Que a universidade assume um papel determinante no desenvolvimento de pessoas e regiões mais empreendedoras é já sobejamente reconhecido. E são muitos os exemplos que o confirmam, como o estudo de caso emblemático de Silicon Valley, em que várias universidades se uniram para alavancar uma nova indústria (assente nas novas tecnologias[1]) e uma nova geração de empreendedores.

Em termos práticos, como podemos explicar esta transformação empreendedora? Como este caso evidência, a universidade revelou-se fundamental, não apenas para apoiar na elaboração de um bom plano de negócios –proporcionando aprendizagens orientadas para a proposta de valor, o plano de marketing ou o budget financeiro – mas também para o desenvolvimento das competências empreendedoras.
Tendo em conta a máxima de Peter Drucker, que afirmava que “o empreendedorismo é fundamentalmente um estilo de vida”, torna-se claro que “falar sobre empreendedorismo” é bem diferente de “ser empreendedor”. Neste sentido, o desenvolvimento de competências como a proatividade, a auto-eficácia, a propensão para o risco calculado ou a resiliência mostram-se determinantes, tanto na criação do próprio negócio ou no processo de venda, como na comunicação com futuros parceiros ou colaboradores[2].

No entanto, dada a mudança de paradigma que estamos a viver atualmente – em que mais importante do que ter disponíveis recursos humanos, matéria-prima ou conhecimentos é ter a capacidade para transformar esses mesmos recursos e conhecimento em inovação e em valor competitivo para a empresa ou instituição – a mera capacitação dos empreendedores já não basta… Ora é precisamente neste ponto que a universidade se revela tão determinante! Enquanto centro por excelência para a produção, disseminação e transformação do conhecimento em inovação – isto é, em respostas e soluções capazes de resolver os problemas reais – a universidade pode e deve estar na “linha da frente” na geração de produtos e serviços inovadores!

Já em 1994, Etzkowitz[3] defendeu esta ideia, considerando que a universidade reúne “condições ótimas” (exemplo, pessoas altamente qualificadas, conhecimento de ponta, estruturas de apoio a investigadores, docentes e discentes, …) para que ideias, soluções e inovações possam emergir.

Nesta linha de raciocínio, a universidade poderia (e deveria) funcionar, cada vez mais, como “Universidade Empreendedora” – para utilizar o termo do autor – e assim assumir-se como o centro por excelência de transferência de conhecimento, isto é de produção de inovação e geração de respostas para a sociedade. Neste sentido, cada aluno deve ser encarado como “potencial empreendedor”, apostando a universidade no estímulo do espírito empreendedor de todos.

Na ciência, este discurso não é novo e encontra-se em conformidade com as diretivas da Comissão Europeia e da própria Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Mas, olhando para o panorama português, parece-me que podemos fazer um pouco mais.

Remetendo para o plano pragmático: como podem as universidades assumir-se como “Universidades Empreendedoras” e despoletarem a vontade e o espírito empreendedor dos seus alunos? Naturalmente que um primeiro passo passa por criar unidades curriculares orientadas para o empreendedorismo e a inovação, pelo envolvimento dos alunos em projetos de investigação e inovação dos docentes ou em programas de mentoring. Mas, podemos ir mais longe! Dado que o empreendedorismo implica “fazer”, é preciso incentivar os alunos a aplicarem as suas competências na prática, a participarem em “concursos de ideias” e “sessões de pitch”, a montarem projetos extra-curriculares (por exemplo, organização de conferências) e a integrarem redes de colaboração.

Em conclusão, é fundamental que a universidade se assuma cada vez mais como um Centro de Transferência de Inovação para a sociedade, estimulando a geração de soluções para problemas reais. E tal pode ser concretizado através, não apenas da criação de mais spin offs e start-ups inovadoras, mas principalmente do desenvolvimento do espírito empreendedor dos alunos, que serão os futuros profissionais deste país! Desta forma, a universidade está a contribuir para o desenvolvimento de um Portugal mais empreendedor!

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

 

[1] Castells, M. & Aoyama, Y. (1994). Paths Towards the Informational Society: Employment Structure in G-7 Countries, 1920-1990. International Labour Review, 133 (1): 5-33.
[2] Palma, P. J. & Silva, R. (2014). Proatividade e Espírito Empreendedor. In Palma, P. J., Lopes, M.P. & Bancaleiro, J. Psicologia Aplicada à Gestão. Psicologia Para Não Psicólogos: A Gestão à luz da Psicologia. Lisboa: Editora RH.
[3] Etzkowitz, H. (1994). Academic-industry relations: a sociological paradigm for economic development. In L. Leydersdorff and P. Van Den Besslaar, Evolutionary Economics and Chaos Theory: New Directions in Technology Studies. London: Printer Publishers, 139-151.

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Sobre o autor

Patrícia Jardim da Palma

Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais