Falta de mão-de-obra e custos de produção elevados empurram empresas para automação
Um relatório da Roland Berger revela que a escassez de mão-de-obra e os elevados custos de produção aceleram a transição para fábricas sem humanos. A automação industrial cresce a um ritmo médio de 6% ao ano desde 2015, com previsão de aceleração para 7%, nos próximos anos.
O “The lights-out factory – How to address the challenge of labor scarcity”, o mais recente relatório global da Roland Berger, constata que a crescente escassez de mão de obra está a pressionar o setor da indústria transformadora e o futuro não traz boas notícias, com a Europa a ver sua população em idade ativa cair cerca de 18% até 2050, ou a China a ver essa redução a atingir os 24%.
O estudo destaca ainda que o défice estrutural de mão de obra dificilmente será compensado por ciclos económicos, pelo que o foco na indústria está a mudar para a criação de unidades de produção altamente automatizadas, capazes de operar sem intervenção humana – as “lights-out factories”. Por outro lado, a escassez de talento deverá intensificar-se nas próximas décadas, e será o motor que levará à transformação e à automação da indústria, enquanto opção estratégica e operacional.
Pol Busquets, sócio responsável pelo setor Industrial da Roland Berger para os mercados da Península Ibérica, explica que “embora a tecnologia esteja a avançar rapidamente, a produção totalmente autónoma ainda enfrenta desafios que não serão resolvidos a curto prazo, especialmente em funções de suporte e processos de montagem complexos. Neste contexto, a transição para fábricas sem intervenção humana requer um progresso contínuo e gradual através da automatização de processos específicos que são dispendiosos ou requerem muita mão-de-obra”.
Refira-se que a viabilidade económica da automação tem vindo a melhorar de forma consistente, com o custo dos robôs industriais a cair mais de 50% desde 1990, enquanto o mercado de automação industrial cresce a um ritmo médio de 6% ao ano desde 2015, com previsão de aceleração para 7% ao ano nos próximos anos.
O relatório da Roland Berger identifica a montagem (assembly) como o maior obstáculo à automação total. A elevada variabilidade de produtos, aliada à necessidade de manipular componentes flexíveis como cabos ou tubos, limita significativamente a aplicação de soluções robóticas tradicionais e mesmo de sistemas baseados em inteligência artificial.
Por sua vez, as funções de suporte e back-office continuam fortemente dependentes de intervenção humana. A fragmentação de sistemas e a baixa qualidade de dados também impedem a criação de fluxos digitais contínuos, obrigando a reconciliações manuais e reduzindo o impacto da automação.
De qualquer forma, a tecnologia avança sem substituir fundamentos operacionais e embora os avanços em áreas como visão computacional, robótica autónoma e inteligência artificial estejam a expandir o leque de processos automatizáveis, a tecnologia, por si só, não resolve todos os desafios. Por isso, o relatório sublinha que a automação eficaz depende de bases operacionais sólidas, nomeadamente processos estáveis e bem controlados.
Para avançar de forma consistente no domínio da autonomia, o estudo identifica três pilares fundamentais: a estabilização de processos (condição essencial para operações autónomas fiáveis); fecho de lacunas de sistemas e dados (integração seletiva com foco no valor operacional); e design para automação (adaptação de produtos e processos desde as fases iniciais). Com esta abordagem, as empresas conseguirão evoluir progressivamente, focando-se em casos de uso com maior retorno económico.
Além disso, o caminho para as “lights-out factories” varia significativamente consoante o perfil industrial, e, por isso, fabricantes de componentes, produtores em massa e operações de alta variabilidade, enfrentam desafios distintos e devem priorizar diferentes alavancas estratégicas.
Perante este contexto, o relatório conclui que a fábrica totalmente autónoma não surgirá de forma abrupta, mas a indústria deverá seguir um percurso progressivo de “dim the lights” antes de “lights out” total, automatizando etapas específicas enquanto constrói as bases para uma autonomia mais ampla. Desta forma, sugere que num contexto de escassez crescente de mão de obra e pressão competitiva global, as empresas que iniciarem esta transição agora estarão melhor posicionadas para capturarem ganhos de produtividade e assegurarem a sustentabilidade das suas operações a longo prazo.







