Mulheres empresárias: querem apresentar a sua ideia de negócio a investidores? Um novo estudo sugere que as empreendedoras brancas e asiáticas podem ter mais sorte ao partilhar as suas ideias com os venture capitalists do que se pensava anteriormente.

Um professor da Stanford Graduate School of Business, nos EUA, Ilya A. Strebulaev, quis por à prova o preconceito de género e racial de que são acusados os venture capitalists através de um estudo.

Durante seis anos a lecionar um curso sobre financiamento para start-ups em Standford, o professor Ilya A. Strebulaev deparou-se com uma preocupação comum entre os estudantes: os investidores de Silicon Valley discriminam as mulheres e as pessoas de cor.

Apesar de se confrontar com estatísticas que justificavam este preconceito de género – para cada dólar investido em start-ups com fundadoras em 2017, as empresas fundadas por homens receberam 35 dólares (31 euros), e menos de 10% dos capitalistas de risco dos EUA são mulheres -, nenhuma pesquisa comprovava que os investidores favoreciam os homens brancos.

Então, Ilya Strebulaev, juntamente com Will Gornall, ex-aluno e professor de finanças na University of British Columbia, enviou 80 mil e-mails a apresentar start-ups falsas a 28 mil venture capitalists e business angels. Nos email identifica os fundadores, indicando o seu sexo e a sua etnia. Os resultados da experiência foram inesperados: os empreendedores com nomes femininos e asiáticos receberam uma taxa mais alta de respostas interessadas do que os fundadores fictícios masculinas e caucasianos. “Ficamos surpresos ao encontrar preconceito em favor de empresários do sexo feminino e asiáticos nesta fase inicial do pipeline de investimento”, diz Strebulaev.

Estudo passo a passo
Inicialmente, Ilya Strebulaev e o seu colaborador pediram aos estudantes das duas universidades onde lecionam para criar e-mails de start-ups fictícias que estavam a desenvolver um produto ou serviço promissor. O envolvimento de investidores profissionais ajudou os pesquisadores a selecionar 50 propostas fortes em setores distintos como: energia, saúde e tecnologia da informação. Os investigadores verificaram que os nomes das empresas eram únicos e criaram um site básico para cada um, pois as start-ups estava em fases muito embrionárias.

De seguida, inventaram 200 fundadores, todos estudantes licenciados de universidades americanas de prestígio. Para criar as personagens dos fundadores, os investigadores analisaram os mil nomes de bebés mais comuns nos EUA em 1995 e retiram os que poderiam ser ambíguos face ao género, como Taylor e Alexis, e aqueles que soavam fortemente hispânicos ou judaicos, como Maria ou Alexandra. Para os apelidos, as equipas de pesquisa escolheram os nomes de família mais comuns do Censo dos EUA de 2010, associados principalmente a brancos ou asiáticos. Os investigadores juntaram aleatoriamente os nomes para criar quartetos representando diferentes combinações, como Adam Jensen, Adam Liu, Jennifer Jensen e Jennifer Liu. Os investigadores garantiram que nenhum aluno verdadeiro com aquele mesmo nome frequentasse a mesma universidade que fazia parte do histórico da personagem.

Os investigadores enviaram, então, 80 mil pedidos de apoio a investidores focados em start-ups dos EUA, durante duas semanas e meia em outubro e novembro de 2018. Mais de 3 mil desses contactos receberam uma resposta interessada, como uma proposta de reunião ou telefonema ou um pedido de mais informações. As personagens femininas da investigação receberam mais 8% de respostas interessadas do que os homens e os supostos empresários com apelidos asiáticos também receberam mais 6% de respostas face aos supostos brancos.

O que levou ao preconceito?
O professor Ilya Strebulaev sugere duas possíveis interpretações. Uma está relacionada com o facto de os investidores responderem de acordo com as suas próprias perceções sobre as diferentes capacidades e oportunidades de vários grupos de empreendedores. Os pesquisadores referem que os investidores podem perceber que é mais difícil, tanto para asiáticos como para mulheres, entrar em programas de pós-graduação, criar start-ups e assumir que são mais avessos ao risco. Os investidores podem pensar que estes indivíduos só se tornariam fundadores se a ideia deles fosse muito boa.

Outra explicação possível é que alguns investidores têm preferência por mulheres ou fundadores asiáticos por pertencerem ao mesmo grupo ou porque querem apoiar empreendedores sub-representados. De salientar que o estudo aconteceu no auge do movimento e revelações #MeToo em Silicon Valley e por toda a América. O próprio promotor do estudo considera que, se a investigação tivesse ocorrido anos antes, os resultados poderiam ser diferentes.

O professor de Standforf está a planear um outro estudo para examinar a discriminação no fluxo de investimentos numa fase mais adiantada da start-up.

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