Tenho tido o grato privilégio, ao longo da minha vida e carreira, de me cruzar com várias pessoas fantásticas, como o Sr. Carlos, assistente da biblioteca do colégio onde estudei, homem cordial, educado e culto, a D. Ana, empregada de limpeza diligente, simpática e minuciosa, o Pedro, técnico de manutenção prestável, honesto e comprometido, ou a Ivanilda, empregada que me apoiou e à minha família durante a nossa passagem pelo Brasil, mulher versátil, dedicada e com um grande coração.

Pessoas genuínas e simples, com vidas humildes, profissionalmente briosas e competentes, sem um CV ou perfil no LinkedIn e sem formação académica superior, logo não elegíveis, ao abrigo do convencional formalismo português, a poderem ser chamados de “doutores” ou “engenheiros”.

O formalismo ainda vigente na sociedade portuguesa, tem como faces mais visíveis, a meu ver, o uso costumeiro dos termos “Dr.” e “Eng.”, ou porque não “Exmo.”, ou a dificuldade em aceder e comunicar com indivíduos em posições de destaque em organizações ou na sociedade, fruto de uma postura excessivamente distante e formal (cometendo aqui a sempre injusta generalização).

Reforcei sobremaneira esta opinião durante os cinco anos em que vivi e trabalhei no Brasil, onde a facilidade e simplicidade em estabelecer tais contatos ou a habitual informalidade e simpatia no trato – tão característico do povo brasileiro – foram aspetos que muito apreciei e me marcaram pela positiva.

A título de exemplo, em 2017, no âmbito da estruturação de uma operação financeira em São Paulo, solicitei ao respetivo banco coordenador alguns contatos para obtenção de referências. Tive acesso ao telemóvel de três executivos de grandes empresas brasileiras, a quem liguei diretamente, sem qualquer pré-aviso ou agendamento e tratando-os pelo nome próprio, os quais simpaticamente me atenderam e conversaram comigo por alguns minutos, partilhando as suas opiniões e conselhos de forma simples e informal q.b.. Atrevo-me a dizer, generalizando uma vez mais, que muito dificilmente isto teria acontecido em Portugal.

O tradicional formalismo português assenta, creio, em raízes culturais históricas e num traço civilizacional (que deve ser respeitado) mais conservador do que liberal, bem evidente, aliás, a nível empresarial ou político, e apesar de ser ainda bem visível, admito que esteja em decrescendo, por conta da natural evolução de mentalidades trazida pelas gerações mais jovens e pela maior abertura do país ao exterior, fruto, também, do significativo fluxo migratório (em ambos os sentidos), com influência, lenta, mas progressiva, nos nossos costumes.

Obviamente que é importante, necessário até, manter alguma formalidade (não confundir com formalismo) em determinadas funções ou atividades sociais (na saúde, justiça ou política, por exemplo) ou empresariais, designadamente em processos de gestão e liderança, mas o formalismo (cuja definição inclui termos como convencionalismo, preconceito ou mesmo pedantismo) pode resultar, em matéria de funcionamento de organizações, na criação de barreiras hierárquicas, funcionais ou comunicacionais – contrárias ao estabelecimento de culturas genuínas, transparentes e de confiança horizontal e vertical – com potencial impacto negativo na produtividade, eficácia e eficiência de tais organizações.

Não deixa de ser curioso observar o aparente contraste entre esse formalismo cultural ou social e a informalidade da economia portuguesa, identificada em 2003 no estudo da consultora McKinsey “Portugal 2010” como o principal fator para o enorme “gap” de produtividade face a outras economias europeias, decorrente, por exemplo, da evasão fiscal ou do incumprimento de obrigações sociais ou normas de mercado (legislação sobre qualidade, segurança, direitos de propriedade, etc.).

Não sei se é possível estabelecer uma correlação entre o formalismo cultural/social em Portugal e a informalidade da sua economia, mas admito que ambos resultem dos mesmos traços de carácter e comportamentais enraizados nas pessoas que, voluntária ou involuntariamente, os praticam. Deixo-lhe, a si que lê este texto, a pensar sobre isto…

Voltando ao Sr. Carlos, à D. Ana, ao Pedro e à Ivanilda, a eles tratá-los-ia, com prazer e sem formalismo, por Excelentíssimos, pelas suas personalidades inspiradoras e excelência das suas ações e condutas. Fazendo um paralelo com a reflexão deste texto, precisamos, nas organizações e na sociedade em geral, de mais e verdadeiros Excelentíssimos e de menos “Exmos.”, que não raras vezes resultam de anacronismos culturais ou de meras aparências, preconceitos ou normas sociais ultrapassadas.

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Sobre o autor

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais