Opinião

Assertividade não é agressividade

Pedro Fonseca, responsável pelo Cloud Center of Excellence global na Saint-Gobain
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Ser direto não dá licença para ser descuidado. Fala-se muito da importância de líderes assertivos. E ainda bem. Organizações precisam de clareza. Equipas precisam de direção. Pessoas precisam de saber onde estão, o que se espera delas e que decisões foram tomadas.

O problema começa quando confundimos assertividade com dureza. Há líderes que dizem “eu sou muito direto” como se isso justificasse tudo: o tom, a forma, o momento, a falta de escuta. Confundem clareza com agressividade. Frontalidade com ausência de filtro. Exigência com pressão permanente.

Isto não é assertividade. É impulsividade com boa reputação.
Ser assertivo não é dizer tudo o que se pensa, da forma como apetece, no momento em que apetece. Ser assertivo é dizer o que precisa de ser dito com clareza, responsabilidade e respeito.

A diferença é relevante. Uma mensagem dura pode gerar obediência. Pode acelerar uma resposta. Pode até criar a aparência de controlo. Mas raramente gera compromisso.

E liderança baseada em medo parece eficiente até ao dia em que as pessoas deixam de falar, deixam de arriscar ou simplesmente deixam de se importar.

Assertividade sem empatia vira brutalidade. E brutalidade, mesmo quando entrega resultados no curto prazo, deixa sempre uma fatura: menos confiança, menos aprendizagem, menos iniciativa.

A clareza não precisa de humilhar para ser eficaz. É possível ser exigente e respeitoso. É possível dizer “isto não está bom” sem dizer “tu não és bom”. É possível definir consequências sem ameaçar. É possível acelerar decisões sem atropelar pessoas.

A maturidade está precisamente aí: separar o problema da pessoa. Falar de factos, não de rótulos. Falar de impacto, não de intenção presumida. Falar de expetativas, não de frustração acumulada.

Um líder assertivo prepara a conversa. Não improvisa em cima da irritação. Não usa a hierarquia como megafone emocional. Não confunde urgência com licença para perder qualidade na relação.

Antes de uma conversa difícil, há perguntas simples que ajudam:
Estou a ser claro ou apenas duro?
Estou a resolver o problema ou a descarregar tensão?
Estou a dar contexto suficiente para a pessoa agir?
Estou a deixar claro o que muda a partir daqui?

Estas perguntas não tornam a conversa mais confortável. Tornam-na mais justa. E justiça é uma das bases da confiança.

No fim, liderar bem não é escolher entre cuidar das pessoas e exigir resultados. É aprender a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
As pessoas não precisam de líderes “fofos”. Também não precisam de líderes “duros”. Precisam de líderes claros, justos e presentes.

Líderes que dizem a verdade sem perder respeito. Que exigem sem humilhar. Que escutam sem abdicar da decisão.

Porque assertividade não é atropelar pessoas. É criar clareza suficiente para que todos saibam o que importa, o que precisa mudar e qual é o próximo passo.


Pedro Fonseca é um executivo de transformação com mais de 20 anos de experiência em planeamento e direção de tecnologia. Com uma carreira focada na liderança de equipas globais e na implementação de estratégias de transformação digital, especializou-se em arquitetura empresarial, gestão de serviços de TI e inovação tecnológica.

Atualmente, lidera o Cloud Center of Excellence global na Saint-Gobain, onde impulsiona a adoção de tecnologias cloud, gestão de produtos e sucesso do cliente. Anteriormente, desempenhou funções de destaque em empresas como Feedzai, Nokia, Fidelidade, Oney Bank e Caixa Geral de Depósitos, conduzindo iniciativas estratégicas de inovação, otimização de processos e transformação digital.

Com percurso académico em Engenharia Informática e formação em Sociologia pelo ISCTE, além de uma especialização em Gestão e Inovação Digital pela Católica Lisbon School of Business and Economics, é também certificado em Gestão de Projetos e Gestão de Serviços de TI e Tecnologias. Além da sua experiência corporativa, conta com vários anos de consultoria estratégica, apoiando organizações na definição e execução de estratégias tecnológicas e operacionais.

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