Opinião
Estamos a alugar o nosso cérebro à Inteligência Artificial
A Inteligência Artificial está a poupar-nos tempo, esforço e trabalho. Mas, à medida que começamos a delegar-lhe a escrita, a análise, a síntese e até algumas decisões, talvez seja altura de perguntar: que capacidades deixamos de exercitar quando uma máquina começa a pensar connosco?
Para milhões de pessoas, há um pensamento que já se tornou quase automático antes de começar uma tarefa:
“Vou perguntar à IA.”
Não porque não saibam fazê-la. Porque é mais rápido.
É difícil argumentar contra esta lógica. Hoje podemos resumir dezenas de páginas em segundos, estruturar uma apresentação, melhorar um email, analisar informação, escrever código, traduzir um documento ou comparar opções antes de tomar uma decisão.
Estamos perante uma das maiores ferramentas de produtividade alguma vez colocadas ao alcance de praticamente qualquer pessoa.
E vamos utilizá-la cada vez mais.
Mas é precisamente por isso que existe uma pergunta sobre a qual talvez ainda estejamos a falar pouco:
Quando deixamos de fazer determinadas coisas porque a Inteligência Artificial as faz melhor e mais depressa, continuaremos a saber fazê-las quando precisarmos?
Já entregámos capacidades à tecnologia antes. Não é a primeira vez que isto acontece. A calculadora reduziu a necessidade de fazermos determinados cálculos mentalmente. Os motores de pesquisa mudaram a nossa relação com a memória. O GPS fez com que muitos de nós deixassem de memorizar percursos que anteriormente conheceríamos sem dificuldade.
Isso não significa que tenhamos ficado menos inteligentes. Em muitos casos, libertámos capacidade para tarefas de maior valor. A tecnologia sempre fez isso. Mas com a Inteligência Artificial existe uma diferença importante.
Durante décadas utilizámos tecnologia para reduzir esforço físico, operacional ou acelerar o acesso à informação. Agora começamos a utilizá-la para reduzir o próprio esforço cognitivo.
Escrever. Sintetizar. Argumentar. Interpretar. Comparar. Recomendar. Decidir.
A fronteira aproxima-se daquilo que durante muito tempo considerámos uma capacidade exclusivamente humana: pensar.
A conveniência é difícil de abandonar
Quando descobrimos que uma tarefa que demorava uma hora pode ser feita em dez minutos, é difícil voltar atrás.
Quando podemos receber o resumo de um documento de 50 páginas em segundos, a tentação de não ler as 50 páginas é compreensível.
Quando uma ferramenta consegue produzir uma primeira versão suficientemente boa de um texto, começamos naturalmente a passar menos vezes pela experiência de uma página em branco.
Nenhuma destas decisões, isoladamente, me preocupa particularmente. Interessa-me o efeito acumulado. Porque as capacidades também se desenvolvem através do exercício.
Aprendemos a escrever escrevendo. Aprendemos a argumentar argumentando. Aprendemos a decidir tomando decisões, incluindo algumas erradas. E aprendemos a reconhecer uma má análise depois de termos feito muitas análises.
Um estudo de investigadores da Carnegie Mellon University e da Microsoft Research, realizado com profissionais que utilizam IA generativa no trabalho, encontrou uma associação interessante: quanto maior a confiança depositada na IA, menor o esforço de pensamento crítico reportado pelos participantes. Ao mesmo tempo, os investigadores observaram que a IA não elimina necessariamente esse pensamento, podendo deslocá-lo para tarefas como verificar e integrar as respostas.
Esta distinção parece-me fundamental. O problema não é delegarmos trabalho à IA. É delegarmos pensamento sem percebermos que o estamos a fazer.
Quem vai conseguir desafiar a máquina?
Nas empresas, esta questão pode tornar-se ainda mais relevante. Imagine-se um processo que hoje depende da experiência de várias pessoas.
Primeiro, introduzimos IA para encontrar informação. Depois para a resumir. Mais tarde para identificar padrões. A seguir para recomendar uma ação. Eventualmente, dentro de determinadas regras e permissões, poderá executar parte do próprio processo.
Do ponto de vista da produtividade, isto pode ser extraordinário. Mas alguns anos depois teremos de conseguir responder a uma pergunta:
Quem continua a compreender verdadeiramente o processo?
Quem percebe quando uma recomendação parece correta, mas está errada?
Quem identifica uma exceção que nunca apareceu nos dados históricos?
Quem tem experiência suficiente para contrariar uma resposta tecnicamente convincente?
Existe aqui um paradoxo.
Quanto melhor for a IA, mais confiança teremos nela. E quanto mais confiança tivermos, menor poderá ser a nossa predisposição para a questionar.
É relativamente fácil desconfiar de uma tecnologia que erra frequentemente.
Muito mais difícil é desafiar uma tecnologia que quase sempre tem razão.
E quem nunca conheceu um mundo sem IA?
Há outra dimensão desta discussão que talvez seja ainda mais importante.
Quem hoje trabalha já teve, em maior ou menor grau, uma vida antes da IA generativa.
Aprendemos a escrever antes de pedir a uma máquina que melhorasse o texto. Fizemos trabalhos de pesquisa antes de receber uma síntese em segundos. Tivemos de estruturar argumentos, resolver problemas e enfrentar muitas páginas em branco.
Podemos agora delegar parte desse esforço porque, em algum momento, desenvolvemos essas capacidades.
Mas uma geração de crianças e jovens crescerá numa realidade diferente. Terá IA disponível praticamente desde o início do seu percurso de aprendizagem. E isso pode ser extraordinário.
Um aluno poderá ter algo próximo de um tutor individual permanentemente disponível, capaz de adaptar uma explicação, responder a perguntas e ajudá-lo a explorar assuntos muito para além do que seria possível numa sala de aula.
A questão não é impedir isso. É perceber como aproveitar essa capacidade sem eliminar precisamente o esforço necessário para aprender. Porque existe uma diferença entre utilizar IA depois de aprender a escrever e aprender a escrever sempre com IA. Entre pedir ajuda depois de tentar resolver um problema e nunca experimentar verdadeiramente a dificuldade de o resolver. Entre utilizar uma ferramenta para desafiar um argumento e pedir-lhe que construa o argumento antes de termos formado o nosso. E isso leva a uma questão ainda mais importante:
O que acontece quando não estamos a delegar uma capacidade que aprendemos, mas uma capacidade que nunca chegámos a desenvolver?
Talvez um dos grandes desafios da educação nos próximos anos seja formar pessoas capazes de pensar sem IA e, precisamente por isso, capazes de pensar melhor com ela.
E se amanhã a IA for desligada?
Não acredito que o grande risco seja acordarmos um dia e descobrirmos que toda a Inteligência Artificial desapareceu. Mas vale a pena fazer o exercício.
Se amanhã as ferramentas de IA que utilizamos diariamente ficassem indisponíveis durante uma semana, o que aconteceria?
A produtividade diminuiria, naturalmente.
Mas conseguiríamos continuar a trabalhar?
E daqui a dez anos?
Esta pergunta deveria interessar particularmente às empresas que começam a colocar IA no centro de processos importantes.
Continuidade de negócio sempre significou pensar no que acontece quando uma tecnologia deixa de estar disponível. Com a IA teremos de acrescentar outra dimensão.
Não basta garantir que conseguimos recuperar o sistema. Temos de garantir que ainda existe conhecimento suficiente para funcionar sem ele.
O verdadeiro risco não é a IA ficar indisponível durante algumas horas. É descobrirmos nesse momento que já não sabemos trabalhar sem ela.
Há coisas que talvez devamos escolher não delegar
Não acredito que a resposta seja utilizar menos Inteligência Artificial. Seria pouco realista e provavelmente um erro.
A IA pode libertar-nos de uma quantidade extraordinária de trabalho repetitivo, acelerar a aprendizagem, democratizar conhecimento e permitir que pessoas e organizações façam coisas que anteriormente seriam demasiado caras ou demoradas.
A questão não é resistir a essa transformação. É entrar nela conscientemente. Talvez pessoas e empresas tenham de começar a decidir não apenas onde querem utilizar IA, mas também que capacidades não querem perder.
Que conhecimento tem de continuar a existir dentro da organização?
Que decisões exigem julgamento humano?
Onde deve existir capacidade para operar sem IA?
Que competências precisam de continuar a ser treinadas, mesmo quando uma máquina já consegue executar a tarefa?
E, individualmente, que partes do nosso próprio pensamento queremos continuar a exercitar?
Porque existe uma diferença enorme entre utilizar uma máquina para pensar melhor e deixar progressivamente de pensar porque existe uma máquina que o faz por nós.
Talvez estejamos a fazer a pergunta errada
Temos passado muito tempo a perguntar: “Que empregos vai a Inteligência Artificial substituir?”
É uma pergunta importante. Mas talvez exista outra igualmente relevante: “Que capacidades humanas vamos deixar de desenvolver ou exercitar porque a Inteligência Artificial passou a fazê-lo por nós?”
Não sabemos ainda a resposta. E não acho que devamos ter medo dela. Mas devíamos começar a fazer a pergunta. Porque ferramentas podem ser compradas, substituídas ou desligadas.
O problema começa quando descobrimos que também lhes entregámos capacidades que já não sabemos recuperar.








