Entrevista/ “O meu percurso ensinou-me que a tecnologia só é transformadora quando ligada ao negócio e às pessoas”
“A minha liderança enquanto CEO será profundamente baseada na empatia com as operações e as pessoas, mas focada numa ambição global e na capacidade de transformar visão técnica em valor real de negócio”, afirma Vítor Gibão, o novo CEO da valantic LCS.
Vítor Gibão assumiu recentemente o cargo de Chief Executive Officer (CEO), da valantic LCS, uma empresa com sede em Leiria, mas com uma projeção geográfica internacional relevante. Depois de oito anos nos quadros da organização, com outras funções, agora vai liderar uma nova fase de crescimento internacional baseada em Inteligência Artificial Agêntica (Agentic AI).
A expansão global, com foco na consolidação do mercado dos Estados Unidos e no investimento na região DACH (Alemanha, Áustria e Suíça), são prioridades para Vítor Gibão que não deixa de sublinhar que o foco da tecnológica “é garantir que cada solução traz um impacto claro e mensurável ao negócio, fugindo totalmente da tendência de implementar tecnologia apenas por ‘moda’ ou visibilidade”.
Depois de oito anos na valantic LCS, o que representa para si assumir agora a liderança da empresa e suceder a Frederico Ferreira após 17 anos à frente do negócio?
Assumir esta posição na valantic LCS é uma enorme honra e, acima de tudo, um profundo sentido de responsabilidade. O facto de acompanhar e viver a realidade da empresa nos últimos oito anos dá-me uma visão clara do nosso ADN, mas não diminui o respeito pelo desafio de suceder ao Frederico, cujo contributo foi e continuará a ser basilar para todos nós.
Que aprendizagens retirou das diferentes funções que desempenhou na empresa e de que forma irão influenciar o seu estilo de liderança enquanto CEO?
Embora a minha formação base seja técnica, o meu percurso ensinou-me que a tecnologia só é transformadora quando ligada ao negócio e às pessoas. O maior ponto de viragem na valantic LCS foi, sem dúvida, ter liderado a operação na região APAC desde a sua origem. Construir uma presença do zero num mercado tão dinâmico exigiu-me não só visão estratégica, mas também a capacidade de transmitir a cultura, os valores e o posicionamento da empresa a equipas e clientes de geografias muito distintas.
Esta experiência moldou a minha visão: a minha liderança enquanto CEO será profundamente baseada na empatia com as operações e as pessoas, mas focada numa ambição global e na capacidade de transformar visão técnica em valor real de negócio.
Quais são as principais prioridades estratégicas que definiu para esta nova fase da valantic LCS?
Os últimos dois anos trouxeram desafios complexos ao setor, desde a instabilidade geopolítica à disrupção tecnológica da IA, passando por transformações no próprio ecossistema OutSystems. A nossa prioridade é preparar a valantic LCS para esta nova era. Gosto de usar a analogia ferroviária: o nosso grande objetivo é fazer a transição para comboios de última geração e modernizar as linhas que os suportam, garantindo que a empresa acelera rumo ao futuro sem nunca perder a estabilidade ou o rumo.
“Os mercados internacionais representam o verdadeiro núcleo e motor de crescimento do nosso negócio (…)”.
A internacionalização continuará a ser o núcleo do negócio. Que peso têm atualmente os mercados externos na atividade da empresa e que objetivos de crescimento estabeleceram para os próximos anos?
Os mercados internacionais representam o verdadeiro núcleo e motor de crescimento do nosso negócio, sendo o mercado nacional uma parcela residual da nossa operação. A nossa ambição passa por consolidar e expandir ainda mais a nossa pegada global, garantindo que continuamos a ser a escolha de referência para grandes projetos de transformação digital além-fronteiras nos próximos anos.
Depois da consolidação da operação nos Estados Unidos, a região DACH surge como a principal aposta. O que torna a Alemanha, a Áustria e a Suíça mercados particularmente relevantes para a valantic LCS?
Trata-se de uma região altamente industrializada, com um tecido empresarial maduro e exigente, onde a procura por modernização aplicacional e soluções tecnológicas robustas é enorme, tornando-a a nossa principal aposta de crescimento e investimento estratégico no presente.
Que desafios antecipa na expansão para a região DACH e de que forma a integração no grupo valantic poderá facilitar esse crescimento?
A região DACH é um mercado com dinâmicas próprias e ciclos de decisão tipicamente mais ponderados e lentos. É precisamente aqui que a nossa aliança e integração no grupo valantic se torna um elemento diferenciador: dá-nos uma presença local forte, reputação imediata e uma profunda proximidade cultural com os clientes regionais, o que acelera drasticamente a criação de relações de confiança e facilita a nossa expansão sustentada na região.
A Agentic AI é apresentada como um dos pilares do próximo ciclo da empresa. Na prática, como pode esta tecnologia transformar o desenvolvimento, a modernização e a gestão de aplicações empresariais?
A Agentic AI eleva a Inteligência Artificial de um mero assistente para um interveniente ativo e autónomo em todo o ciclo de vida do software. Na prática, esta tecnologia permite orquestrar fluxos de trabalho complexos, automatizar decisões operacionais e acelerar drasticamente a modernização aplicacional. Isso traduz-se em sistemas empresariais muito mais adaptativos, inteligentes e capazes de evoluir à velocidade do próprio negócio.
“O nosso foco é garantir que cada solução traz um impacto claro e mensurável ao negócio (…)”.
Muitas organizações ainda estão numa fase experimental na adoção da Inteligência Artificial. Como identificam casos de utilização que gerem valor concreto e mensurável para os clientes?
A nossa prioridade é reforçar e evoluir o nosso posicionamento para uma abordagem cada vez mais consultiva. O nosso trabalho passa por analisar detalhadamente a operação dos nossos clientes para identificar e integrar a IA nos pontos-chave e processos críticos onde ela realmente faz a diferença. O nosso foco é garantir que cada solução traz um impacto claro e mensurável ao negócio, fugindo totalmente da tendência de implementar tecnologia apenas por ‘moda’ ou visibilidade.
De que forma a IA já está a alterar os processos internos, a produtividade das equipas e os modelos de entrega de projetos na valantic LCS?
Internamente, a IA é já um alavancador direto da nossa eficiência. Estamos a redefinir a nossa metodologia de entrega através da adoção contínua de novas ferramentas, da otimização de processos de desenvolvimento e do investimento na capacitação das nossas equipas. Isto vai-nos permitir acelerar a entrega dos projetos e aumentar a produtividade, libertando os nossos talentos para tarefas de maior valor acrescentado.
A empresa está exclusivamente focada em tecnologia OutSystems. Esta especialização continua a representar uma vantagem competitiva ou poderá também constituir um risco num mercado tecnológico em rápida transformação?
A nossa profunda especialização na tecnologia OutSystems tem sido, indiscutivelmente, um dos grandes motores do nosso sucesso e posicionamento no mercado. Continuamos a acreditar no potencial da plataforma e no valor que ela entrega. Contudo, numa indústria que evolui a um ritmo vertiginoso, temos a plena consciência e maturidade estratégica de que dependências exclusivas acarretam riscos. Olhamos para esse cenário de forma extremamente séria e responsável, o que nos leva a estar constantemente a avaliar o mercado, garantindo que a valantic LCS se mantém ágil, resiliente e preparada para evoluir a sua oferta sempre que o futuro do negócio o exigir.
Com equipas distribuídas por Portugal, Estados Unidos, Índia e Malásia, como se garante uma cultura comum e uma liderança próxima num contexto tão internacional?
A minha experiência a liderar a região APAC a partir de Portugal deu-me uma sensibilidade muito prática sobre os desafios de gerir equipas e culturas geograficamente dispersas. Se o contexto pós-pandemia e a generalização do trabalho híbrido trouxeram novas dinâmicas a esta equação, o forte crescimento que a valantic LCS registou nos últimos anos veio reforçar essa exigência. Garantir uma cultura coesa e uma liderança próxima numa empresa global exige um esforço contínuo e intencional. Para mim, a cultura não é algo estático: é um compromisso diário que requer escuta ativa, reforçar a comunicação e a criação de pontes constantes entre todas as nossas geografias para que cada pessoa, independentemente de onde esteja, se sinta parte do mesmo projeto.
Que valantic LCS gostaria de deixar construída no final deste primeiro ciclo enquanto CEO e que indicadores permitirão avaliar o sucesso da sua liderança?
Gostaria de deixar uma valantic LCS totalmente preparada para a nova era do nosso setor: uma organização tecnologicamente na vanguarda, muito impulsionada pela Agentic AI, ágil perante a rápida evolução do mercado e solidamente estabelecida como uma referência de alto valor no ecossistema global.








