Entrevista/ “Sem capital de risco muitos dos novos medicamentos das últimas décadas nunca teriam sido criados”

Ricardo Perdigão Henriques, CEO da Bionova Capital*

Para o CEO da Bionova Capital e Managing Partner da Biovance Capital, nos últimos anos tem-se criado um ciclo muito positivo entre o capital de risco e a criação de novas terapias médicas. Em entrevista ao Link to Leaders Ricardo Perdigão Henriques, defende que “é necessário que os investidores também ajudem a criar valor nas empresas onde investem”.

Criada há nove anos, a Bionova Capital desde sempre que centrou seu core business na área da saúde, concretamente dos dispositivos médicos, da saúde digital e da biotecnologia. No total, já investiram em sete start-ups por toda a Europa, no Reino Unido, Espanha e Portugal, explicou Ricardo Perdigão Henriques, CEO da Bionova Capital e Managing Partner da Biovance Capital, ao Link to Leaders. Destaca o recente negócio entre a sua participada CellmAbs e a farmacêutica alemã BioNTech que pode ultrapassar a barreira dos mil milhões de euros.

Deixa uma novidade no ar:  “toda a equipa da Bionova Capital transitará em breve para a Biovance Capital Partners, uma nova sociedade de capital de risco criada pela nossa equipa para gerir um novo fundo de biotecnologia até 60 milhões de euros, o Biovance Capital Fund I”.

O vosso plano inicial era investir em start-ups de biotecnologia em Portugal e na Europa e, dessa forma, acelerar as fases iniciais do desenvolvimento de novos medicamentos para a saúde humana. Nove anos depois essa missão está na rota certa?
Claramente. A Bionova Capital foi criada em 2015 para investir em start-ups da área da saúde em Portugal e no resto da Europa, tendo-se inicialmente focado em empresas do setor dos dispositivos médicos e da saúde digital. No entanto, com a minha chegada em 2019, alargámos a estratégia de investimento e passámos a incluir também empresas do setor da biotecnologia e assim apoiar o desenvolvimento de novos medicamentos mais eficazes.

Em quantas start-ups já investiram?
No total já investimos em sete start-ups por toda a Europa, no Reino Unido, Espanha e Portugal, que operam nos mais variados setores da saúde, incluindo biotecnologia, dispositivos médicos e saúde digital.

“Esta é uma missão que nos anima profundamente e que vai muito para além do simples retorno financeiro”.

Qual a operação em que mais se orgulham de ter estado envolvidos?
Temos tido uma enorme satisfação e orgulho com todos os nossos investimentos pois todos têm o nobre objetivo de trazer novas tecnologias médicas para milhões de pessoas que desesperadamente as necessitam. Esta é uma missão que nos anima profundamente e que vai muito para além do simples retorno financeiro. Nesse sentido, tem sido um enorme privilégio ter vindo a apoiar empreendedores por toda a Europa no desenvolvimento de novos produtos médicos. Veja-se, por exemplo, o recente negócio entre a nossa participada CellmAbs e a farmacêutica alemã BioNTech que pode ultrapassar a barreira dos mil milhões de euros e que, se tudo correr bem, irá permitir tratar tumores sólidos com mais eficácia e menos efeitos secundários.

Como vê o papel da Bionova Capital na criação de valor científico, financeiro…. na economia portuguesa?
Mesmo sendo um investidor de pequena dimensão, temos tido nos últimos nove anos um papel crítico no desenvolvimento do nosso ecossistema de bioempreendedorismo. Por exemplo, o nosso investimento permitiu a criação em Portugal de quatro novas empresas tecnológicas que geraram emprego para dezenas de quadros altamente qualificados. Além disso, à medida que estas empresas vão crescendo, poderão vir a gerar importantes mais-valias para o país muito para além do retorno financeiro imediato.

