Depois do notável crescimento dos últimos anos, os principais setores da fileira moda – o têxtil e vestuário e o calçado – têm novos e complexos desafios pela frente.

Ao atual contexto de desaceleração da economia mundial (e consequentemente da procura externa) somam-se o peso dos fatores imateriais de competitividade (inovação, transformação digital, diferenciação, criatividade…) e a evolução do perfil dos consumidores, circunstâncias que obrigam os setores em causa a nova demonstração de resiliência e capacidade de reinvenção.

A partir dos anos 90, o têxtil e vestuário e o calçado tiveram de enfrentar a liberalização do comércio internacional, o que motivou uma reconfiguração do perfil industrial dos dois setores. As empresas da fileira passaram a apostar na qualidade de produção, na capacidade de resposta e na inovação tecnológica, bem como num design mais cuidado e consentâneo com as tendências da moda. E os resultados superaram largamente as expectativas: os dois setores bateram recordes consecutivos de exportação, aumentaram o valor acrescentado e apresentam hoje o maior potencial de empregabilidade do país.

Agora, há que prosseguir o esforço feito em fatores de competitividade como a tecnologia, o design, o branding, a inovação e o serviço ao cliente e, ao mesmo tempo, apostar em modelos de desenvolvimento mais sustentáveis. Isto passa por minimizar o impacto ambiental das atividades industriais da fileira, designadamente reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis, apostando em fontes de energia renováveis, melhorando a eficiência energética, racionalizando o uso de recursos naturais, diminuindo e reaproveitando resíduos, evitando a utilização de produtos químicos, adotando tecnologias menos poluentes e privilegiando materiais com menor pegada ecológica.

Aliás, a fileira moda portuguesa tem vindo a investir na gestão ambiental da sua cadeia de produção, havendo já muitas empresas do setor a transformar resíduos em materiais e a usá-los nas suas confeções. Além disso, estão a posicionar as suas marcas em segmentos de maior valor acrescentado, afastando-se assim da cultura fast fashion. Produtos mais baratos e de menor qualidade são um convite ao consumo massivo, que é responsável pela elevada rotatividade das peças de vestuário/calçado e consequente custo ambiental da moda.

A indústria da moda tem efetivamente um impacto ambiental considerável, que urge mitigar para combater as alterações climáticas, mas também porque a sustentabilidade permite reduzir os custos de produção e adequar a oferta ao novo perfil dos consumidores. De facto, a economia circular (redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia) possibilita um decréscimo significativo das despesas de fabrico e a amortização do investimento feito em materiais desperdiçados. Por outro lado, os consumidores são cada vez mais sensíveis às questões ambientais e, por isso, tendem a orientar as suas compras para produtos com menor pegada ecológica.

Neste sentido, a sustentabilidade é também uma oportunidade para as marcas da fileira moda se diferenciarem da concorrência, transmitindo aos consumidores valores que estes hoje muito prezam, como a responsabilidade, a equidade e a transparência. De resto, a promoção da sustentabilidade na moda depende bastante do comportamento dos consumidores. A adoção de padrões de consumo mais inteligentes – que privilegiem a qualidade, a diferença e a durabilidade em detrimento da quantidade e da novidade – vai, naturalmente, incentivar a produção sustentável.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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José Pedro Freitas é presidente da ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários desde abril de 2019, tendo sido vice-presidente desde janeiro de 2017 e integrado os órgãos sociais da Associação, mais concretamente o Conselho Fiscal, nos mandatos eleitorais precedentes (2009-2013; 2013-2017).... Ler Mais