É CEO da Tiko, proptech espanhola criada há cerca de quatro anos e que entrou no mercado português em 2021. Fundou o Grupo Markafoni, o primeiro site de moda online da Turquia. E já investiu em 35 empresas tecnológicas em fase inicial. O Link To Leaders falou com o turco Sina Afra sobre os seus investimentos como business angel e a sua carreira de empresário.

Fundou o primeiro portal online de moda na Turquia, a Markafoni, que se tornou-se também na primeira empresa turca de Internet a expandir-se além-fronteiras para países como a Austrália, Ucrânia, Grécia e a Polónia.

Atualmente, Sina Afra é CEO da Tiko, empresa que criou há quatro anos e que se apresenta como um marketplace imobiliário digital – não só compra as casas diretamente, como também as vende em menos de 90 dias.

E não fica porque aqui. Sina Afra é também business angel – já investiu em 35 empresas tecnológicas em fase inicial. O seu compromisso com o empreendedorismo levou-o inclusive a ser presidente da Fundação de Empreendedores da Turquia, a ser reconhecido como “Empreendedor do Ano na Internet” e “Business Angel do ano” pela Webrazzi, e a integrar durante dois anos consecutivos o Top 100 das pessoas mais influentes em tecnologia da Europa.

Antes da carreira de empresário, Afra passou mais de 5 anos no eBay e 12 anos na KPMG. E foi da sua experiência profissional que tirou a sua maior lição de liderança: “sejam autênticos; falem com alguém que acabaram de conhecer da mesma forma que falam com seus amigos mais próximos e fortaleçam não os pontos fracos, mas as áreas onde são fortes”.

Como se tornou um investidor?
Há muitos anos comecei como empreendedor e ao longo do processo estabeleci relações com muito investidores que confiaram em mim, que me ajudaram a avançar com os projetos. Como resultado, compreendi como é importante para as start-ups obterem investimento e, acima de tudo, terem alguém que acredita cegamente na sua ideia. Isto fez-me perceber que também queria fazer parte do crescimento de outras empresas, estar do “outro lado” e comecei a investir.

Como descreve o estado do ecossistema de start-ups da Turquia?
Creio que todos concordamos que o empreendedorismo traz emprego, tecnologia e impostos para o país. Para além da educação, o empreendedorismo é um dos bens mais valiosos que temos para o desenvolvimento na Turquia. Contudo, há três áreas chave onde nos devemos focar para tornar o ecossistema empreendedor turco num dos mais valiosos da Europa: reforçar o poder financeiro; aumentar o número de criadores de software e tornar Istambul um centro de atração empresarial.

“Uma coisa que aprendi ao longo dos anos, graças à minha experiência como empreendedor e business angel, é que a relação de confiança entre as duas partes é o mais importante de tudo”.

Qual é a importância da networking no contexto das empresas de hoje?
Uma coisa que aprendi ao longo dos anos, graças à minha experiência como empreendedor e business angel, é que a relação de confiança entre as duas partes é o mais importante de tudo. Aquela pessoa vai apostar nas tuas ideias como se fossem dela, por isso, terem os mesmos interesses é essencial para o negócio crescer.

Procura algo em particular nas empresas que se apresentam a pitch? Algo que possa aconselhar os empreendedores a concentrarem-se e que considere relevante?
Para mim, é fundamental que priorizem o crescimento sustentável. Aplico isto não só nas empresas em que invisto, mas também nas que fundei, como a Tiko. Nos últimos meses tenho assistido a empresas a crescerem muito rapidamente, mas não de forma sustentável. Ao invés, preferem enveredar por situações muito negativas, com redução de pessoal ou das suas áreas de operação. Acredito que as empresas que sobreviverão a longo prazo são as que procuram ser eficientes.

Quais são os maiores desafios para os Business Angels neste momento?
Encontrar um empreendedor que compreenda a importância do timing e que seja capaz de reunir uma equipa forte. Tudo gira à volta do timing e da equipa.

Como vê a ascensão das mulheres no mundo do investimento?
O mundo da economia e da finança é um campo tradicionalmente masculino. Mas, felizmente, os tempos mudaram e as mulheres têm vindo a avançar e a ocupar novos espaços, também, na esfera financeira. O fosso entre géneros começa a estreitar e mesmo no papel de business angels as mulheres começam a ter uma representação importante.

Do meu ponto de vista, em nome da igualdade, da sustentabilidade e das vantagens de ser ativo no campo financeiro, é desejável que o grupo de mulheres investidoras mantenha o seu crescimento e progressão nos anos vindouros.

“É sempre difícil limitarmo-nos por países, uma vez que os investimentos não têm fronteiras. Mas, vejo muito talento a surgir no sul da Europa, em países como Portugal e Espanha”.

Nos próximos meses, a que países devem os Business Angels e o capital de risco estar atentos às oportunidades de negócio?
É sempre difícil limitarmo-nos por países, uma vez que os investimentos não têm fronteiras. Mas, vejo muito talento a surgir no sul da Europa, em países como Portugal e Espanha. Também noto que os países nórdicos desenvolveram comunidades empresariais fantásticas, como o ecossistema finlandês à volta do Slush. E, deixe-me acrescentar que as comunidades tornam fácil encontrar os empreendedores certos.

Está a redefinir a indústria imobiliária com a Tiko. Porque é que criou a Tiko?
A ideia da Tiko cresceu para preencher um espaço vazio na indústria imobiliária: digitalização. Se reparar o setor imobiliário tem sido o último grande setor a experimentar uma forte digitalização. Se olharmos atentamente percebemos que desde os portais imobiliários, há 20 anos, que não tínhamos inovações no setor até à ascensão da proptech há menos de cinco anos. Por isso, havia espaço para melhorar o processo de compra e venda de uma casa, pois esta pode ser digitalizada e o processo de venda agilizado e tornado mais conveniente, sem, por exemplo, as tradicionais visitas ao imóvel, sem os tradicionais anúncios que arrastam o processo de venda da casa por meses.

Ou seja, a missão da Tiko é ajudar os proprietários que querem vender as suas casas e num processo muito simples fazemos uma oferta gratuita pela casa e tratamos da papelada para dar ao comprador todas as facilidades.

De que forma a Tiko oferece uma alternativa sustentável aos negócios imobiliários tradicionais?
A grande diferença entre a Tiko e uma agência imobiliária tradicional reside logo na génese. A Tiko é compradora direta de imóveis, não intermediária. Ou seja, no nosso modelo de negócio quem vende não tem de esperar até que a agência imobiliária encontre um comprador, pois já o tem. Além disso, os proprietários apenas têm de preencher, no nosso site – tiko.pt –, um formulário simples com os dados básicos do imóvel e em poucas horas recebem uma proposta de compra.

Assim que a oferta for aceite um dos nossos especialistas imobiliários faz uma inspeção técnica da casa, a transferência da propriedade é formalizada e o cliente recebe o pagamento dentro de poucos dias. No modelo tradicional um vendedor precisa, em média, de 6 meses para fechar o negócio.

De que forma é que as proptech alavancam a tecnologia para desenvolver práticas sustentáveis?
A Tiko foi criada para ajudar os proprietários que querem vender as suas casas de forma rápida, cómoda e sem stress. Por isso, apresentamos uma proposta em 24 horas e que tem as taxas de erro mais baixas da indústria. Ou seja, ao vender a sua casa através da Tiko não há comissões, pois somos compradores diretos, e também não há descontos.

Para chegarmos ao valor da proposta recorremos ao nosso próprio algoritmo, o TikoAnalytics, que valoriza cada propriedade individualmente. Com os dados que o vendedor nos fornece sobre o seu imóvel, usamos o nosso próprio algoritmo de avaliação e analisamos as características da casa e comparamo-la com casas semelhantes que se encontram à venda ou foram recentemente vendidas. Entre outras coisas, o Tikoanalytics compara a casa com outras na mesma zona, superfície, andar, etc. Uma vez que todas as informações foram comparadas, este algoritmo calcula um preço de compra competitivo com base nas características particulares do seu apartamento e preços de mercado.

Ou seja, este processo, este recurso à tecnologia, ao nosso próprio algoritmo permite à Tiko calcular o preço do imóvel sem o visitar, praticar um menor enviesamento no processo de avaliação e assegurar a melhor aproximação ao valor real de mercado, além de prever as tendências futuras do próprio mercado.

“Portugal, para além de ser um país muito atrativo para investir devido à segurança dos rendimentos e, no caso da Tiko ao crescimento sustentável do próprio mercado imobiliário, tem características únicas (…)”.

Conhece o ecossistema empresarial em Portugal?
A Tiko começou a operar em Espanha em 2018 e o primeiro país onde apostamos para a sua internacionalização foi Portugal. Portugal, para além de ser um país muito atrativo para investir devido à segurança dos rendimentos e, no caso da Tiko ao crescimento sustentável do próprio mercado imobiliário, tem características únicas, onde se destaca a qualidade de vida, a segurança, o clima, a cultura, o talento e, claro, o espírito empreendedor dos portugueses, que são também um povo muito recetivo à inovação.

E isso está demonstrado, por exemplo, quando olhamos para o ecossistema de start-ups e percebemos que, embora jovem (mas já com sete unicórnios) representa 1,1% do PIB e 25 mil postos de trabalho.

Que conselho daria a todos os fundadores?
Tive a minha maior lição de liderança na qualidade de espetador e quando estava na KPMG. Dela retirei dois ensinamentos que partilho: sejam autênticos; falem com alguém que acabaram de conhecer da mesma forma que falam com seus amigos mais próximos; fortaleçam não os pontos fracos, mas as áreas onde são fortes.

Qual foi a principal lição que aprendeu como empreendedor e também como investidor?
Creio que tanto o empreendedor como o business angel têm de ser flexíveis. Tudo o resto é muito diferente. O business angel não terá tantas noites mal dormidas quantas o empreendedor. O empreendedor está na cozinha, enquanto o business angel está na sala.

Quais são os planos para os próximos anos? O que gostaria ainda de fazer?
A verdade é que, neste momento, estou muito concentrado na Tiko. Temos grandes planos para a empresa, estamos a preparar o lançamento em França e em outras cidades de Portugal e Espanha, e há cada vez mais interesse dos investidores na empresa; a curto prazo isso é o mais importante.

Respostas curtas:
Maior risco:
Deixar uma multinacional para criar o meu próprio negócio.
Maior erro: Sair demasiado cedo das minhas empresas.
A melhor ideia: Fundar a Tiko.
A lição mais importante: Não é preciso ter tudo preparado para mergulhar de cabeça; na vida, é preciso correr riscos.
A maior conquista: Ser capaz de conciliar a minha vida profissional com a minha vida pessoal.

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