O já referido acordo entre a CellmAbs e a BioNTech ajudará certamente a trazer maior visibilidade internacional para o nosso setor e contribuirá para que no futuro os investidores internacionais e farmacêuticas olhem com maior atenção para o nosso ecossistema. Além disso, temos contribuído ativamente com outro tipo de iniciativas, por exemplo, com a organização da Lisbon Investor Conference em 2019, que permitiu a várias start-ups portuguesas estabelecerem pela primeira vez contato com 11 dos maiores investidores internacionais na área da saúde, tendo sido até ao momento a maior conferência de investimento nesta área em Portugal.

“(…) gostaria de salientar (…) o alto grau de especialização técnica das equipas de investimento internacionais”.

É frequente a Bionova estar envolvida em rondas internacionais, com investidores. Que diferenças encontra face a Portugal? Arriscam mais?
Há várias diferenças, mas gostaria de salientar uma que normalmente passa despercebida que é o alto grau de especialização técnica das equipas de investimento internacionais. Principalmente no setor da saúde, estes investidores internacionais têm equipas altamente especializadas com médicos e cientistas, que entendem profundamente as tecnologias onde investem e são capazes de fazer contribuições valiosas para o desenvolvimento das mesmas. Isto é algo que em Portugal ainda não é muito comum onde muitas vezes os investidores têm um perfil puramente financeiro sem um conhecimento técnico profundo da área onde investem.

“(…) a CellmAbs foi o primeiro investimento que a Bionova Capital fez na área da biotecnologia e é, até ao momento, o melhor negócio do nosso portefólio”.

Recentemente fizeram um exit com a CellmAbs, comprada pela BioNTech. Como olha para este negócio?
É um negócio que nos orgulha bastante porque a CellmAbs foi o primeiro investimento que a Bionova Capital fez na área da biotecnologia e é, até ao momento, o melhor negócio do nosso portefólio. Mas mais que o retorno, ficamos contentes por ter apoiado uma start-up com um nível científico muito elevado, ao nível do melhor que existe. Pessoalmente, foi muito gratificante ter acompanhado e contribuído para o sucesso da CellmAbs como investidor e membro do seu Conselho de Administração. Tendo o meu doutoramento também sido na área da oncologia, muitas vezes as nossas reuniões de Conselho de Administração eram passadas a planear experiências e a discutir os detalhes técnicos do projeto, um modus operandi pouco habitual em Portugal, mas muito comum em ecossistemas mais desenvolvidos.

(…) toda a equipa da Bionova Capital transitará em breve para a Biovance Capital Partners (…) “.

Qual é atualmente o portefólio da Bionova Capital e quais as perspetivas de o reforçar?
O nosso portefólio atual conta com quatro empresas, a SolasCure, no Reino Unido, e a Vaxdyn, em Espanha que estão a desenvolver novos medicamentos, e a Adapttech, no Reino Unido, e a Delox, em Portugal que estão a desenvolver novos dispositivos médicos. Os nossos acionistas estão satisfeitos com o portefólio atual e não existem planos de o reforçar pois toda a equipa da Bionova Capital transitará em breve para a Biovance Capital Partners, uma nova sociedade de capital de risco criada pela nossa equipa para gerir um novo fundo de biotecnologia até 60 milhões de euros, o Biovance Capital Fund I.

No ano passado criaram exatamente a Biovance Capital Partners para gerir o Biovance Capital Fund I. Como está a correr essa nova aposta?
Está a correr muito bem. Conseguimos o apoio de investidores públicos de relevo como o Fundo Europeu de Investimento, a Comissão Europeia, o Banco Português de Fomento, e também de investidores privados como a Caixa Capital e outros nos EUA e Europa. Estamos neste momento a completar o processo de registo junto da CMVM e esperamos arrancar em breve.

(…) estas start-ups têm muita dificuldade em encontrar investidores especializados que são essenciais ao seu desenvolvimento (…)”.

