A Mindset Ventures está prestes a angariar 50 milhões de dólares (83 milhões de euros) para o seu terceiro fundo. Em entrevista ao Link To Leaders, o cofundador da empresa de capital de risco brasileira fala do investimento realizado nas 45 start-ups em estágio inicial e da expansão geográfica das suas atividades, que até agora se centram nos EUA e em Israel, para a Europa.

A empresa de capital de risco é conhecida pela sua atuação internacional. Fundada em 2016 por Daniel Ibri e Camila Folkmann, reúne investimentos de CEO e family offices brasileiros que querem investir em negócios promissores nos Estados Unidos e em Israel, dois dos maiores polos de start-ups do mundo.

A Mindset Ventures conta hoje com escritórios em São Paulo, Califórnia e Tel-Aviv, já investiu em 45 start-ups early stage com negócios baseados em software e modelo B2B, e prepara-se para encerrar a captação de 50 milhões de dólares (83 milhões de euros) para o seu terceiro fundo.

“Por enquanto investimos apenas Estados Unidos e Israel, mas estamos a avaliar expansão geográfica das nossas atividades para os próximos fundos e anos. Estamos a olhar muito para o mercado europeu, principalmente Reino Unido, Alemanha, Suécia e Portugal. Esses países tem uma atividade empreendedora crescente e muito relevante mundialmente, além da qualidade incrível de talentos”, revelou Daniel Ibri, cofundador da Mindset Ventures.

Como surgiu a Mindset Ventures?
A Mindset Ventures surgiu em 2016, após eu e Camila Folkmann, a minha sócia, percebermos que não existia uma forma organizada e acessível para que investidores brasileiros investissem em start-ups de tecnologia em ecossistemas mais maduros, como os Estados Unidos e Israel. Percebemos também, após anos de experiência no mercado e a nossa vivência anterior na Acelera Partners, que as start-ups internacionais tinham muito interesse no mercado brasileiro, mas muitas dificuldades em encontrar as conexões corretas, entender o ambiente legal e até mesmo o idioma.

Criámos a Mindset Ventures para ser a primeira gestora de venture capital brasileira com foco totalmente internacional, procurando inicialmente ligar o ecossistema de investidores brasileiros aos melhores empreendedores dos Estados Unidos e Israel. Ao longo dos anos, a Mindset cresceu e tornou-se numa referência no Brasil para investimentos em start-ups internacionais, e hoje já contamos com escritórios em São Paulo, Califórnia e Tel-Aviv.

” O nosso foco são start-ups com sede nos Estados Unidos ou Israel, com negócios baseados em software e modelo B2B, em estágio inicial (normalmente Series-A)”.

Quantos investimentos tem neste momento a Mindset Ventures e qual o vosso foco?
A Mindset Ventures já investiu em aproximadamente 45 start-ups desde o início, sendo que mais de 10 já estão a operar no mercado brasileiro. O nosso foco são start-ups com sede nos Estados Unidos ou Israel, com negócios baseados em software e modelo B2B, em estágio inicial (normalmente Series-A).

Investem apenas nos EUA e Israel. Faz parte da estratégia da Mindset Ventures investir noutros países? Quais os que estão na mira?
Por enquanto investimentos apenas Estados Unidos e Israel, mas estamos a avaliar expansão geográfica das nossas atividades para os próximos fundos e anos. Estamos a olhar muito para o mercado europeu, principalmente Reino Unido, Alemanha, Suécia e Portugal. Esses países tem uma atividade empreendedora crescente e muito relevante mundialmente, além da qualidade incrível de talentos.

O que mais difere o mercado norte-americano e o israelita do mercado de start-ups brasileiras?
Os mercados americano e israelita são proporcionalmente maiores e mais consolidados no número de novas start-ups, assim como o volume de venture capital investido todos os anos. São mercados bastante dinâmicos e com alta liquidez (volume de M&A e IPO). Além disso, as tecnologias desenvolvidas, principalmente em Israel, são muito mais avançadas e muitas vezes resultantes de pesquisas que geraram patentes ou mesmo utilizações militares.

O ecossistema brasileiro também cresceu muito e tem apresentado excelentes resultados todos os anos. Porém possui menos start-ups que criam inovações tecnológicas e muito mais baseadas em novos modelos de negócio, nova forma de atender o consumidor, etc. Na Mindset Ventures, damos muita ênfase ao diferencial tecnológico e como isso pode gerar uma barreira de entrada para outros players. De qualquer forma, estamos bastante confiantes no Brasil e animados com o movimento crescente do ecossistema local, com grandes casos de sucesso se consolidando.

Conhece o ecossistema de start-ups portuguesas?
Conheço. Fui mentor do programa Lisbon Challenge e gosto muito do trabalho da Beta-i. Estive também no Lisbon Investment Summit há alguns anos e fiquei muito impressionado com a qualidade e quantidade de empreendedores em Portugal. Certamente um ecossistema que ainda vai se desenvolver muito nos próximos anos e merece atenção.

O que é preponderante para que invistam numa start-up?
A nossa análise é bastante profunda, mas os critérios principais sempre são a equipa de fundadores (experiência, formação, reputação, etc.), a dimensão e tendência do mercado, e o diferencial tecnológico da tecnologia que foi desenvolvida.

“Estamos animados com várias, mas a que tem destaque é a Brex, uma fintech baseada nos Estados Unidos que é unicórnio e está atualmente avaliada em cerca de 3 mil milhões de dólares [2 mil milhões de euros]”.

Neste momento qual é a start-up mais promissora do vosso portefólio?
Estamos animados com várias, mas a que tem destaque é a Brex, uma fintech baseada nos Estados Unidos que é unicórnio e está atualmente avaliada em cerca de 3 mil milhões de dólares [2 mil milhões de euros]. A empresa está a ir muito bem e foi criada por dois brasileiros, os quais conheço há muitos anos – invest na start-up que criaram anteriormente. Sou um grande fã do trabalho que desenvolvem e tenho certeza de que ainda terão muito sucesso pela frente.

A Mindset Ventures levantou recentemente 45 milhões de dólares para o seu terceiro fundo de investimento, o Fund III. Em que é que consiste este fundo e qual o vosso objetivo?
O Fund III tem um target de 50 milhões de dólares [41 milhões de euros], dos quais 45 [37 milhões de euros] já foram captados. O fundo mantém a mesma tese que temos até agora: start-ups de software B2B baseadas nos Estados Unidos e Israel, normalmente no estágio de Series-A. O fundo começou a operar no início de 2020, após seu primeiro closing, e já fizemos 7 investimentos no ano passado. O portefólio está a ir muito bem, com destaque especial para a Turing que cresceu exponencialmente ao longo de 2020 e já captou uma nova ronda posterior à nossa entrada.

Qual tem sido o impacto da Covid-19 no processo de captação de recursos por parte dos empreendedores?
Alguns meses de 2020 foram muito difíceis para os empreendedores captarem recursos, pois vários fundos resolveram não fazer novos investimentos, principalmente entre março e agosto. Porém, os últimos meses do ano foram extremamente aquecidos e a atividade de venture capital acelerou, batendo recordes históricos em diversos países (como Brasil e Estados Unidos). O mercado está bastante aquecido e os fundos capitalizaram-se muito. O momento é muito positivo para quem vai captar investimento em 2021.

Dos projetos nos quais esteve envolvido ou a que está ligado, qual deles lhe dá mais dores de cabeça e o que mais o preocupa?
Os projetos mais difíceis são sempre aqueles que viram zombies. São as empresas que não vão mal o suficiente para desistirmos e encerrarmos a operação, mas também não vão bem o suficiente para crescer de forma acelerada e captar novas rondas de financiamento. É muito difícil lidar com zombies, pois há sempre um conflito natural com os empreendedores que, muitas vezes, querem manter o negócio vivo como lifestyle mesmo sem possibilidade de retorno no futuro.

É muito importante saber quanto tempo dedicar a esses casos, pois você pode facilmente transformar-se num matador de zombies, esquecendo todo o resto da atividade e empresas que geram muito mais valor.

“O nosso objetivo de curto prazo é encerrar a angariação do Fund III até o final de março, atingindo a nossa meta de 50 milhões de dólares [41 milhões de euros] e realizar mais 6 a 8 investimentos ao longo deste ano. Devemos anunciar o próximo deal já nas próximas semanas”.

Quais são as estratégias da Mindset Ventures para os próximos meses?
O nosso objetivo de curto prazo é encerrar a angariação do Fund III até o final de março, atingindo a nossa meta de 50 milhões de dólares [41 milhões de euros], e realizar mais 6 a 8 investimentos ao longo deste ano. Devemos anunciar o próximo deal já nas próximas semanas.

A que países devem os business angels e os venture capitalists estar mais atentos face às oportunidades de negócios que representam nos próximos meses?
Vários países possuem oportunidades interessantes. Para quem está a começar, acho que é mais fácil entrar em ecossistemas ainda mais emergentes e menos disputados, como alguns países da Europa que falei anteriormente e mesmo América Latina. Os Estados Unidos ainda representam os maiores volumes de capital, mas são um mercado extremamente competitivo e com valuations altos. Portanto, o acesso e reputação fazem muita diferença.

O que o levou a entrar na atividade de venture capitalist?
Comecei por dar mentoria a start-ups e a fazer investimentos anjo em 2009 e rapidamente fiquei muito interessado nesta atividade, largando a minha carreira anterior de consultor de empresas. Passei a dedicar-me totalmente ao venture capital, realizando também diversas mentorias e dando aulas em universidades do Brasil. Gosto muito de estar próximo dos empreendedores e apoiá-los na superação dos desafios e construção de grandes negócios. O venture capital não é um negócio para todos, pois envolve altos riscos e um prazo de dedicação muito longo, mas garanto que pode trazer ótimos retornos, tanto pessoais como financeiros.

Quais são as maiores necessidades de uma start-up, além de investimento, é claro, neste momento difícil?
Ajuda para pensar estratégia, escalar o negócio, abrir as portas a potenciais clientes e parceiros estratégicos. É algo em que procuramos sempre apoiar os empreendedores nos quais investimos. A atividade empreendedora também é muito desafiadora e feita de altos e baixos. Estar próximo dos empreendedores e apoiar o seu desenvolvimento nos momentos difíceis também faz muita diferença.

Respostas rápidas:
O maior risco: Perda de credibilidade e reputação.
O maior erro: Demora para tomar decisões difíceis no momento em que eram necessárias.
A maior lição: As pessoas e a cultura fazem toda a diferença em qualquer negócio.
A maior conquista: Construir a Mindset Ventures como empresa reconhecida no seu setor e como excelente local de trabalho para os seus colaboradores.

Comentários