e reinvestimento, regras para a circulação de quotas entre irmãos e entre gerações. Um acordo de acionistas pode fixar o essencial: como se decide, com que maiorias, que direitos têm os que trabalham na empresa e os que não trabalham. E um conselho de família, com calendário fixo, evita que o único momento onde tudo se fala seja o Natal, quando já ninguém está com cabeça para mais nada. O papel não garante harmonia, mas dá um guião quando a emoção aperta.

O fundador continua a ter um papel decisivo. Não apenas no que deixa escrito, mas nas perguntas que faz em vida. Há três perguntas simples que mudam muitas conversas: “Queres ser dono?”, “Queres ser gestor?” e “Estás disposto a ser avaliado como qualquer outro?”. Ser dono é aceitar responsabilidade sobre um património comum, mesmo que se esteja longe do dia a dia. Ser gestor é assumir uma função executiva, com metas, avaliação e, inevitavelmente, a possibilidade de não corresponder. Ser avaliado como qualquer outro é aceitar que o apelido não substitui a performance. Quando estas três dimensões se confundem, multiplicam-se frustrações. Quando se separam com respeito, a família ganha liberdade para decidir – incluindo a liberdade de vender.

Do lado de quem investe em continuidade, o que mais preocupa não é encontrar irmãos sempre de acordo. Isso não existe. O que assusta é encontrar famílias onde nada foi falado, não há alinhamento mínimo sobre o futuro e qualquer decisão estratégica pode reabrir feridas antigas. A due diligence financeira e legal consegue medir dívida, margens, riscos contratuais. A due diligence familiar mede outra coisa: se há condições para a empresa continuar a decidir com serenidade depois de uma transacção. Famílias que chegam a este momento com protocolo, acordos claros e um histórico de reuniões estruturadas transmitem confiança e, muitas vezes, conseguem melhores condições. Não porque “façam o jogo do investidor”, mas porque reduziram a incerteza que o mercado naturalmente penaliza.

Também aqui, como na sucessão em geral, o tempo é a variável crítica. Enquanto o fundador está presente, a sua autoridade pode ser usada para abrir conversas difíceis e legitimar processos novos: um conselho de família, uma revisão do pacto social, a definição de uma política de dividendos mais transparente. Quando se espera demasiado, o que era diálogo em família acaba, muitas vezes, no escritório de advogados ou nos tribunais. Nessa altura, já não se discute apenas a empresa; discute-se a história de uma vida.

Conflitos entre irmãos não são um sinal de fracasso da família; são um sinal de que há assuntos importantes por resolver. O risco maior não está em admitir que há tensões, está em fingir que não existem. Cuidar cedo da arquitetura entre irmãos, propriedade e gestão não é um luxo de grandes grupos. É uma forma concreta de proteger o valor criado, a reputação construída e, talvez mais importante, a relação entre membros da família quando a geração seguinte chegar à sua vez de fazer perguntas.

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Filipe Bergaña

Filipe Bergaña

Filipe Bergaña é fundador da Audaz Capital, um veículo de investimento criado para adquirir a totalidade do capital de uma única empresa, rentável, em Portugal ou em Espanha, que enfrente um problema de sucessão e precise de continuidade. Depois de duas décadas de carreira nos mercados financeiros internacionais – em casas de referência como a BlackRock, a Fidelity, a Och-Ziff ou a Man Group – iniciou um novo caminho como empresário-operador. Filho de pai espanhol e mãe portuguesa, pertence a... Ler Mais..

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