O amor uni-os e o negócio separou-os. São muitos os casais que já se depararam com situações como esta. Conheça algumas histórias de casais empreendedores e saiba o que fazer para evitar o “desatar” do nó nos negócios e na vida.

Amor e negócios nem sempre combinam e são muitos os desafios a gerir para que se alcance e mantenha o sucesso de ambos. Recentemente dois unicórnios “passaram” por caminhos pedregosos ao terminarem os casamentos dos seus cofundadores.

Para que não seja este o seu futuro, é importante saber gerir a relação e os negócios quando ambos são os cofundadores da start-up. O Sunday Times falou com alguns casais empreendedores para saber como gerem esta dupla relação, que, por vezes, não tem um final feliz.

Mehak e a Anad Shahani conheceram-se em 2007 quando estagiaram na mesma empresa. A relação cresceu e casaram-se em 2012. Três anos mais tarde criaram a WedMeGood, uma plataforma online que disponibiliza serviços para casamentos. Tornavam-se assim parceiros no casamento e no negócio. Mas se para uns tal pode parecer a melhor coisa que poderia ter-lhes acontecido, para Anad e Mehak não foi bem o que aconteceu. “Tivemos as nossas duvidas enquanto formávamos a sociedade. É extremamente raro encontrar pessoas nesta realidade que conseguem ser felizes tanto nas suas vidas pessoais como profissionais. Mas a verdade é que este negócio não funcionaria se ambos não estivéssemos nele”, referiu Mehak, que trata da parte criativa, enquanto Anad tem a seu cargo a parte operacional do negócio.

Já o casal fundador da Mu Sigma, Dhiraj Rajaram, o seu diretor, e Ambiga, a sua CEO, não conseguiu encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, sendo muitas as questões que hoje se levantam sobre o futuro deste unicórnio.

No mês passado outro casal de peso no mundo das sociedades empresariais deu sinais de chegar ao fim, quando o fundador da Shopclues, Sandeep Aggarwal, acusou publicamente a sua esposa Radhika de lhe ter tirado o direito de voto no conselho de administração e de desvalorizar o seu papel na criação do unicórnio.

“Na minha experiência, gerir um negócio com o cônjuge não funciona e nunca mais o farei”, referiu Sandeep Aggarwal. Quando este foi preso nos Estados Unidos em 2013 por operações de iniciados, nomeou a esposa para o seu lugar no conselho de administração. “Olhando para trás, foi o maior erro que fiz. Se tivesse nomeado qualquer outra pessoa para o meu lugar, este ou esta ter-me-ia informado de que o conselho me iria tirar o direito de voto. Mas a Radhika nunca partilhou isso comigo, mesmo tendo sido esta nomeada por mim. Sinto-me profundamente traído”, confessou Aggarwal ao contar a sua versão da história.

Ambos os casos trouxeram à tona as dificuldades de gerir um negócio enquanto casal. No entanto, se estes foram notícia por se tratarem de unicórnios, muitos outros existem, mas não foram tornados públicos.

Revathy Rohira, advogada indiana especializada em divórcios, que tem em mãos uma média de 200 casos por ano, referiu que nos últimos três ou quatro anos tem constatado um aumento de cerca de 30% de casos em que o casal empreendedor decidiu seguir caminhos distintos.

Os investidores dizem-se preocupados com todos os cofundadores com relações familiares entre eles, e não apenas com os que são casados. Mohan Kumar, diretor executivo da Norwest Venture Partners, refere que qualquer problema familiar afetará a empresa.

Definir regras básicas

A gestão de uma das principais redes de pagamentos móveis da Índia não é tarefa fácil e os fundadores do Mobikwik, Bipin Preet Singh e Upasana Taku, sabem-no. “Criar uma start-up do zero é definitivamente stressante e isso tem impacto no relacionamento pessoal”, refere Singh. O casal estabeleceu regras básicas, nomeadamente formas para reduzir o contato entre eles durante as horas de trabalho, decidiram sentar-se com equipas diferentes e não falam de trabalho em casa. Além disso, tentam passar pelo menos duas horas por dia um com o outro.

As regras com que Singh e Taku se comprometeram parecem estar a funcionar, tendo a Mobikwik anunciado recentemente um investimento de vários mil milhões de euros para a sua expansão, com o objetivo de aumentar a sua base de utilizadores dos atuais 50 milhões para os 150 milhões em 2017.

Contundo, para alguns casais gerir um negócio com o cônjuge tem também as suas vantagens. “Passamos mais tempo juntos. Se fosse apenas um de nós a gerir o negócio este estaria sempre preso no trabalho”, diz Prashant Goyal, que gere com sua esposa Soniya a Innoflaps, uma start-up na área da saúde, em Delhi. Além disso, os cônjuges conhecem bem os pontos fortes e fracos um do outro, sendo isto que Goyal sente que os torna bons parceiros no trabalho.

“Tem que se estar totalmente comprometido quer no bem quer no mal quando se está a viver uma sociedade em 24×7″, diz Meena Ganesh, fundadora da Portea Medical, um serviço on-line de saúde. Meena e seu marido Krishnan Ganesh são empreendedores em série, estando atualmente a incubar cinco start-ups.

“Temos diferentes perspetivas e pontos fortes, e raramente concordamos seja no que for, quer se trate do crescimento versus rentabilidade, contratar antes de crescer, demitir rapidamente, ou até mesmo alguns pontos-chave de negócios. Mas isso traz debates saudáveis e muito valiosos que às vezes levam a firmes posições e pontos de vista”, conta.

“Nós nunca tomamos o partido do outro só porque estamos casados”, diz Amrita, que trata dos aspetos não-técnicos do negócio, como testar a interface do utilizador, contratar pessoas, gerir contas, participar em conferência, etc. O seu marido Rajat e o seu irmão Abhishek tratam da tecnologia por trás da aplicação.

Abhishek Daga, que criou a start-up de viagens Thrillophilia em 2010 com a sua esposa Chitra, diz que não há um livro com as regras da gestão de conflitos. “Somos pessoas diferentes pelo que as divergências acontecem”, refere, acrescentando que a compreensão e o respeito pelo papel de cada um é o que funciona bem.

Uma coisa essencial para que o relacionamento profissional funcione para ambos os sócios é terem competências que se complementam. “Trata-se de encontrar um cofundador que possa complementar as suas competências, em vez de apenas fazer do seu cônjuge um cofundador”, diz Mehak Shahani.

Meena Ganesh diz que a decisão de se juntarem profissionalmente não foi de forma alguma influenciada pelo seu relacionamento pessoal. “Juntámo-nos não porque estávamos casados, mas porque cada um de nós era qualificado para tal, tínhamos as competências profissionais e a postura corporativa para o fazer por mérito próprio”.

Outro fator importante para manter uma relação de trabalho é haver uma distinção clara do que são as funções de cada um. Mridula Naresh, que fundou a tecnológica Pi Cirql com seu marido Sudarsan Srinivasan, em 2016, confessa que os papéis distintos que têm dentro da organização têm por base a experiência individual de cada um. “Habitualmente trabalhamos de forma independente. No entanto, a estratégia global e a visão para a empresa são um exercício que fazemos em conjunto”, explica.

“Chame sempre as coisas pelos nomes. Não ajude seu cônjuge a trabalhar numa posição hierárquica e num papel para o qual não seja qualificado e adequado”, acrescenta Aggarwal.

Abhishek Dagga aconselha as pessoas a trabalharem em conjunto apenas caso compreendam e apreciem o valor individual de cada um enquanto parceiro de negócio. “Não trabalhem juntos por acharem que é fácil de dominar o outro ou por lhes parecer ser confortável”.

 

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