Globalmente, qual será o papel da Biovance uma vez que terá um âmbito geográfico internacional?
A Biovance investirá em empresas de biotecnologia na fase inicial por toda a Europa, em rondas seed e Série A com montantes entre 1,5 e 6 milhões de euros. Investiremos no desenvolvimento inicial de novos medicamentos, em áreas terapêuticas prioritárias como a oncologia, imunologia, neurologia, entre outras. A Europa tem excelentes start-ups nestas áreas que podem gerar elevados retornos para os seus investidores, no entanto estas start-ups têm muita dificuldade em encontrar investidores especializados que são essenciais ao seu desenvolvimento já que, como referido, o capital não é o fator principal nesta área. É necessário que os investidores também ajudem a criar valor nas empresas onde investem.

“(…) sem capital de risco muitos dos novos medicamentos das últimas décadas nunca teriam sido criados (…)”

A investigação científica nas áreas da saúde e da biotecnologia estaria na fase positiva em que está hoje se não fossem as sociedades de capital de risco?
A investigação biomédica tem beneficiado muito do capital de risco, principalmente a investigação biomédica aplicada. A investigação biomédica dita básica, ou seja, aquela que gera conhecimento fundamental sobre uma determinada doença, é tipicamente feita pelas universidades e institutos de investigação e é maioritariamente financiada por fundos públicos. No entanto, a etapa seguinte de investigação aplicada em que o conhecimento básico é usado para encontrar novos tratamentos, é na sua maioria desenvolvida dentro de empresas que muitas vezes tem o capital de risco como principal fonte de financiamento.

Por isso, sem capital de risco muitos dos novos medicamentos das últimas décadas nunca teriam sido criados. Apesar do enorme risco envolvido, a indústria de capital de risco na área da saúde tem gerado elevados retornos porque as empresas farmacêuticas estão dispostas a pagar elevadíssimas quantias por potenciais novos medicamentos, mesmo quando ainda estão nas fases iniciais de desenvolvimento. Por isso, tem-se criado nos últimos anos um ciclo muito positivo entre o capital de risco e a criação de novas terapias médicas. Aliás, hoje em dia a maioria dos novos medicamentos já não são criados pelas grandes empresas farmacêuticas como antigamente. Muitos dos novos terapêuticos têm hoje origem em pequenas start-ups de biotecnologia que fazem o desenvolvimento inicial dos mesmos e depois transferem-nos para as grandes farmacêuticas que completam o seu desenvolvimento e os comercializam. É claramente um novo paradigma.

“Se houvesse um nível adequado de investimento público e privado poderíamos estar num patamar bastante superior e assim conseguir reter mais talento nacional”.

O mercado nacional está mesmo bem posicionado para se tornar um hub tecnológico, como muitos referem, ou esse é apenas um discurso retórico?
Falando do setor do bioempreendedorismo que conheço bem, posso dizer que o mesmo tem evoluído positivamente como resultado de vários bons ingredientes que temos no nosso país, como a ciência de excelência, o fato de muitos dos nossos estudantes de doutoramento irem fazer investigação para universidades estrangeiras de renome e depois trazerem todo esse know how de volta, as várias colaborações internacionais que os nossos cientistas têm estabelecido, além de outros.

Muito se tem feito no nosso país apesar do grave problema de subfinanciamento crónico da ciência. Se houvesse um nível adequado de investimento público e privado poderíamos estar num patamar bastante superior e assim conseguir reter mais talento nacional. Mesmo assim, têm surgido bons casos de sucesso totalmente feitos em Portugal. Por exemplo, a venda da Lymphact à empresa de biotecnologia inglesa GammaDelta Therapeutics, a aquisição da GenIbet pela farmacêutica multinacional sueca Recipharm, o recente negócio entre a CellmAbs e a farmacêutica alemã BioNTech, entre outros. São exemplos claros que mostram que há muito potencial no nosso ecossistema científico, mas só com o aumento do investimento público e privado é que o mesmo poderá florescer e originar ainda mais casos de sucesso e tornar-se num verdadeiro hub à escala global.

* e Managing Partner da Biovance Capital

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