Jim Stolze, fundador da Aigency e líder da SingularityU Holanda, esteve em Portugal para o Building the Future. Numa conversa com o Link To Leaders, o especialista em inteligência artificial falou do começo do seu percurso, do embuste que é a robot Sophia e das preocupações que esta tecnologia desperta no mercado de trabalho.

O líder da Singularity University Holanda esteve em Lisboa para abrir o evento organizado pela Microsoft Ativar Portugal, mas foi durante uma conferência na sede da AGEAS Portugal que tivemos oportunidade de entrevistar o autointitulado “nerd” que começou o seu percurso em inteligência artificial na década de 1990.

Ficou à sua responsabilidade a abertura do Building the Future, o evento organizado pela Microsoft Ativar Portugal. O que achou da conferência?
O nome do evento, “Building the Future”, é exatamente aquilo que precisamos. Acho que muitos oradores quiseram passar essa mensagem e tenho esperança que a audiência tenha sentido isso porque vivemos um momento bastante entusiasmante devido à descoberta do poder da inteligência artificial (IA) e, mais especificamente, do machine learning. Estamos também a começar a entender as responsabilidades que vêm agregadas a esta descoberta e, tal como disse na minha apresentação, o desenvolvimento da IA ainda não terminou, nem nunca vai terminar. É simplesmente uma procura para criar uma máquina que seja capaz de fazer uma pequena porção daquilo de que os humanos são capazes. [Como ainda estamos numa fase inicial], hoje temos a oportunidade de utilizar o machine learning para dar forma ao futuro que queremos ter – literalmente construir o futuro. Acho que o título do evento é incrível e é algo em que acredito, mas a audiência era um bocado “azul”: muitos gestores corporativos, consultores, profissionais de TI. Gosto de falar com estas pessoas, mas acho que não são só estas pessoas que estão a construir o futuro. Precisamos de um grupo muito mais diversificado de pessoas.

Quando é que começou a sua aventura no universo da inteligência artificial?
Não sei se foi em 1994 ou 1995, mas num desses anos o meu pai deu-me um Commodore 64 – ainda é o computador mais vendido de sempre, portanto “toma lá” Steve Jobs [risos]. Lembro-me perfeitamente daquilo que o meu pai me disse quando recebi o presente: “Jim, pensa nisto como um novo irmão ou irmã, exceto que ele ou ela não sabe nada, mas podes ensinar-lhe coisas e a isso chama-se programar”. Na altura, pensei: “do que é que estás a falar? Isto é um bocado de plástico e ferro”. Mas, agora, em 2019, ele estava 100% correto e, na verdade, tenho uma empresa chamada Aigency onde construimos computadores que aprendem.

A partir daqui comecei a programar este computador de forma a conseguir interagir e falar com ele – isto parece patético, mas eu sou um nerd, portanto posso dizer estas coisas. Mais tarde, em 2000, estava a estudar linguística aplicada. Este curso estava no campo de “será que conseguimos ensinar línguas a um computador da mesma forma que fazemos com as crianças”. Isto foi a minha segunda tentativa de tentar fazer com que um computador falasse. Falhámos redondamente. Surpreendentemente, hoje o meu filho pode sentar-se à frente do computador, abrir uma biblioteca, utilizar uma linha de código e “BOOM”: tem um chatbot – um computador que consegue falar. O que me leva a perguntar “o que é que eu andei a fazer nos anos ’90?” [risos]. Mas na altura não tinha o poder de computação, tinha só 64k, o que não é nada. Tinha o poder de computação, mas não tive os modelos indicados e agora, em 2019, temos a tecnologia e o poder para escrever esses modelos, a informação [data]e o machine learning. Atualmente, mesmo em situações em que a máquina não sabe o que fazer pode depender de tudo aquilo que já viu, descobrir os padrões e arranjar uma resposta plausível.

“Pobreza e igualdade salarial são apenas alguns dos temas que a Singularity University procura responder. Queremos utilizar estas tecnologias para resolver estes problemas.”

Segundo uma pesquisa da Accenture, em 2035, devido à IA a produtividade vai aumentar 40% e os lucros das empresas vão aumentar 38%. À primeira vista isto parece ser bom, mas estes resultados serão mais positivos para os diretores das empresas. Como é que as pessoas que não fazem parte dos altos quadros podem beneficiar com a introdução desta tecnologia em larga escala?
Isso é uma pergunta crucial e acho que é uma das razões para a Singularity University existir. Nós vemos estas tecnologias exponenciais e este crescimento em múltiplos domínios – não só no poder de computação, mas também na energia, nanotecnologia, neurociência, etc. O que nós queremos fazer é não só ver este crescimento exponencial a acontecer, como também perceber como é que o podemos utilizar para resolver grandes desafios. Pobreza e igualdade salarial são apenas alguns dos temas que a Singularity University procura responder. Queremos utilizar estas tecnologias para resolver estes problemas – ou para não os acentuar – e acho que o debate sobre a diminuição de empregos devido à IA ainda está em aberto. Estudos, como o da Universidade de Oxford, indicam que 47% dos empregos vão desaparecer.

Mas há estudos a indicar o oposto, que vão ser criados mais empregos…
Exato. E a ideia é que não vão ser totalmente substituídos. Muitos cargos não podem ser totalmente automatizados, mas podem beneficiar da tecnologia para não terem tanto trabalho.

