A minha última crónica versou sobre a experiência ultra-liberal de Liz Truss. Apesar de já conhecermos o final da história, convém relembrar o que aconteceu.

Kwazi Kwarteng anunciou o que no Reino Unido se chama “mini-orçamento”. Em traços largos as principais medidas foram as seguintes:

  • Redução da taxa mais baixa de IRS de 20 para 19%.
  • Abolição da taxa mais elevada de IRS de 45%, reduzindo o imposto para os mais ricos.
  • Redução da taxa de IRC das maiores empresas de 25 para 19%.

No seu conjunto, esta foi a maior baixa de impostos no Reino Unido desde 1972. Nenhumas medidas de poupança foram anunciadas. O déficit decorrente da queda de receitas deveria ser financiado por emissão de dívida. O governo britânico pensou que a baixa taxa de dívida pública do país (85% do PIB) permitiria que as medidas fossem absorvidas pelo mercado como ele próprio as tinha avaliado: um incentivo fiscal ao crescimento, tirar do Estado para colocar na economia.

Eis como “o Mercado” recebeu as notícias:

  • A libra caiu para o seu mais baixo nível de sempre contra o dólar americano.
  • Os investidores começaram a vender títulos de dívida pública em tal quantidade que o Banco de Inglaterra se viu forçado a aumentar as taxas de juros para compensar o risco percebido e segurar a compra de títulos de dívida.
  • Na sequência do anterior, a banca comercial aumentou as suas taxas o que impactou de imediato as prestações dos créditos habitação.
  • A inflação, já elevada pelos efeitos da crise energética, disparou como consequência da desvalorização da libra e pelo aumento das taxas de juro e consequentes custos de financiamento da atividade económica.
  • O FMI aconselhou publicamente o Governo britânico a voltar à prudência fiscal pois não considerava possível o financiamento do Estado britânico a médio e longo prazo.

Liz Truss e Kwazi Kwarteng passaram à história como os coveiros do mais breve governo do Reino Unido.

Cabe agora perguntar: afinal os mercados querem ou não o desagravamento fiscal e o incentivo ao crescimento que um corte fiscal deveria implicar? A baixa dívida pública dá ou não aos Governos um pouco de margem para administrar um choque fiscal nas suas economias, como sempre se pensou? Afinal o que é mais importante, gerar riqueza ainda que a um custo de curto prazo, ou manter as famosas “contas certas”?

Lamento informar todos os que, como eu, pensam que baixar impostos é uma quase obrigação moral e uma forma de gerar riqueza e crescimento que “o Mercado” e os seus guardiões liberais (por exemplo, o FMI e os fundos que compram dívida pública) não estão de acordo. Basta vermos o que aconteceu na Grã-Bretanha. O susto foi tremendo e as consequências são agora visíveis nos cortes nos serviços públicos e nos aumentos de impostos do orçamento “realista” recentemente aprovado. Triste, mas verdadeiro.

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Ricardo Monteiro é ex-presidente global da Havas Worldwide e ex-chairman global da Havas Worldwide, speaker internacional, comentador de política internacional e economia na TVI 24, professor convidado da Porto Business School, administrador não-executivo na Sonae MC, e special advisor no... Ler Mais