Bay McLaughlin, cofundador da Brinc.io, um dos primeiros aceleradores de hardware em Hong Kong, falou com o Link To Leaders sobre as especificidades do mercado asiático e a sua experiência na Apple.

Bay McLaughlin, cofundador da Brinc.io, um acelerador global, dedicado à IoT (Internet of Things), com sede em Hong Kong e escritórios em Shenzhen, Guangzhou, London, Berlim, Helsínquia, Amsterdão e, em breve, nos EUA, é um conhecido orador internacional.

Depois de 12 anos a criar e a apoiar start-ups, dedica-se agora a ligar a Ásia a Silicon Valley. Como membro da equipa criadora do canal global de pequenas e médias empresas da Apple e fundador do primeiro canal de Empreendedorismo Evangelista da marca, trabalha em estreita colaboração com investidores de risco e aceleradores, ajudando a resolver problemas os estratégicos mais prementes.

Com oito empresas de software e 14 holdings no portfólio de hardware, Bay McLaughlin fez com sucesso a transição do digital para o físico e de São Francisco para a Ásia.

Em entrevista ao Link To Leaders, Bay McLaughlin falou sobre a Brinc, a Apple e os segredos do ecossistema asiático.

Em que consiste a Brinc.io e o trabalho que desenvolvem?

Ajudamos a construir empresas de IoT que estão ligadas a determinado tipo de tecnologia. Temos um acelerador, um estúdio na China, onde produzimos os equipamentos e uma equipa de distribuição e de desenvolvimento do negócio, que ajuda este novo tipo de empreendedores a escalar globalmente as suas empresas.

Trabalham fundamentalmente a parte do hardware com as start-ups. Qual é o sonho da Brinc.io?

O sonho para o mundo é que estes dispositivos, e há tantos por todo o mundo, disponibilizem a informação que recolhem em qualquer lugar onde estejam. Uma coisa é óbvia: os nossos corpos. Ao desbloquear a informação recolhida sobre a nossa saúde, e para tal teremos de reunir a informação de milhões e milhões destes dispositivos, poderemos começar a analisar toda a informação e a perceber como poderemos melhorar o mundo à nossa volta e as nossas vidas. Queremos ajudar a construir o futuro. Vai chegar o dia em que teremos os fundadores com as suas ideias, que consigam sobreviver a todos os desafios que se colocam à produção, à distribuição, à criação de uma marca para o consumidor, e tudo aquilo com que tentamos ajudá-los a conseguir superar.

Como funciona toda a cadeia ao nível do hardware? Qual o processo?

É muito diferente do software. Com a IoT, é preciso ter tanto o hardware como o software. É muito mais difícil, porque é preciso ter um grande software e depois desenvolver todo o trabalho necessário de perceber toda a economia. Uma das coisas que mais constatamos com os fundadores é que veem como um grande desafio passar da velha economia para a nova economia, ou do offline para o online, e conseguir casar as duas realidades. Noutra dimensão, é do Ocidente para o Oriente, porque, para fazer estes produtos, normalmente é preciso estar na Ásia, onde estamos, em Hong Kong ou em Shenzhen ou Guangzhou, pois é lá que todos estes aparelhos de eletrónica são fabricados.

Ao que é preciso estar atento e não perder de vista no seu negócio diferente de outros tipos de atividade?

É muito desafiante. No software, quando temos alguma informação e feedback, é só seguir em frente e ir mudando sempre que se justifique. Basta atualizar o software. O problema do hardware é que é, basicamente, como na antiga economia, o que chamamos negócios queda de água. Tomamos hoje uma decisão e construímos sobre ela, sobre a seguinte e por aí fora. Se tomamos a decisão de nos focarmos num determinado pormenor, entramos na produção e, daí para a frente, só saberemos no fim de dois anos se tomámos a decisão certa ou errada. Isso é muito complicado e exige que façamos o máximo de trabalho de casa possível. Focamo-nos muito no feedback do consumidor e na sua experiência, porque, no hardware, vamos gastar dinheiro com o produtor. É bom que o valor estipulado esteja certo, as especificações, o design, porque é extremamente complexo voltar atrás com uma decisão, quando já foi dado o ok para a produção. É preciso pensar de uma forma um pouco diferente da desta nova geração. De facto, encontramos muitas empresas que partilham diferentes tipos de inovação, inclusivamente equipas. Isto acontece mesmo com os inovadores e empreendedores mais experientes e com mais idade, porque conhecem a antiga economia e como isto poderá funcionar. Acho que está a nascer uma nova tendência.

Trabalhou na Apple. O que partilha sobre o ecossistema e o que trouxe para a Brinc.io?

Trabalhei seis anos na Apple e tive a sorte de começar a colaborar com eles quanto ainda estava na faculdade. Trabalhei no departamento educacional, depois no dos pequenos e médios negócios, e depois criei o meu próprio departamento, onde ajudávamos os fundadores, investidores e empreendedores. Acho que o que trouxe, foi mesmo ao nível operacional. Aprendi lá como me tornar num extraordinário operacional. O nível de precisão que era esperado diariamente na Apple, foi uma das principais coisas que trouxe e que ainda hoje integro nas minhas empresas e portfólio. É preciso que executemos o melhor possível, porque o mundo e o mercado não querem saber da nossa ideia. Há muita gente que acaba por se tornar acomodada e, na Apple, aprendi o quão sérios e perfeitos temos de ser sempre, pelo que dou o meu melhor todos os dias.

Teve outras empresas antes da Brinc.io, umas bem-sucedidas e outras nem por isso. O que aprendeu com o falhar e vencer?

Não há problema em falhar. Aliás, acho que tem dois lados. Não é aceitável ter uma má estratégia, não devemos falhar por não termos pensado no problema. As nossas empresas de hardware metem-se muitas vezes em problemas, porque não planeiam suficientemente o longo prazo, mas tomam atitudes de software. Há muitos motivos que, mesmo tendo uma grande estratégia, uma grande equipa e investidores fantásticos, podem levá-lo a falhar: talvez o mercado não tenha funcionado ou talvez uma grande empresa tenha decidido investir na sua área de negócio, e isso é aceitável. Não é aceitável falhar por motivos que poderia ter controlado. Acho que há muita gente que diz que não quer avançar por medo de falhar. A minha primeira empresa foi um fracasso, a segunda foi vendida e fechei a terceira. Fiquei com a propriedade intelectual dessa terceira empresa, que integrei 10 anos depois num dos meus novos investimentos. Nunca sabemos o que poderá vir a acontecer, e ideias do passado poderão voltar a surgir no presente.

Qual a melhor e a pior coisa que lhe aconteceu?

A melhor coisa que me aconteceu, e que acontece periodicamente, é ver um dos meus fundadores ser bem-sucedido. Isso nunca perde valor e é altamente viciante. Uma das minhas paixões é ajudar as pessoas a perceberem como realizar os seus sonhos e levá-las a alcançá-los. Está sempre a acontecer e é por isso que faço o que faço.

Sou um obcecado com o controlo das operações e a pior coisa é, quando sinto que consigo controlar alguma coisa, perceber que não consigo. É extremamente irritante, porque me empenho sempre em reduzir drasticamente o risco. Mas o pior mesmo, para mim, é quando a equipa falha, porque as pessoas falharem é uma coisa muito pessoal e nunca queremos que alguém tenha de passar por isso, nunca é agradável.

Onde se vê daqui a 5 anos?

Continuarei definitivamente na Ásia. Mudei-me para São Francisco, onde estive 10 anos, mas foi na Ásia que aprendi que tudo muda a um ritmo frenético e que o percurso da inovação é incrível. Aprendo todos os dias e creio que o futuro está a ser criado na Ásia, pelo que iremos lá continuar. A minha esposa e eu adoramos. A cultura é tão diferente e a velocidade a que se vive tão divertida que, embora pensemos poder voltar ao Ocidente a determinada altura, não será nos próximos cinco a dez anos. A Ásia é decididamente o futuro.

A Brinc.io é um investimento pessoal ou privado?

O investimento é totalmente privado. Essa é, aliás, uma das nossas principais estratégias, que passamos também às equipas do nosso portefólio. Fazemos aquilo que ensinamos aos outros. Temos alguns investidores, mas estes não exercem o controlo sobre a empresa, são muito passivos e somos nós que controlamos a totalidade da empresa, à medida que a empresa cresce. Tudo é novo, especialmente para este tipo de empresa de IoT no hardware de conexão, pelo que não podemos escolher um determinado modelo de negócio neste preciso momento, porque, daqui a dois anos, tudo pode ser diferente. Se fizermos o investimento de determinada quantia financeira, temos de seguir esse padrão, é o que dizemos às nossas equipas. Uma das palestras que darei pela Europa é exatamente sobre isso: as empresas de hardware não devem aceitar investimento de capitais de risco, porque não sabemos o que virá durante os próximos anos e, se lhes dissermos que vamos fazer determinada coisa e depois não o conseguirmos fazer, não lhes conseguiremos pagar. Por isso, controlamos nós tudo, somos flexíveis e de mente aberta para trabalhar em qualquer área de competência, assim faça sentido para os nossos fundadores.

O que nos pode dizer sobre o ecossistema da Ásia?

A Ásia é uma loucura, no bom sentido. Quatro a cinco das maiores economias mundiais estarão na Ásia no final desta década, é algo enorme. Uma dinâmica interessante. Por exemplo, na China, quando o país persegue uma ideia, conseguem alterar a totalidade do país para a tornar numa realidade. Vejamos a questão dos pagamentos móveis. A Apple veio atrás disso, com a Apple Pay, mas eles começaram a apoiar os pagamentos pela Alipay e conseguiram disseminá-la por todo o país a uma velocidade que, no Ocidente, nunca seria possível. É uma dinâmica muito interessante, quando um país decide fazer alguma coisa contrária aos negócios mundiais.

Outra coisa de que todos falam, é do fantástico talento que há na Ásia e do seu baixo custo. Mas não se pode simplesmente contratar alguém pela internet, é preciso ir até lá, conhecê-los e falar com eles. Vemos equipas de ITC a escalarem para lá, em vez de contratarem em São Francisco. Poderem, em vez de 100 empregados em São Francisco, ter, pelo mesmo valor, 500 empregados na Ásia tão dotados como os dos EUA, ambiciosos, que trabalham mais do que provavelmente conseguiriam noutro país qualquer, faz pensar qualquer um no mundo ocidental.

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