A primeira vez que ouvi aquele texto foi pela voz do diretor criativo. Estava sentado do outro lado da mesa de reunião. A sala tinha pouca luz. Revirou umas folhas e, sem introdução, começou a ler. O texto tinha frases curtas, mas marcantes. Com a sua voz, pausada e grave.

À medida que lia, havia quem sorrisse, quem trocasse olhares cúmplices, quem tomasse notas. Ele ia remexendo as folhas manuscritas. A voz revelava a ironia de quem sabe o impacto que tem. E um jovem olhar brilhante fixava cada palavra daquele homem de barba por fazer, de braço apoiado na cadeira do lado.

“Pratica a coragem. Sem medo. […] Pratica a tua intuição, vai mais vezes, erra as vezes que precisas. […] Pratica o que só existe em ti e é raro nos outros. […] Pratica quem és. Só assim serás inteiro e te manterás original.”

Acabámos a praticar o “tás parvo?!”, numa casa na Aroeira, com um rapaz a atirar-se de bicicleta para a piscina, enquanto o fotógrafo tentava apanhar o shot perfeito, empoleirado num escadote. A campanha foi um sucesso, o rebranding também. Estávamos a transformar um refrigerante com pedacinhos de fruta no fundo da sua garrafa verde, com quase 60 anos, num ícone, num statement, num lifestyle. Apenas com algumas palavras bem escolhidas e fotografias bem conseguidas.

“Um dia, o mais provável é tornares-te num chato […] e começares a levar-te demasiado a sério. […] Vais dizer não mais vezes, vais ter mais medo, vais achar que não podes, que não deves, que tens vergonha. […] Quando esse dia chegar, não lhe fales.”

Ouvimos muitas vezes que as marcas têm poder, força, querer. Que há marcas emblemáticas, memoráveis, imortais. Marcas que ultrapassam a embalagem do produto que vendem, as paredes da empresa que as gere, as barreiras do mercado em que atuam. Se pensarmos bem, tudo isto – marcas, produtos, empresas, mercado – não são mais que pessoas. Comuns mortais selvagens capazes de imaginar e concretizar. Capazes de sonhar e de comunicar. Pessoas iguais a nós, com a habilidade de superar aqueles três segundos de dúvida que perseguem as grandes conquistas.

“Não tens vergonha nenhuma. Não tens vergonha de rir alto. […] Não tens vergonha de ser vegan, nem crente. […] Não tens vergonha de ser geek, de ser freak, de ser chic, de ser chubby, de ser chata […]. Não tens vergonha de nada. E é dessa lata que o mundo precisa.”

Quase dez anos depois, sempre que vejo uma nova campanha, produto, ou iniciativa desta casa que me lançou sinto um carinho enorme. Talvez porque o primeiro amor não se esquece. Ou então, porque tudo isto, para mim, são pessoas. Em cada lançamento houve um Rodrigo, uma Joana, um Zé, uma Inês e um Ricardo, uma série de equipas que o tornou possível. É essa colaboração – do produtor ao cliente; do acionista ao colaborador – que nos permite atingir o sucesso.

“Sabes a fresco. […] Sabes a pé descalço e smoking às risquinhas. […] Sabes a dias maiores que as noites, a camas sem sono, em câmara lenta, como na TV. […] Sabes a dançar de olhos fechados sem medo nem vergonha. Sabes diferente para toda a gente. […]”

A gestão de pessoas – por pessoas e para pessoas – é crucial para o negócio. Quanto mais afastada estiver da estratégia, dos “números”, mais difícil será atingir os objetivos. A nossa função, como líderes, é procurar sempre alinhar os colaboradores com a missão, a visão e os planos estratégicos da empresa, com o objetivo de alcançar os resultados de negócio. Para isso, temos de garantir um equilíbrio entre as necessidades do negócio, da organização e as necessidades e motivações individuais (e tão diversas) dos colaboradores e equipas.

Um dia vão querer convencer-me que não vale a pena, porque as empresas não valorizam as pessoas. Vão dizer-me que este caminho não me leva ao topo. Vão tentar-me a praticar o que é suposto e o politicamente correto. Mas eu não tenho vergonha de sonhar e de acreditar. E jurei que nunca deixaria de arriscar. Por isso, quando esse dia (voltar) a chegar, eu vou virar-lhe as costas. Orgulhosamente.

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