Opinião

Ideias soberbas na agricultura indiana

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School

Para grande espanto meu anunciava-se, há algum tempo, a plantação de 19.000 hectares de terreno desértico e árido, no Estado de Gujarati, no deserto de Rann de Kuth, com árvores de palma de tâmara.

A plantação está a avançar a bom ritmo, com extensas zonas verdes, já com palmeiras em boa produção. Uma vez selecionada uma planta-mãe de qualidade, com toda a facilidade se podem fazer clones por via da cultura do tecido da planta escolhida, que é antes irradiada para não transmitir vírus ou outras doenças da planta originária.

Nos 19.000 hectares serão plantadas 160 árvores por hectare, ficando 10% das plantas masculinas. Em geral, cada árvore na sua plantação e crescimento requer pouca água, fornecida por um sistema de gota a gota. A previsão da produção vai dos 100 a 200 kgs por árvore por ano, podendo colher-se os seus frutos de uma só vez ou de modo faseado.

Habitualmente, com o passar do tempo, as palmeiras vão crescendo em altura, levantado problemas de colheita, se, entretanto, não se forem descobrindo sistemas mecânicos para trepar até à copa da árvore, com toda a segurança, como se está a tentar fazer com os coqueiros. Uma solução para este problema será encontrar tipos de palmeiras que comecem a produzir depressa e com intensidade, durante uns 10 a 15 anos, após o que tenham de ser substituídas por novas árvores.

Isto abre um novo panorama no aproveitamento de terrenos desérticos e também de terrenos baldios, onde se possam encontrar culturas em altura, com boa dose de experimentação e boa imaginação prática.

Tentativas parecidas lembram os tempos dos Descobrimentos, quando parecia haver uma atitude sistemática de tentar ver como se comportavam certas espécies vegetais, em cada um dos locais de portos, onde os marinheiros atracavam. É sabido que muitos vegetais incorporados nos nossos alimentos vieram doutras paragens como do México, do Brasil da Índia, das zonas da Malásia, entre outras. Tal atitude científica sistemática deve ter sido um dos grandes bens da Escola de Sagres, para estudar tudo minuciosamente e procurar propagar o mais possível os vegetais de alimentação, para que todos pudéssemos ter o mínimo para sobreviver.

Inovação disruptiva na agricultura como a GVT-Global Vikas Trust faz

A Global Vikas Trust (GVT) é uma organização que ajuda pequenos agricultores, com pouca extensão de terra, a descobrir como ganhar muito mais do que costumavam.

Como? Faz as pessoas pensar sobre o que estão a plantar e quanto ganham. Em seguida, sugere plantar uma variedade de árvores, de mais de 25 tipos, em proporções que o agricultor compromete-se.

Nas primeiras tentativas, as pessoas ouviram com atenção, mas ninguém se decidiu. Mais tarde, uma ou duas pessoas optaram por tentar e, depois de algum tempo, ao verem os resultados, muitos outros se convenceram de que era uma boa ideia.

“Os dois maiores problemas que precisavam de enfrentar eram a pobreza e a crise climática. (…) Comecei a viver na aldeia. O objetivo era gerar um interesse inicial na possibilidade de transformar vidas por meio da ação coletiva entre as partes interessadas. Assim nasceu a Global Vikas Trust (fundada em 2016), com o objetivo de impulsionar um movimento de massas para aumentar a renda dos agricultores e enriquecer o meio ambiente pela plantação de árvores, de milhões de árvores de fruta.”

“Em 2019, convencemos apenas 1.700 agricultores a mudar as suas culturas para horticultura e plantar 1,18 milhão de árvores frutíferas. Em 2020 e 2021, apesar da COVID-19, os agricultores plantaram 1,9 milhão e 7,8 milhões de árvores, respetivamente. Em 2022, os agricultores plantaram 21 milhões de árvores; em 2023, plantámos 35 milhões.

Árvores de ciclo curto, como a bananeira e a papaeira; árvores frutíferas de ciclo médio, como o ananás, a goiaba, a romã, o limão, a lima e a laranja; e árvores de ciclo longo, como a mangueira e a jaqueira, aumentaram a renda anual dos agricultores de 25.000 a 50.000 rúpias por acre, para uma média de 250.000 rúpias, um aumento de 4 a 10 vezes.

Até aqui, a GVT fez plantar mais de 67 milhões de árvores de fruta, no conjunto, em cerca de 43.000 acres de terra pertencentes a quase 30,000 famílias de agricultores, de cerca de 5.000 aldeias  (Indian Express, Gulati. 5 Jan. 2026).

O aumento da cobertura vegetal por meio de árvores em larga escala induziu a um aumento significativo das chuvas e transformou uma área árida, antes castigada pela seca, numa exuberante paisagem verde. Um resultado importante também foi o aumento da participação de todas as partes interessadas envolvidas no projeto, promovendo um sentido de responsabilidade coletiva.

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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