Uma das piores ideias que posso imaginar é uma escola de gestão colocar nas suas instalações um supermercado automático sem pessoas a trabalhar na caixas e com o objetivo de ser um laboratório para desenvolvimento de produtos. Um supermercado deste tipo transmite duas ideias perigosas numa organização que está a formar os líderes do futuro.

A primeira ideia perigosa é que os colaboradores são um empecilho que deve ser removido sempre que possível. Não acrescentam valor nenhum. O pressuposto da automação é que se uma máquina consegue fazer as mesmas tarefas de uma pessoa a um custo mais baixo, então deve ser a máquina a fazer essas tarefas e não uma pessoa. Isto é uma perspetiva extremamente limitada do contributo das pessoas para a empresa em que trabalham.

Desde o movimento da qualidade total no início da década de 1980 que sabemos que os colaboradores são fontes de ideias e agentes de mudança. Há quatro décadas de estudos científicos e de livrinhos de aeroporto que documentam várias inovações que foram desenvolvidas pelos trabalhadores. É por isso que uma das coisas que se ensina em todas as cadeiras de inovação e estratégia é a importância de se assegurar que os colaboradores estão motivados para contribuir para a empresa para além das tarefas do seu dia a dia de trabalho.

Depois há o problema da ética nas empresas. Hoje em dia é dolorosamente claro que não podemos contar apenas com a formação ética dos líderes para garantir que as empresas se comportam de acordo com as mais elementares normas de integridade. São os colaboradores das empresas que podem tornar públicos e punir os comportamentos não-éticos das empresas. Neste último ano, os colaboradores da Google deram várias vezes o exemplo do importante papel que os colaboradores têm neste âmbito.

A segunda ideia perigosa não está relacionada com o valor dos colaboradores, mas sim com o valor dos clientes. Um dos grandes debates do marketing e desenvolvimento de produtos hoje em dia é a apropriação de dados dos consumidores. O Facebook é o melhor exemplo disto.

Posto de forma simples, o Facebook ganha dinheiro vendendo os dados dos utilizadores que obtém a um custo marginal de zero. Claro que tem custos de infraestrutura, mas o custo de cada novo utilizador é muito próximo de zero. Mas o Facebook pelo menos presta um serviço gratuito de rede social online. Um supermercado automático piloto para fazer pesquisa e desenvolvimento está a apropriar-se dos alunos como cobaias. Pode não ser ilegal, mas há uma discussão ética muito séria sobre o assunto. Há mesmo alguns tecnólogos que argumentam que as pessoas deviam ser pagas pelos seus dados.

Que líderes é que formariam uma escola de gestão em que os empregados são vistos como empecilhos e que os clientes são vistos como cobaias gratuitas?

Não sei. Sei é que provavelmente seriam líderes que olham para as pessoas como um número numa folha de cálculo. Um número que ou é para reduzir ou é para traduzir em faturação.

Nota: Caros leitores, criei uma mini-newsletter semanal com quatro links cheios de inspiração e curiosidade. Subscrevam aqui

Comentários

Sobre o autor

Avatar

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais