Depois de um ano em que a tónica continuou a ser o abrandamento da economia, na entrada em 2020, as perspetivas, externas e internas, estão longe de ser animadoras.

Na vertente externa, o cenário de um Brexit desordenado parece agora afastado, mas as negociações do futuro acordo entre o Reino Unido e a União Europeia não serão fáceis. As recentes declarações do Primeiro-ministro britânico abrem a ameaça de, na ausência de um entendimento rápido, o final do período de transição dar lugar a uma situação semelhante àquela a que agora escapámos. Continuaremos, pois, na incerteza.

Os recentes sinais de apaziguamento nas tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China são frágeis e não estamos livres de que a Administração norte-americana abra novas frentes da guerra comercial, focando-se na União Europeia.

Continuaremos, pois, sob a ameaça do protecionismo e de decisões políticas imprevisíveis, que escapam ao nosso controlo.

A Alemanha terá escapado à entrada em recessão técnica, mas a sua economia permanece fraca e vulnerável. A atividade permanece mais dinâmica na generalidade das economias europeias periféricas, mas já é nítido o impacto da conjuntura externa mais adversa em muitos destes países.

Neste contexto, a modesta recuperação esperada para o próximo ano deu lugar, agora, à afirmação de que a economia europeia entrou num período prolongado de crescimento reduzido: de acordo com as últimas projeções, o PIB da União Europeia, deverá aumentar apenas 1,4%, tanto em 2019 como nos próximos dois anos.

No plano interno, as empresas enfrentarão o problema crescente da escassez de recursos humanos qualificados e um enquadramento pouco propício ao investimento e à competitividade, seja ao nível da fiscalidade, seja nas dificuldades de acesso ao financiamento, seja, ainda, ao nível de um ambiente de negócios onde os custos de contexto continuam a ter um peso excessivo.

A proposta de Orçamento do Estado para 2020, apesar de algumas medidas positivas, muito aquém do que seria necessário, está longe de refletir uma reorientação da política económica no sentido mais favorável ao crescimento económico, capaz de inverter o atual rumo de abrandamento em Portugal.

É neste enquadramento interno e externo adverso que as empresas se confrontarão com os grandes desafios de fundo que se lhes colocam e que já aqui identifiquei num anterior artigo: os desafios da transformação digital e tecnológica, dos mercados globais, do endividamento, da sustentabilidade ambiental, da demografia.

É certo que, conjugando as previsões para a produção e o emprego, podemos esperar alguma recuperação da produtividade das empresas, condição para que estes desafios sejam vencidos com sucesso. Temo, contudo, que, sem uma política económica mais favorável, essa recuperação não seja suficiente para inverter a atual tendência de abrandamento económico.

Assim, tenho dúvidas que mesmo a pouco ambiciosa meta de crescimento de 1,9% em 2020, traçada pelo Governo, possa ser alcançada. Como já afirmei neste espaço, seria preciso mais e melhor, seria preciso apostar verdadeiramente nas empresas.

Olhando para o ano de 2020, entre riscos e ameaças, resta-me uma única certeza: as empresas continuarão a remar contra a corrente.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais