Opinião
O que a Inteligência Artificial não conseguiu medir sobre 2025
Escrever um artigo no início do ano parece, inevitavelmente, empurrar-me para balanços e promessas. Há algo no calendário que nos condiciona, quase sem darmos por isso, a medir, listar, comparar e projetar versões “melhores” de nós próprios.
Nos últimos dias, as redes sociais encheram-se exatamente disso. Do número de livros que se leram, das páginas acumuladas, das formações concluídas, das metas atingidas. E, com um pouco mais de honestidade, daquelas que ficaram pelo caminho.
Ao observar estas partilhas, confesso que fiquei dividida. Por um lado, admiro a disciplina, a consistência e o empenho. Não tenho nada contra listas nem números. Por outro, dei por mim a perguntar: o que é que realmente ficou para além disso? O que mudou para dentro, longe do post público, da fotografia bem enquadrada ou do resumo anual?
Talvez por isso, e aqui faço uma confissão, ao contrário de um artigo anterior que escrevi sem recorrer à Inteligência Artificial, desta vez fiz o oposto. Pedi ajuda à IA para analisar tendências e perceber o que mais apareceu no LinkedIn ao longo do último ano. Achei curioso, quase irónico, usar tecnologia para refletir sobre um período em que tantos discursos giraram em torno de humanidade, propósito e escolhas conscientes.
A verdade é que o resultado foi menos técnico do que eu esperava. E isso surpreendeu-me.
No LinkedIn, 2025 foi marcado por partilhas autênticas de conquistas profissionais e pessoais. Mais do que promoções, cargos ou certificações, tornou-se visível uma valorização crescente das histórias de superação, das mudanças de rumo e dos pequenos grandes passos que constroem percursos únicos. Houve mais espaço para assumir dúvidas, para nomear recomeços e para reconhecer caminhos não óbvios. Quando genuínas, estas narrativas têm um efeito interessante: lembram-nos que não existe um só percurso certo e que cada conquista, mesmo as mais discretas, pode inspirar alguém do outro lado.
Outro tema recorrente, esse impossível de ignorar, foi o número de livros e páginas lidas. Como se o crescimento pessoal pudesse ser contabilizado. Atenção: acredito profundamente no poder da leitura. O que questiono é a necessidade de a transformar numa espécie de ranking informal. Nem sempre o livro mais transformador é aquele que aparece nos resumos do ano. Às vezes foi apenas uma frase. Outras vezes, uma ideia que demorou meses, ou anos, a assentar.
Enquanto coach, esta reflexão ganha outra camada quando penso nos jovens. Muitos crescem hoje expostos a narrativas de sucesso altamente performativas, onde tudo parece rápido, mensurável e definitivo. Vejo jovens, e também os seus pais, ansiosos por decisões “certas”, como se houvesse respostas finais demasiado cedo. E isto preocupa-me. Porque crescer, escolher e construir identidade profissional não acontece em linha reta. Acontece com avanços, recuos, silêncios e mudanças de ideias.
No trabalho de orientação vocacional, percebo cada vez mais que o impacto não está em dar respostas, mas em legitimar perguntas. Ensinar os jovens a tolerar a incerteza, a experimentar, a errar sem se definirem por isso. A perceber que não decidir tudo aos 15 ou aos 18 não é sinal de fraqueza. É, muitas vezes, sinal de consciência.
Talvez o início do ano sirva menos para prometer e mais para escutar melhor. O que aprendi, de facto? O que me transformou, mesmo que não seja fácil de explicar? O que quero continuar a fazer, não porque “fica bem”, mas porque faz sentido?
Curiosamente, foi a Inteligência Artificial que me ajudou a confirmar algo profundamente humano: continuamos à procura de coerência, pertença e significado. A tecnologia pode identificar padrões, mas não vive por nós. Não escolhe por nós. Isso continua a ser um trabalho pessoal e intransferível.
Não sou grande adepta de promessas de Ano Novo. Tenho pouca fé naquelas que nascem demasiado ambiciosas e demasiado cedo. Aquilo a que me proponho, e que continuo a propor a quem me acompanha, é algo menos espetacular, mas mais sustentável: autenticidade e crescimento pessoal. Não como metas a cumprir, mas como uma prática contínua. Imperfeita, às vezes desconfortável, mas honesta. E, para mim, isso chega.








