Criada em 1993, a Novabase Capital começou por apoiar visionários portugueses, na criação de empresas que ainda hoje consideradas chave no panorama das TIC nacionais ou que vieram a integrar os principais grupos tecnológicos nacionais.

A primeira verba aplicada pelo Fundo de Capital de Risco da tecnológica foi direcionado para a Feedzai, que atua na prevenção de fraude eletrónica e cuja taxa de crescimento anual ronda os 300%.

Em entrevista ao Link To Leaders, María Gil, administradora da Novabase Capital, admitiu que a empresa não investe em start-ups que não tenham a capacidade de escalar a sua oferta para o mercado global e traçou um retrato do ecossistema de empreendedorismo tecnológico em Portugal.

De que forma a Novabase Capital apoia as start-ups portuguesas de TIC?
A Novabase Capital sempre assumiu um papel ativo no acompanhamento e apoio das start-ups portuguesas de TIC em que investe. Por um lado, procuramos apoiar a equipa de gestão na formulação e execução da estratégia, servindo, por vezes, de ponte de ligação a potenciais clientes, fornecedores ou parceiros. Por outro lado, apoiamos a equipa nas tarefas de financiamento, nomeadamente na introdução a potenciais investidores ou na preparação de processos de fusão e aquisição. Por último, também disponibilizamos as instalações do Grupo Novabase, tanto nacionais como internacionais, sempre que necessário, e podemos inclusivamente dar apoio na evolução/estruturação de soluções tecnológicas.

Como é feito o processo de seleção das start-ups?
O processo de seleção de projetos de investimento segue os seguintes passos:
– Análise Preliminar da Oportunidade: confirmação do alinhamento com os requisitos de investimento, análise preliminar da inovação, status de desenvolvimento e tecnologia, e avaliação do mercado de atuação e do risco potencial;
– Reuniões com os Promotores: avaliação das suas competências, capacidades e experiência, determinação da sua resiliência, perante desafios e comprometimento com o projeto;
– Análise do Plano de Negócios, incluindo a caracterização do mercado de atuação, produto, curricular dos promotores e equipa de gestão, e estratégia de marketing e vendas, avaliação da viabilidade financeira do projeto, e recolha de feedback junto de clientes (atuais ou potenciais), fornecedores e/ou advisors, quando aplicável;
– Realização de Reunião interna com vista à determinação da recomendação final e proposta dos montantes a mobilizar e condições a cumprir;
– Negociação com os Promotores e apresentação de Term Sheet;
– Apresentação no Comité de Investimentos, com vista à aprovação do investimento nos montantes e condições negociadas.

Quais são os requisitos para uma start-up se candidatar aos fundos da Novabase Capital?
As start-ups elegíveis a fundos da Novabase Capital têm que:
– Estar legalmente constituídas em Portugal (Regiões NUTS II Norte, Centro, Lisboa ou Alentejo) e ter a situação tributária e contributiva regularizada perante, respetivamente, a administração fiscal e a segurança social, a verificar até ao momento da assinatura do acordo de financiamento;
– Ter a situação regularizada em matéria de reposições, no âmbito dos financiamentos dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI), e não ter promotores que detenham ou tenham detido capital acima de 50% em empresa que não tenha cumprido notificação para devolução de apoios no âmbito de uma operação apoiada por Fundos Europeus;
– Não ter encerrado a mesma atividade ou uma atividade semelhante no Espaço Económico Europeu nos dois anos que antecedem a aprovação do financiamento ou que, na altura dessa aprovação, tenha planos concretos para encerrar essa atividade no prazo máximo de dois anos, após a conclusão do plano de negócios objeto de financiamento;
– Não estar incluídas na cotação oficial de uma bolsa de valores, com exceção das plataformas de negociação alternativas, nem ser considerada “empresa em dificuldade”;
– Serem PMEs, devendo comprová-lo até à data dos financiamentos, através da Certificação Eletrónica de PME, e dedicar-se ao desenvolvimento de produtos e/ou serviços tecnológicos.

Quais são as características que a Novabase Capital procura nas start-ups?
A Novabase Capital procura start-ups que tenham uma forte componente de inovação tecnológica e/ou investigação científica disruptiva, enderecem o mercado global com uma oferta diferenciadora, contribuam para o desenvolvimento de novos produtos em setores estratégicos para Portugal e para a melhoria da produtividade, flexibilidade e capacidade de resposta das empresas ao mercado global e promovam a dinamização e o crescimento do tecido empresarial de base tecnológica nas Regiões NUTS II Norte, Centro, Lisboa e/ou Alentejo.

