Opinião

O futuro da venda de serviços: quando a IA muda tudo, menos a confiança

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A
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Vender serviços consistia em dominar a informação, conhecer o mercado e construir uma relação de confiança. Um agente de seguros, um gestor bancário, um consultor imobiliário ou qualquer profissional da área comercial nos serviços distinguiu-se até hoje, pela sua capacidade de aconselhar, apresentar alternativas e conduzir o cliente até à decisão. Mas esta realidade está a mudar rapidamente.

A inteligência artificial (IA) está a retirar valor a muitas tarefas que, até agora, justificavam a existência destes profissionais. O seu papel não desaparece, mas transforma-se profundamente.

Os clientes chegam hoje a uma reunião muito mais informados. Com recurso à IA, comparam produtos, simulam cenários, interpretam contratos, identificam riscos e obtêm recomendações em poucos segundos. O que antes exigia várias reuniões pode agora ser preparado em minutos. Neste contexto, o real valor de um profissional de vendas deixa de estar concentrado na informação que possui e passa a residir na interpretação, na capacidade de decisão e na criação de confiança.

As grandes organizações internacionais já perceberam esta mudança. A título meramente exemplificativo, seguradoras como a AXA, Allianz ou Ping An, recorrem à IA para antecipar necessidades, personalizar propostas, acelerar processos de subscrição e gestão de sinistros. Na banca, instituições como o DBS Bank ou o JPMorgan Chase recorrem à IA para apoiar gestores comerciais, antecipar comportamentos dos clientes e identificar oportunidades de negócio, antes mesmo de serem evidentes. No imobiliário, plataformas como a Compass utilizam algoritmos para estimar preços, identificar potenciais compradores e apoiar os consultores na tomada de decisão.

A interpretação desta realidade não remete para a substituição das equipas comerciais. Pelo contrário, obriga a torná-las muito mais produtivas. Uma vez que a tecnologia executa as tarefas repetitivas, as pessoas podem e devem concentrar-se nas decisões complexas e nas relações humanas.

As grandes seguradoras, bancos e redes imobiliárias iniciaram processos de digitalização e integração de IA, embora muitas vezes ainda limitados à automação de processos ou ao apoio ao atendimento. Nas PME’s e sobretudo entre profissionais independentes, a sua utilização continua reduzida. Em muitos casos, a IA é vista apenas como uma ferramenta para produzir conteúdo ou responder a mensagens, quando o verdadeiro potencial está na preparação comercial, na análise de clientes, na previsão de comportamentos, na gestão de oportunidades e na personalização da proposta de valor.

Esta diferença tenderá a acentuar-se. Assim, nas grandes empresas iremos assistir à integração das plataformas, onde marketing, vendas, operações e serviço ao cliente partilham informação em tempo real. Neste quadro, o gestor comercial receberá diariamente prioridades definidas por algoritmos, com a identificação de quais as leads com maior probabilidade de compra, quais apresentam risco de abandono, que tipo proposta e narrativa deverá apresentar, qual o preço mais adequado e até o momento ideal para contactar.

Já os pequenos empresários e agentes independentes terão um desafio diferente, uma vez que não poderão competir pela dimensão, à semelhança do que já acontecia. Todavia, têm a oportunidade de criar vantagens competitivas pela proximidade e rapidez. A IA permitirá que um único profissional desempenhe tarefas que anteriormente exigiam equipas inteiras, desde a preparação de reuniões, criação de propostas comerciais personalizadas, análise do desempenho de concorrentes, criar campanhas digitais e monitorizar indicadores de desempenho quase em tempo real. Assim, o consultor do futuro será menos administrativo e muito mais estratégico.

O futuro da venda de serviços será menos centrado no produto e muito mais centrado na inteligência, na personalização e na confiança. A tecnologia tratará dos dados, mas as pessoas continuarão a ser responsáveis pelas decisões que exigem empatia, julgamento e credibilidade.

A grande questão já não é saber se a IA vai transformar as funções comerciais, pois essa dinâmica já começou. A verdadeira diferença estará entre os profissionais que utilizam a IA como extensão da sua competência e aqueles que continuarão a trabalhar exatamente da mesma forma que trabalharam nos últimos 10 anos.

Abraçar esta nova realidade passou a ser uma condição indispensável para continuar a criar valor, conquistar clientes e garantir relevância profissional.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor Académico dos Executive Master in Management e coordenador do Programa Avançado de Marketing para Executivos, do Programa de Gestão Comercial e Vendas, do Programa de Gestão em Marketing Digital... Ler Mais..

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