Muitos de nós associam tecnologia a aplicativos, computadores, máquinas futurísticas e smartphones. A maioria das pessoas percebe o avanço tecnológico quando surgem anúncios de lançamento de uma versão atualizada de smartphones com uma câmara mais potente e mais espaço de armazenamento, ou então quando, por exemplo, a Intel lança uma nova geração mais rápida de processadores que a anterior.

Alguns fanáticos por tecnologia podem até possuir uma perceção um pouco mais profunda sobre avanços tecnológico, formando opiniões bem embasadas em conceitos como inteligência artificial, criptomoedas e outras tendências tecnológicas. Porém, tecnologia é um assunto raramente discutido ou debatido quando falamos sobre medicina.

Curiosamente, no entanto, o impacto que o avanço tecnológico tem gerado na medicina nos últimos anos tem sido muito maior do que em várias outras áreas das nossas vidas. Até há não muito tempo atrás, por exemplo, era simplesmente inimaginável utilizarmos espectros de laser para curar feridas quase instantaneamente, utilizarmos ondas eletromagnéticas para estourar pedras no rim, ou então realizarmos microcirurgias extremamente precisas por meio de robôs. Atualmente, isso tornou-se não apenas possível, como também comum.

Uma nova geração de hackers: biohacking

A engenharia genética tem sido aplicada a diversos setores. Apesar de organismos transgênicos ou geneticamente modificados trazerem consigo uma certa rejeição de grande parte das pessoas que os associam a comidas perigosas ou potencialmente cancerígenas, o fato é que a comida transgênica em si é 100% segura e possui mutações genéticas criadas apenas para resistir a pesticidas.

De fato, a discussão a respeito de se alimentos transgênicos são necessários para a humanidade ainda é inconclusiva, mas tudo indica que temos tido muito sucesso na manipulação de genes de plantas e animais a nosso favor. A manipulação genética em si tem potencial de se tornar uma ferramenta extremamente poderosa para criação, controle e proteção/cura em massa. Um exemplo claro disso são as evidências de que a peste negra acelerou a presença de uma determinada mutação genética numa proteína chamada CCR5 que fez com que, hoje, um em cada dez europeus seja imune ao HIV.

É lógico que este fenómeno ocorreu naturalmente ao longo de vários anos e sem interferência humana, mas queira-se ou não trata-se de uma mutação genética que, de certa forma, gerou um benefício em larga escala à humanidade. A ideia de que em algum momento cientistas teriam a capacidade de replicar esta mesma mutação artificialmente demonstra o tipo de impacto que a manipulação genética pode ter em nossa sociedade, e tudo indica que não estamos muito longe de chegarmos lá. Em outubro de 2019, em um discurso na Cambridge Union, Bill Gates seguiu este mesmo racional ao se referir à malária, indicando que “o que aprendemos nos últimos anos é que a chave para controlarmos a malária é o controle do vetor. A manipulação genética permite-nos atingir apenas os mosquitos infetados. Investir num gene que impede que estes mosquitos infetados se reproduzam daria tempo suficiente para que pudéssemos curar todas as pessoas na área de contágio. Poderíamos, então, permitir que a população de mosquitos se reestabelecesse, mas dessa vez sem a presença do parasita.”

Enquanto a manipulação genética parece ser um método extremamente promissor de se controlar diversas doenças, não devemos esquecer-nos de algumas tecnologias totalmente disruptivas que vêm sendo criadas neste campo. Em 2020, Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram premiadas com um Prémio Nobel pelo desenvolvimento do CRISPR/Cas9, um novo método criado para edição genética. Esta técnica revoluciona a edição genética por meio da utilização da combinação de uma proteína que corta DNA e uma molécula de RNA para editar determinadas sequências do DNA, permitindo que partes inteiras sejam editadas, desligadas ou rastreadas por meio de proteínas fluorescentes ligadas à cadeia genética.

Em resumo, finalmente encontramos uma forma de se editar DNA de forma precisa. Ainda assim, ainda temos muito a descobrir no campo do mapeamento genético, incluindo formas de se tornar esta atividade mais eficiente e de como se alterar determinadas partes do genoma de forma segura a fim de curarmos diversas doenças.

Apesar das recentes descobertas, a manipulação genética eficiente é totalmente dependente da interpretação genética, que por sua vez é extremamente complexa e é tida como um dos principais gargalos de uma série de avanços neste campo. Cientistas ainda dependem de processos significativamente manuais para mapearem e analisarem mutações genéticas, o que parece um tanto defasado se comparado ao progresso tecnológico de uma série de outras áreas, inclusive dentro do campo da medicina.

Com isso em mente, a Mindset Ventures investiu numa start-up que ataca justamente este problema, e cuja solução representa um grande avanço na forma como as mutações genéticas são identificadas: a Emedgene. Esta empresa tem desenvolvido uma maneira de se automatizar a interpretação genética por meio do uso de inteligência artificial, para que grandes quantidades de informações possam ser lidas automaticamente, de forma a que mutações genéticas sejam mais rapidamente identificadas. Apesar do trabalho de manipulação genética de cientistas para, por exemplo, se reduzir a letalidade do câncer e curar o HIV e uma série de outras doenças, só será possível fazer isso de forma eficiente caso saibamos quais genes que especificamente devemos editar. Para isso, a Emedgene tem demonstrado que avanços na interpretação genética são cruciais para que finalmente possamos ter total controle sobre a manipulação de genes.

A inteligência artificial tem-se tornado os novos óculos dos médicos

Apesar de a tecnologia ultrassom ter sido desenvolvida em 1939, várias décadas passaram até que as imagens se tornassem nítidas o suficiente para que a tecnologia pudesse ser amplamente utilizada para diagnósticos no campo da medicina. O ultrassom 3D, que gera imagens muito mais nítidas, foi desenvolvido apenas mais recentemente, dentro dos últimos 40 anos. A análise por meio de ultrassom depende em grande parte unicamente de imagens, e até recentemente era baseada totalmente na observação visual de anomalias e de padrões para que certas doenças fossem diagnosticadas.

Uma das empresas em que a Mindset Ventures investiu, no entanto, traz uma abordagem diferente para este tipo de análise. Ao invés de se voltar para a melhoria da qualidade das imagens, a DiA utiliza inteligência artificial para identificar certas doenças por meio da tecnologia de ultrassom já existente de forma muito mais precisa e ágil comparada aos métodos convencionais ainda utilizados. A empresa já registou diversas patentes dentro deste segmento e tem crescido significativamente nos últimos anos em função da sua relevância no setor.

Este é apenas um dos exemplos de como a inteligência artificial pode ser aplicada ao setor de saúde, sendo que o escopo de tarefas executado por este tipo de tecnologia se estende para diversas outras aplicações, desde a gestão de fluxos administrativos em hospitais até à utilização de robôs para microcirurgias. Ainda assim, estima-se que apenas 14% de médicos especialistas em imagens (em grande parte radiologistas) já têm utilizado machine learning nas suas profissões, estando 27% do total de médicos a dois ou três anos de adotarem esta tecnologia, de acordo com uma pesquisa feita pela Reaction Data.

O futuro da inteligência artificial na saúde parece muito promissor — espera-se que este mercado alcance US$6,6 bilhões em 2021, o que representa um crescimento anual médio de 40% desde 2014, de acordo com uma pesquisa da Accenture. Esta mesma pesquisa também calcula o benefício da adoção de inteligência artificial no campo da saúde para a economia americana até 2026 e estima que serão economizados mais de US$150 bilhões em gastos com a saúde até lá. Em outras palavras, parece óbvio que veremos um aumento na adoção de inteligência artificial na saúde ano após ano daqui para frente.

Utilizando estatísticas e algoritmos para se salvar vidas

O avanço tecnológico na medicina também pode ocorrer de forma indiretamente relacionada ao campo da saúde. Apesar da importância da aplicação da tecnologia em cirurgias, diagnósticos e outras tarefas, também temos notado grandes avanços tecnológicos em aplicações para gestão de fluxos operacionais e administrativos de hospitais e clínicas médicas.

Neste respeito, a KenSci, outra empresa investida pela Mindset Ventures, procura utilizar dados e estatísticas para prever quantos pacientes adoecerão e o quão doentes ficarão antes mesmo que isso aconteça, permitindo aos médicos agirem antecipadamente. A Apprentice Health é outro exemplo do nosso portefólio que aplica tecnologia à operação dos hospitais, rastreando e tornando mais eficientes os seus fluxos operacionais, consequentemente aumentando a satisfação dos pacientes e reduzindo ineficiências de alocação de recursos.

Um universo de possibilidades adiante

Quando falamos sobre tecnologia, costumamos comentar o fato de que o computador utilizado pelos astronautas na missão Apollo 11 possuía uma capacidade de processamento 100.000 vezes menor que a de um iPhone atual, mas ainda assim levou o homem até a lua. O potencial de inovação científica que possuímos com o que já temos em nossas mãos é gigantesco, inclusive para o campo da medicina. Poucos séculos atrás, na época das grandes navegações, mal sabíamos o que causava, por exemplo, o escorbuto. Hoje, possuímos um sofisticado processo de atualização de vacinas de gripe para que estejamos imunes todos os anos. Com tantas mentes brilhantes e com as tecnologias já existentes apontadas em uma única direção, o futuro da medicina parece formidável. Hoje, já possuímos um grande poderio tecnológico em nossas mãos. Agora, a questão é simplesmente o que fazer com isso.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é... Ler Mais