Além disso, devem apostar em tecnologias da 3ª Plataforma de Inovação e Crescimento da IDC – Cloud, Mobilidade, Big Data e Negócios Sociais, e desenvolver projetos Business-to-Business (B2B) de suporte à modernização e desenvolvimento dos setores de Telecomunicações, TIC, Financeiro ou Transportes.

É determinante para o processo de seleção de uma start-up ter um produto ou serviço global, ou seja, exportáveis ou escaláveis?

Um dos critérios cruciais na seleção de start-ups passa pela sua capacidade de endereçar o mercado global com uma oferta diferenciadora. A Novabase Capital não investe em start-ups que não tenham a capacidade de escalar a sua oferta para o mercado global.

Qual a taxa de sobrevivência das start-ups apoiadas pela Novabase Capital?
A taxa de sobrevivência é de 95%. Se considerarmos as empresas participadas por fundos geridos pela Novabase Capital, tivemos apenas uma empresa desinvestida, no seguimento da sua dissolução, de entre um total de 17 participações.

Casos de sucesso que a Novabase Capital já apoiou …
Podemos dar o exemplo da Feedzai, empresa em que fomos coinvestidores. A Feedzai analisa transações de 3 mil milhões de dólares diariamente e a taxa de crescimento anual ronda 300% desde 2013. No ano passado, faturou mais de 20 milhões de dólares (18 milhões de euros), somando 26,13 milhões de dólares (23,23 milhões de euros) em investimento de capital de risco.

Fale-nos dos três Fundos de Capital de Risco da Novabase Capital e dos resultados alcançados até agora.
O FCR Novabase Capital foi constituído em 2005, tem uma dotação de 7,14 milhões de Euros e investiu em participações minoritárias em PME sedeadas em Portugal e com forte base tecnológica. O FCR tem uma duração prevista até 2017 e é participado em 30% pela Novabase Capital e em 70% pelo IAPMEI, através do Programa PRIME e com cofinanciamento da União Europeia, via FEDER. O FCR já foi integralmente investido e, atualmente, conta com 3 empresas participadas, tendo 6 já sido alienadas.

O FCR Novabase Capital Inovação e Internacionalização foi constituído em 2011, tem um total de 11,36 milhões de Euros, dividido em duas dotações autónomas:

– Dotação A, dedicada à Região de Lisboa e a projetos na fase Early Stage, com uma dotação de 1,26 milhões de Euros, sendo 500 mil Euros comparticipada pelo FINOVA – Fundo de Apoio ao Financiamento à Inovação – através do Programa POR Lisboa, e o remanescente pela Novabase Capital;
– Dotação B, destinada a projetos de inovação, modernização e internacionalização de PME de base tecnológica das Regiões Norte, Centro e Alentejo, com uma dotação de 10,1 milhões de Euros, sendo comparticipada em 5 milhões de Euros pelo FINOVA, através do Programa COMPETE, e 5,1 milhões de Euros pela Novabase Capital.

Ambos os Programas encontram-se integrados no QREN e são cofinanciados pela União Europeia, via FEDER. O FCR tem uma duração prevista até 2021 e conta atualmente com 9 participações, tendo já sido realizado 1 desinvestimento.

O FCR IStart I, de 2,65 milhões de Euros, visa o investimento em projetos empresariais de base tecnológica, preferencialmente em fase Pré-Seed e promovidos prioritariamente por professores, investigadores e/ou alunos do Instituto Superior Técnico ou de outras instituições universitárias e/ou de investigação. O FCR é gerido pela ES Ventures – Sociedade de Capital de Risco, SA, tem duração prevista até 2021 e conta com uma participação de 300 mil Euros por parte da Novabase Capital.

Quantas empresas conta atualmente o Fundo de Capital de Risco Novabase Capital Inovação e Internacionalização?

O Fundo de Capital de Risco Novabase Capital Inovação e Internacionalização conta atualmente com 9 empresas participadas.

A Novabase Capital investiu na Feedzai. Em que fase se encontra esta “parceria”?
Enquanto primeiro investidor, a Novabase Capital teve uma participação bastante ativa nos primeiros passos da Feedzai. Após a entrada de novos investidores, deixou de existir uma necessidade de intervenção tão ativa, sendo que, atualmente, a nossa relação é essencialmente financeira. Não obstante, convém destacar o apoio importante dos novos investidores, em particular investidores especializados de later stage sedeados nos Estados Unidos, nesta nova fase de crescimento da Feedzai.

Dicas para as empresas que querem atrair investimento de um Fundo de Capital de Risco.
Infelizmente, muitos empreendedores decidem investir o seu tempo no desenvolvimento de um produto ou serviço com base numa ideia que tiveram, procurando depois convencer os seus potenciais clientes a comprar.

Nós acreditamos que a ordem deve ser invertida: antes de começar a desenvolver um produto, os promotores devem procurar ouvir os seus potenciais clientes, identificando as suas necessidades e construindo, em conjunto, uma solução de valor acrescentado.

Esta aposta no “customer development” deve ser consubstanciada por uma análise da dimensão do mercado e da concorrência. Mais do que procurar uma solução para a qual não existe concorrência, o que inclusivamente pode ser indicador de que a solução não tem viabilidade económica, os promotores devem estudar aprofundadamente o que já foi feito e procurar uma abordagem mais eficaz ou até complementar com o que já existe.

Dotados deste conhecimento, os promotores devem iniciar o desenvolvimento, procurando envolver os potenciais clientes no processo e medindo todos os resultados obtidos. Só é possível atingir uma prova de conceito válida, quando a equipa de promotores é coesa e complementar, e revela ambição e perseverança, procurando falhar rápido e identificar formas inovadoras de contornar obstáculos.

Esta abordagem, junta com a vontade e ambição de fazer sempre mais e melhor, será muito útil para criar um negócio de sucesso e, naturalmente, atrair o investimento de um Fundo de Capital de Risco.

Como caracteriza o ecossistema de start-ups em Portugal?
Ao longo dos últimos cinco anos, tem-se verificado uma evolução favorável no empreendedorismo nacional, em parte devido à crise económica que incutiu a necessidade de empreender e arriscar e, por outra parte, devido aos seguintes fatores:

– Políticas Governamentais favoráveis a PME (p.e. iniciativas do Startup Portugal);
– Proliferação de Incubadoras e Aceleradoras, que têm procurado absorver as melhores práticas internacionais e reforçar a sua ligação com o mercado, investidores e programas internacionais de incubação e aceleração;
– Maior ligação das Universidades ao mercado, seja através da difusão de Clubes de Empreendedorismo, seja pelo reforço da ligação com entidades e universidades internacionais (p.e. ISCTE-IUL MIT Portugal). No entanto, Portugal ainda possui uma ligação incipiente entre a investigação científica e a inovação, sendo o I&D financiado pela indústria um dos mais baixos na Europa;
– Mudança gradual do paradigma face ao empreendedorismo, à tomada de risco e ao consumo de produtos e serviços inovadores. Não obstante, Portugal tem ainda uma cultura coletivista, de confiança limitada e pouco orientada para resultados, o que conduz à ausência de sinergias entre os diversos atores internos no ecossistema e limita a competitividade do país;
– Consciencialização de que os Business Angels são intervenientes indispensáveis nas fases de financiamento menos atrativas para as Sociedades de Capital de Risco, e crescente colaboração com entidades governamentais, através de programas de apoio e de coinvestimento (p.e. Call for Entrepreneurship da Portugal Ventures);
– Crescente participação de Sociedades de Capital de Risco internacionais, alimentada pelo aumento do número de empresas promissoras, assim como pela exposição mundial do ecossistema de empreendedorismo nacional e desempenho das empresas portuguesas em concursos internacionais de empreendedorismo. Porém, verifica-se ainda uma necessidade de maior sofisticação e especialização das Sociedades de Capital de Risco nacionais (“smart money”).

Considera que Portugal reúne as condições necessárias para a criação e fixação de negócios da nova economia digital?

Sim. Para além dos fatores positivos mencionados acima, que tornam o ecossistema nacional mais atrativo à criação e fixação de negócios, convém acrescentar que Portugal conta com capital humano informático altamente qualificado e uma rede de infraestrutura tecnológica avançada. Talvez ainda haja alguns desafios no enquadramento fiscal e legal deste sector.

Portugal está a ganhar visibilidade, junto dos investidores mais atentos, como um excelente ecossistema para o empreendedorismo tecnológico. O que ainda falta fazer?
Contamos com várias empresas de origem portuguesa que estão a atingir valorizações bastante atrativas e a contribuir para aumentar a visibilidade de Portugal, enquanto destino de empreendedorismo. Os resultados atingidos até hoje são encorajadores, mas ainda indiciam um caminho a percorrer.

A título de exemplo, o Web Summit Lisboa é uma excelente oportunidade para promover uma transferência de conhecimento e para colocar as empresas portuguesas no radar dos VCs internacionais.

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