O valor “confiança” é o pilar de qualquer relação, seja em contexto pessoal, familiar, profissional ou corporativo. Sem ela, nada se constrói, de forma sólida e sustentável ao longo da vida. É um dos principais alicerces na construção de organizações sustentáveis ao longo do tempo.

Focando, no mundo corporativo, que é o que melhor me assiste e posso partilhar conhecimento, a ausência de confiança é altamente prejudicial na construção de uma cultura de envolvimento individual e coletivo, de resiliência e de valorização exponencial de um coletivo incumbido de uma missão e uma visão altamente desafiantes nos dias que correm.

Mas o que é a confiança?

A melhor definição que até hoje desbravei é a dada por Charles Feltman, no seu livro “Thin Book of Trust Quotes” e que define confiança da seguinte forma: “choosing to risk making something you value vulnerable to another person´s actions”.

Efetivamente, quando confiamos em alguém, numa equipa ou na liderança de uma corporação, o que se torna vulnerável, podem ser variadíssimas coisas, desde o dinheiro, a uma promoção, um objetivo, a uma função ou tarefa. Mas podem ser também menos tangíveis, como o nosso profissionalismo, o nosso “bom nome”, uma crença que se tem, ou até o sentimento de felicidade.

Seja o que quer que se opte por tornar vulnerável às ações do outro, é sempre uma avaliação de risco: confiar/não confiar. Confiar ao outro ou a uma equipa, por exemplo, que os objetivos serão atingidos, significa acreditar que as ações dessa pessoa ou equipa, o apoiarão, ou, no limite, pelo menos não o prejudicarão.

A confiança no local de trabalho, é sempre uma avaliação de risco. Deve confiar ou não? Seja qual for a sua decisão, terá sempre em mente a probabilidade de a outra pessoa ou equipa o apoiar ou prejudicar aquilo que valoriza no futuro.

Quem bem conhece os meus artigos e a minha forma de estar, sabe que acredito primeiro, para ver depois e não sou muito do “ver para crer”. Na confiança é igual. Acredito e confio, ainda sem qualquer sinal ou prova de que possa confiar. Certamente, devemos dosear o tal grau de vulnerabilidade do que queremos deixar nas ações dos outros, porém, em ambiente de trabalho saudável, produtivo, colaborativo e de cooperação conjunta, devemos partir do “eu confio”. No final, se tivermos dissabores, pelo menos duas coisas acontecem, o próprio grupo “expele” o elemento tóxico, mais tarde ou mais cedo e em cenários mais duros, fica a aprendizagem como um todo, e a nossa resiliência a crescer.

Como escreveu Ernest Hemingway, “the best way to find out if you can trust somebody is to trust them” e é esse o meu mantra. Por isso, confiar em alguém ou numa equipa, ou na liderança de uma organização é um processo de vulnerabilidade e de coragem. Não é para todos, mas podemos sempre, amanhã ser uma melhor versão de nós próprios.

Dando um toque científico ao tema, num estudo, conduzido por Brené Brown, PhD e Research Teacher na Universidade de Houston, Estados Unidos, partilho o que se evidenciou no estudo como os sete elementos da confiança. Confiança em si e nos outros:

  1. Boundaries : Respeitar os limites ou fronteiras, seus e dos outros, e quando não sabe o que está bem e não está bem, pergunte. Deve estar aberto e/ou predisposto a dizer não;
  2. Reliability : Fazer o que se diz que se vai fazer. Isto significa estar consciente das suas competências e limitações para não se comprometer demasiado e ser capaz de cumprir os compromissos e equilibrar as prioridades;
  3. Accountability : Ser responsável pelos seus erros, pedir desculpa, e reparar os erros (quando possível);
  4. Vault : Respeitar informações ou experiências que não sejam suas para partilhar. Da mesma forma, saber que as minhas confidências são mantidas, e que não está a partilhar com ninguém informação sobre pessoas que devam ser confidenciais;
  5. Integraty : Escolher a coragem em vez do conforto. Escolher o que é certo em vez do que é divertido, rápido ou fácil. Optar por praticar os seus valores, mais do que simplesmente professá-los;
  6. Nonjudgment : Pedir o que precisa, e ouvir o que os outros pedem. Dialogar sobre como nos sentimos sem qualquer julgamento;
  7. Generosity: Estender a interpretação mais generosa possível às intenções, palavras e ações dos outros. Permita-se a ser generoso nos pressupostos sobre os outros.

Em suma, um lugar de trabalho movido pela confiança coletiva leva a resultados porque transforma palavras em ações, e agir é fazer acontecer. A confiança leva tempo, semeia-se, mas quando começa a crescer, vale todo o esforço do mundo.

E porque dedico este artigo à minha atual equipa e missão, confiança é o resultado de um trabalho em equipa brilhante!

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Sónia Jerónimo é COO e Board Advisory na Winning e tem mais de 20 de experiência na área da gestão e liderança de empresas ligadas às tecnologias de informação. Após a licenciatura em Economia, iniciou a sua carreira no mundo... Ler Mais