Por outro lado, os empregos que seguem um padrão poderão ser muito mais facilmente substituídos por um robot. O que é que sobra às pessoas que precisam deste tipo de trabalhos e que não estão qualificadas um emprego mais complexo?
Tenho dificuldade em perceber quem são estas pessoas. Concordo que se for repetitivo e previsível uma máquina consiga desempenhar essa função melhor e de uma forma mais rápida e barata, mas não são estes os empregos que as pessoas com pouca escolaridade têm. Por norma, estas pessoas trabalham com as mãos. Por exemplo, pegar num copo e levá-lo à mesa é fácil para nós, mas para as máquinas é muito complicado. É um certo paradoxo porque não são as pessoas que recebem menos que vão ficar sem emprego devido à automação, mas sim os que acham que estão seguros, como advogados e contabilistas. E mesmo nestes, a situação não é tão má quanto as pessoas dizem. Acho que não vão ficar sem emprego, mas sim com ferramentas melhores. E um contabilista será capaz de fazer outras coisas. Não estou muito preocupado que estas pessoas só tenham uma habilidade.

“Normalmente, quando fazemos uma avaliação da situação, dizemos sempre que a transformação digital não é o fim, mas sim o princípio.”

Criou a Aigency, uma plataforma de inteligência artificial, para trabalhar com líderes de todo o mundo que querem introduzir esta tecnologia nas empresas. Que preocupações é que estas pessoas têm?
Não diria preocupações. Eles ouviram falar de IA, acham que é bastante sexy e querem utilizá-la. Portanto, chamam-me a mim ou a outra pessoa para falar um pouco da tecnologia. Mas depois, quando fazemos as perguntas mais difíceis, temos bastante sorte se eles tiverem uma base de dados a que consigam aceder, porque cada departamento tem a sua.
A ideia deles é tentar que estas bases de dados “falem” umas com as outras, o que nada tem a ver com IA. Normalmente, quando fazemos uma avaliação da situação, dizemos sempre que a transformação digital não é o fim, mas sim o princípio. É a partir do momento em que as empresas têm os seus sistemas ativos que podem começar a falar de outro tipo de soluções, como analytics, mas só a partir daí é que devem implementar machine learning ou IA. Mas para chegar aí, as grandes preocupações das empresas passam por não saber se conseguem aceder às bases de dados, se estão autorizadas a utilizar esta informação – devido ao RGPD – e a maior pergunta é sempre: “o que é que devo fazer com toda esta informação?” E é aqui que entra a inteligência humana – para resolver os problemas.

É a favor da regulação da inteligência artificial?
Não sou a favor de regular nenhuma tecnologia, mas sim comportamentos. Ou seja, regular as empresas de forma a sabermos que, independentemente da tecnologia que estão a utilizar, o fazem de acordo com a lei.

Nesse sentido, que leis é que devem ser introduzidas para fazer com que as empresas não abusem destas novas tecnologias?
Na Europa temos o RGPD e muitas das preocupações que possam surgir são previstas por este regulamento. Já temos estas leis e os instrumentos para punir as empresas que não agem em conformidade. Mas também há uma zona sombria, em que legalmente é possível, mas que é dúbio se o devemos fazer ou não. É aqui, por exemplo, que o marketing começa a ser utilizado para manipular o público. A maioria das empresas não leva a cabo coisas como as que aconteceram com a Cambridge Analytica e o Facebook.

Tendo trabalhado de perto com o desenvolvimento da inteligência artificial, gostava de lhe perguntar que filmes de fição científica é que acertaram melhor na realidade que vivemos atualmente com a inteligência artificial…
O que me vem logo à cabeça é o “Terminator”. Quando a [personagem]Sarah Connor diz ao John Connor que “o futuro não está estabelecido, é o que fazemos dele”, o que nos leva ao início da nossa conversa sobre a construção do futuro. Se há uma coisa em que o “Terminator” está correto é o facto de sermos nós a construir o futuro e que não devemos encostar-nos à espera que as coisas aconteçam. Outro bom exemplo é o Ex Machina, em que a humanoide Eva passaria o Teste de Turing – um exame que testa máquinas para perceber se o seu comportamento é equivalente ao de um ser humano. Acho que a realidade que esse filme pinta, que supostamente se passa no presente, está longe de ser realidade. Tive a oportunidade de entrevistar a Sophia, a humanoide mundialmente conhecida criada pela Hanson Robotics, e “ela” está bastante longe de ser capaz de passar o Teste de Turing.

Porque é que diz isso? O que é que lhe falta?
Inteligência [risos]. Porque as questões que lhe queria colocar durante a entrevista tiveram de ser enviadas com uma semana e meia de antecedência… Ou seja, tudo aquilo que ela me disse foi preparado pela equipa da Hanson Robotics. Claro que não segui as regras e fiz-lhe algumas questões que não estavam no guião e as respostas dela foram simplesmente um sorriso – o que vindo “dela” é extremamente constrangedor e sinistro – ou uma piada aleatória. A Sophia tem algumas boas piadas, mas isso é fazer batota.

“É um marketing ótimo para a inteligência artificial, mas a Sophia é um embuste.”

Ela esteve cá nos dois últimos eventos da Web Summit…
A Sophia é uma grande embaixadora para os robots e para os humanoides. É um marketing ótimo para a inteligência artificial, mas a Sophia é um embuste. É ótimo que “ela” tenha expressões faciais, que consiga olhar as pessoas nos olhos, ouvi-las e chegar a uma resposta. Isto é uma ótima tecnologia, mas não deviamos vendê-la ao público como se ela estivesse feliz por estar aqui. Acho que mentira é uma palavra muito forte, mas aquilo que eles tentam vender foge à verdade. Vivemos numa época das fake news e acho que a Sophia devia ser mais aberta em relação àquilo que consegue, ou não, fazer porque as expetativas estão muito altas. Digamos que uma start-up criou um robot, a equipa está orgulhosa e mostra a sua invenção a investidores, ao que estes respondem “a Sophia é melhor”… Isto não é justo… Não estou a tentar atacar a Sophia, mas gosto que as coisas sejam claras.

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