A Covid-19 acelerou a digitalização dos pagamentos dos particulares e de muitas empresas, que viram crescer as suas vendas online. Em entrevista ao Link To Leaders, o CEO da Easypay faz um balanço do último ano, fala das soluções que têm criado e do “sonho de entrar no café e no fim falar para o telemóvel e dizer: `Pague o café e a tosta mista ao Sr. Silva´, e o telemóvel saber quanto custa o café e a tosta mista, e quem é o Sr. Silva e qual é a sua conta bancária”.

Em 2020, a Easypay apostou na resposta rápida às necessidades de novos modelos de negócio que nasceram com a pandemia. Através do desenvolvimento de soluções para marketplaces e para multi-comerciantes, procurou simplificar e garantir a eficiência da gestão dos pagamentos em situações em que numa mesma plataforma ou loja são vendidos produtos de vários comerciantes.

Só nos primeiros nove meses de 2020 a fintech portuguesa registou um crescimento de 35% em volume de transações, comparativamente ao mesmo período em 2019. No final de setembro contava com uma carteira de cerca de 12 mil clientes. Hoje são 14 mil e de todos os setores.

A pandemia abriu caminho para os pagamentos digitais. Que balanço faz do último ano para a Easypay?
Foi o melhor ano de sempre devido a dois fatores: nova estratégia de preço e de segmentação dos clientes; e a pandemia que tornou os pagamentos uma peça chave da sobrevivência de qualquer empresa.

As empresas portuguesas estavam preparadas para as vendas à distância?
De uma maneira geral não estavam e foi uma avalanche de pedidos logo nos primeiros dias. A maioria das empresas tinha planos de transformação digital, mas à boa maneira portuguesa estavam na gaveta.

Quais os desafios que ainda enfrentam?
O tempo que demora a transformação digital, que exige o envolvimento de muitas pessoas e áreas, e o facto de estarmos todos em casa devido ao confinamento que torna os processos muito mais difíceis. Para além disso, embora existam muitas empresas que sabem o que precisam e querem, outras vêm ter connosco a pedir ajuda e orientação para toda a área de pagamentos que não estava preparada para todos os desafios que chegaram.

“Este ano estamos a lançar um novo processo de checkout que tem dois grandes objetivos: permitir que a instalação seja quase plug-and-pay (…)”.

Quais as soluções que têm criado para simplificar os pagamentos de vendas à distância?
Este ano estamos a lançar um novo processo de checkout que tem dois grandes objetivos: permitir que a instalação seja quase plug-and-pay (sem esforço e necessidade de investimento em integrações) e que, por outro lado, ofereça uma experiência de pagamento sem fricção. Lançámos para a primeira plataforma de ecommerce, o shopify, e durante o ano vamos disponibilizar para as restantes plataformas. O nosso foco é no desenvolvimento da tecnologia ao serviço dos comerciantes para quem a redução da complexidade dos pagamentos e a fidelização dos clientes é uma prioridade.

Quantos clientes têm atualmente? E quais os setores mais representativos?
Temos mais de 14 mil e de todos os sectores. O grande crescimento, ao longo do último ano,  foi no comércio online, e transversal a todos os sectores: alimentar (take-away, por exemplo), cosmética, formação online, ginásios online, vestuário e calçado, etc. Marketplaces (Kuanto Kusta, por exemplo)  têm já também uma representatividade importante, que conseguimos captar pela solução específica e funcionalidades exigidas para este tipo de negócio.  E, por fim, podemos referir as empresas que não vendem à distância, mas que precisam de ter um controlo eficiente do pagamento das suas facuras: empresas de serviços (consultoria, formação) e também de produtos (até multinacionais), onde é fundamental ter uma solução de pagamentos adequada.

Apesar de hoje já ser possível pagar com o telemóvel ou o relógio, o facto é que Portugal do ponto de vista do comércio eletrónico está muito atrás da Europa. O que é preciso para mudar este cenário?
A pandemia veio tratar da saúde desse problema e, neste momento, Portugal já começa a ter valores que se aproximam dos da Europa. Era o que estávamos a precisar para que as empresas e os consumidores mudassem os hábitos de pagamento. Os pagamentos à distância vieram para ficar e estão com taxas de crescimento muito significativas. Hoje, os pagamentos são já uma peça fundamental do marketing das empresas. Veja-se o exemplo das subscrições, que já ultrapassaram a esfera dos serviços e são um modelo de negócio muito importante na venda de produtos.

Como vê o papel dos bancos tradicionais hoje em dia perante as fintech e as bigtec?
Perante as fintech mais colaborativos. A Easypay já presta serviços para mais de meia dúzia de instituições financeiras (também não há muitas mais….). A grande questão são mesmo as bigtechs que têm uma capacidade de distribuição e uns bolsos quase sem fundo. Todavia, a proximidade e a especialização continuam a ser fatores diferenciadores no momento de escolha do parceiro certo.

“O pequeno restaurante, talho, mercearia, praticamente todos, acabaram por aderir a uma solução em que por detrás está uma fintech”.

Qual tem sido o papel das fintech na inclusão financeira em Portugal?
Tem sido determinante. O que seria das pequenas, nano e microempresas, se não fossem as fintechs? O pequeno restaurante, talho, mercearia, praticamente todos, acabaram por aderir a uma solução em que por detrás está uma fintech. Sobretudo devido à agilidade, capacidade de adaptação e flexibilidade que mostrámos ao mercado que somos capazes.

Que novas formas poderá ter o dinheiro no futuro?
Dinheiro que não se vê e que não se sente. Ainda tenho o sonho de entrar no café e no fim falar para o telemóvel e dizer:  “Pague o café e a tosta mista ao Sr. Silva”, e o telemóvel saber exatamente quanto custa o café e a tosta mista, e saber quem é o Sr Silva e qual é a sua conta bancária. Também as chamadas criptomoedas vão fazer o seu caminho. Agora estamos a assistir a mais uma valorização significativa da bitcoin, e as criptomoedas vieram para ficar.

Como vamos receber e pagar nos próximos dez anos?
Nesta fase da vida ninguém se atreve a fazer um futuro tão longínquo, mas certamente daqui a 10 anos praticamente não haverá dinheiro. A maioria das pessoas já não passa um cheque há muito tempo. O mesmo vai acontecer com o dinheiro. Vai mesmo desaparecer.

Nos últimos tempos surgem algumas preocupações com a redução do uso de moedas e notas. O Banco Internacional de Pagamentos, por exemplo, destaca o potencial agravamento das desigualdades entre pessoas que têm e não têm acesso a pagamentos online. O que tem a dizer sobre este tema?
E têm toda a razão em alertar para esse potencial de desigualdade e, por isso, devemos inovar, mas não podemos esquecer os nossos pais e os nossos avós, que se calhar não querem ou não podem ter acesso a estes meios de pagamento digitais.

Quais serão as principais tendências dos meios de pagamento digital no futuro?
Poder pagar num abrir e fechar de olhos e ter acesso aos pagamentos que fiz sem limitação, ou seja, poder saber a quem paguei e de quem recebi de uma forma organizada e estruturada.

“Em Portugal para fazermos qualquer coisa temos que colocar dez vezes mais energia, e obtemos dez vezes menos resultados”.

Se pudesse mudar o rumo da Easypay, o que teria feito de diferente?
Teria aberto a Easypay noutro país. Em Portugal para fazermos qualquer coisa temos que colocar dez vezes mais energia, e obtemos dez vezes menos resultados. Gostaria que conseguíssemos ser os melhores do mundo, porque temos toda a capacidade e resiliência, mas é muito difícil.

Projetos para o futuro da Easypay?
Continuar a investir em tecnologia e em novos desenvolvimentos, para oferecer a cada vez mais empresas a oportunidade de terem acesso a uma das melhores gateways de pagamentos portuguesa, que compete com qualidade e serviço com as mais fortes empresas mundiais. Crescer cinco vezes em 10 anos.

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