Não têm faltado, durante a atual crise pandémica, bons exemplos de empreendedorismo em diferentes setores da nossa sociedade. Os portugueses estão a demonstrar iniciativa, proatividade e resiliência no combate à Covid-19 e aos seus efeitos socioeconómicos. E o ecossistema empreendedor não é exceção.

Várias start-ups puseram em marcha projetos de responsabilidade social, nos quais aplicam conhecimento e tecnologia em soluções para as diversas frentes da luta contra a pandemia.

Numa situação de emergência nacional, os empreendedores estão a ser isso mesmo: empreendedores. Para além do muito falado movimento Tech4Covid19, que agrega mais de 5000 voluntários da comunidade tecnológica (engenheiros, cientistas, gestores, designers, marketeers…), outras iniciativas empresariais têm surgido para ajudar a conter o surto do novo coronavírus e minorar o seu impacto sanitário, social e económico. Foram desenvolvidas soluções tecnológicas para mapear pessoas infetadas ou isoladas, para gerir serviços essenciais ou simples deslocações ao supermercado, para alojar profissionais de saúde, para apoiar empresas afetadas pela pandemia, para realizar consultas médicas online, para agregar ações de voluntariado, para produzir ventiladores…

Enfim, o ecossistema empreendedor português continua a revelar dinamismo e inovação, apesar da paralisia quase total da atividade económica. Era bom que o muito que foi conquistado nos últimos anos, em Portugal, ao nível do empreendedorismo não se perdesse em escassos meses e devido a um imponderável. Importa por isso, não só garantir a sobrevivência das start-ups que compõem o ecossistema, como começar já a pensar na retoma do investimento no empreendedorismo.

A aceleração da transformação digital que estamos a assistir pode ser uma oportunidade para as start-ups tecnológicas, que dispõem de massa crítica para apoiar as empresas tradicionais na digitalização das respetivas cadeias de valor. Neste sentido, há que fomentar a cocriação digital, firmando parcerias tecnológicas entre PME e start-ups no quadro da indústria 4.0. Esta colaboração afigura-se de grande importância para ambas as partes: para as PME, trata-se de criar um ambiente tecnológico favorável ao seu crescimento e competitividade; para as start-ups, é uma forma de ganharem mercado e escala.

Mas convém não esquecer o empreendedorismo menos intensivo em conhecimento e tecnologia, cuja importância socioeconómica se acentua em cenários de contração do emprego. Infelizmente, muitos postos de trabalho se irão perder devido à crise pandémica, penalizando em particular os profissionais menos qualificados. Ora, a abertura de pequenos negócios e serviços de proximidade é uma forma de criar o próprio emprego e assim fugir à inatividade provocada pela retração económica que se avizinha. Interessa, pois, apoiar este empreendedorismo low tech, designadamente com microcrédito, formação profissional e incentivos ao autoemprego.

O Governo já apresentou um pacote de medidas de apoio às start-ups no valor de 25 milhões de euros, reconhecendo deste modo a especificidade dos projetos de empreendedorismo. É um primeiro passo para assegurar a sobrevivência de empresas early stage e relançar o investimento no ecossistema empreendedor. Mas, ultrapassada a crise pandémica, temos de ser mais ambiciosos nos incentivos ao empreendedorismo. A pandemia está acelerar as tendências da economia digital e Portugal não pode ficar para trás.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais