Entrevista/ “As lições do passado podem ser uma ferramenta para resolver desafios da atualidade”

Francisco Miranda Duarte, diretor-geral da Ordem da Trindade

“Se um bom líder se preocupa em criar a melhor estratégia para o futuro, um líder de uma instituição com história está automaticamente em vantagem em criar essa estratégia”, revelou Francisco Miranda Duarte, diretor-geral da Ordem da Trindade, que este ano celebra o seu 265º aniversário, em entrevista ao Link To Leaders.

Faz parte da história da cidade do Porto. Realiza ações numa perspetiva de serviço e de responsabilidade social, tendo um papel ativo junto da comunidade e no apoio aos mais idosos há 265 anos. A Ordem da Trindade é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que conta com um conjunto de Irmãos diretamente vinculados às suas atividades, mas também com pessoas da cidade e da região.

Em entrevista ao Link To Leaders, o diretor-geral da Ordem da Trindade fala de como a instituição está a enfrentar a pandemia de Covid-19, de como se lidera uma instituição centenária em tempos de crise e das suas preocupações com o futuro.

De que forma a Ordem da Trindade está a enfrentar a pandemia?
Na sequência das recomendações da Direcção-Geral de Saúde e da deteção de vários casos em instituições de acolhimento de idosos na região Norte, no início da pandemia considerámos crucial manter o foco nas equipas que colaboram connosco. O nosso plano de contingência foi implementado no dia 8 de março e desde aí tem sido atualizado de acordo com as normas emitidas pelas entidades, de modo a manter utentes e colaboradores seguros.

Mais especificamente para instituições que acolhem a população mais idosa é necessário, nesta fase, medidas muito rigorosas que não só espelhem as recomendações dadas pelas entidades oficiais, mas que vão para além dessas exigências, protegendo também as equipas, nomeadamente por meio de equipamento de proteção individual, de horários em espelho, da testagem sistemática e de outras medidas.

Para enfrentar qualquer situação desta magnitude, é necessário ter um plano e uma estrutura orgânica que garanta a sua implementação. No caso da Ordem da Trindade foi criado um Comité Covid-19, constituído pela direção da instituição e com a coordenação da área assistencial e a direção de recursos humanos, que se reúne regularmente para acompanhar e antecipar os acontecimentos. Avaliar, discutir e implementar antecipadamente foi uma das premissas de sucesso.

Ao mesmo tempo é necessário cuidar de quem cuida: sem a segurança, a motivação e o envolvimento dos trabalhadores da Ordem não podemos prestar bons cuidados nem garantir a segurança dos utentes. E para isso foi feito um esforço grande de formação no início e depois de comunicação sobre o que estávamos a fazer e o porquê, e como todos poderíamos ajudar para ter os melhores resultados possíveis.

“Esta situação é um desafio à nossa capacidade coletiva de ultrapassar problemas complexos, reforçar o espírito de equipa e solidariedade dentro e fora da organização”.

Ao longo destes séculos de existência, a Ordem da Trindade enfrentou guerras, pandemias, invasões, crises e até viveu através de diferentes regimes políticos. Os últimos meses foram os mais desafiadores para a instituição? Que medidas adotaram?
Não temos memória, viva ou histórica, de uma situação vivida desta magnitude. Sabemos que já existiram outras crises, nomeadamente, a da Gripe H1N1, mas nunca houve uma quarentena tão generalizada ou se tomaram medidas tão drásticas, mas precisas, como tomadas até à data. Esta situação é um desafio à nossa capacidade coletiva de ultrapassar problemas complexos, reforçar o espírito de equipa e solidariedade dentro e fora da organização.

A Ordem passou ao longo dos séculos por guerras, invasões, cercos da cidade, epidemias como a Gripe Espanhola, entre outras, e por todos estes acontecimentos conseguiu passar e manter a sua missão de apoio social. Estamos convictos que conseguiremos o mesmo agora e que vamos sair mais fortes e solidários desta crise. Somos uma irmandade para a vida.

As nossas medidas foram delineadas num rigoroso plano de contingência, implementado no dia 8 de março e, desde logo, foram suspensas todas as visitas e foi restrita a circulação nos serviços. Adicionalmente desenvolvemos novos horários rotativos (noite de 12h e jornadas contínuas de 12h) de modo a realizar horários em espelho, assegurando o menor número de contactos possíveis entre os profissionais.

Implementamos ainda testes sistémicos obrigatórios para os recursos humanos (através de avaliação da temperatura corporal e triagem de outros sintomas) e para os utentes, que têm sido sujeitos a uma avaliação rotineira da temperatura, com recurso a termómetro, bem como avaliação de sintomas como tosse ou dificuldade respiratória. Foi ainda reforçado o stock de fármacos e dispositivos médicos, para valores correspondentes ao triplo dos stocks normais, e redobrada a higienização dos espaços. Desde então, e de acordo com indicação da DGS, já foi iniciado o processo de reabertura a visitas aos utentes, a 25 de maio, mas com várias limitações, como por exemplo, o horário de visita entre as 14 e as 17 horas, com duração de, no máximo, 30 minutos.

Como se lidera uma instituição centenária em tempos de pandemia?
Em alturas de crises, uma instituição com um passado imenso – no caso da Ordem da Trindade já são 265 anos – tem a vantagem de poder tirar paralelos com outros desafios passados e de assegurar aos colaboradores de  como ultrapassou essas situações desafiantes e de que permanecerá para enfrentar desafios presentes e futuros.

Mas acima de tudo, uma instituição com esta história tem um quadro de valores muito sedimentado e que nos dá razão de ser. Sabemos que estamos aqui para tratar bem os mais desfavorecidos, com especial foco nos idosos, que queremos valorizar e desenvolver a equipa e que devemos trabalhar com uma ética irrepreensível. São três aspetos muito simples mas que nos responsabilizam muito e nos orientam nas situações mais complicadas.

Sabíamos que o vírus era especialmente perigoso para os idosos, pelo que tínhamos o dever ético e moral de fazer tudo para não deixar entrar a doença na instituição. Depois, como temos que trabalhar com qualidade, tivemos que procedimentar as nossas abordagens e formar as pessoas nesses procedimentos para assegurar a consistência da nossa prática. E finalmente sabíamos que tínhamos que comunicar muito com as pessoas (ouvindo-as também) e reconhecer o esforço daqueles que por via da doença se encontraram em situação de maior risco e aos quais pedíamos um maior esforço. Para tudo isto que fizemos, a bússola foi o nosso quadro de valores.

As lições do passado podem assumir-se como uma das ferramentas mais poderosas que temos para criar um melhor futuro?
Sem dúvida. Se um bom líder se preocupa em criar a melhor estratégia para o futuro, um líder de uma instituição com história está automaticamente em vantagem em criar essa estratégia. Primeiro, ao incentivar colaboradores a trabalhar cooperativamente de maneira produtiva, comunicar a história da instituição incute um forte sentido de identidade e propósito, motivando-os a ultrapassar obstáculos. Por outro lado, as lições do passado podem ser uma ferramenta para resolver desafios da atualidade, reutilizando perspetivas relevantes, generalizações válidas e insights pragmáticos.

“Antes da pandemia, a Ordem da Trindade tinha previsto um ciclo de conferências a realizar-se em outubro, pelo 265.º aniversário. De momento estamos a avaliar a possibilidade de manter as conferências, mas passá-las para o online”.

Que iniciativas têm previstas para assinalar o 265.º aniversário da Ordem da Trindade?
Antes da pandemia, a Ordem da Trindade tinha previsto um ciclo de conferências a realizar-se em outubro, pelo 265.º aniversário. De momento estamos a avaliar a possibilidade de manter as conferências, mas passá-las para o online. A Ordem, por via da sua idade e por via do seu foco em tratar bem os mais idosos, interessa-se pelo tema da longevidade: uma longevidade saudável, interessante e com um propósito que nos faça levantar com energia todos os dias mesmo que tenhamos 100 anos.

Há muito conhecimento a ser desenvolvido sobre esta matéria e curiosamente com pontos de contacto entre a longevidade das pessoas e das instituições. A existência de um propósito claro para as nossas vidas (pessoais e institucionais) é um desses pontos de contacto nos diferentes estudos sobre a longevidade. Já agora um propósito que seja socialmente relevante e que contribua para o bem da comunidade. Queremos promover a discussão destes tópicos e fazer propostas e desenvolver projetos nesta área.

Não necessariamente a propósito do aniversário, mas como uma importante iniciativa neste ano de 2020 está a decorrer um importante projeto de reabilitação das nossas infraestruturas no sentido de aumentar a capacidade e dar melhor qualidade de serviço e segurança. De modo resumido o projeto irá incidir nas condições estruturais da unidade hospitalar e da igreja, assim como na recuperação das coberturas, fachadas e espaços exteriores.

Além do importante espólio de património, composto pela Igreja da Trindade e o Hospital da Trindade, ao longo dos anos, a Ordem tem desenvolvido atividades no sentido de manter o compromisso de auxílio à comunidade. Esse vai ser continuar a ser o objetivo?
A Ordem da Trindade foi criada com fins de natureza “assistencial” e de “solidariedade social”, e teve origem oficial pela bula papal de Bento XIV, de 14 de maio de 1755. Sempre teve, a par da vertente de assistencial no âmbito da saúde, um forte compromisso social nas áreas da educação (que manteve desde o ano de 1851 até 2003: – os seis primeiros anos apenas com o ensino primário e nos anos seguintes com o ensino liceal, no seu “Instituto Escolar”), mas também na solidariedade social. Nesta última, é de realçar a denominada Sopa Económica e que continua a existir ainda hoje com a distribuição de uma refeição diária aos mais carenciados.

Atualmente, a Ordem da Trindade pretende continuar a reforçar o seu papel de auxílio à comunidade e servi-la da melhor maneira possível, já que esta é uma altura crucial para desempenhar este tipo de funções. Uma das situações mais preocupantes prende-se com a situação económica em que esta pandemia colocará famílias previamente carenciadas. Qualquer ajuda que possa ser facultada neste sentido será uma boa prática.

“Nos próximos meses, a Ordem da Trindade enfrentará desafios especialmente económicos e financeiros. Sendo uma IPSS, ao iniciarmos o projeto de reabilitação, não esperávamos que os nossos custos com o pessoal (…) com os utentes, com a segurança e higiene aumentassem tanto (…)”.

Quais serão os grandes desafios dos próximos meses da Ordem da Trindade?
Nos próximos meses, a Ordem da Trindade enfrentará desafios especialmente económicos e financeiros. Sendo uma IPSS e ao iniciarmos o projeto de reabilitação, não esperávamos que os nossos custos com o pessoal (a quem, pelo tremendo esforço feito, foi atribuída uma remuneração extraordinária entre abril e junho) com os utentes, com a segurança e higiene aumentassem tanto. Se, anteriormente o volume de encargos já era ambicioso, agora será ainda mais desafiante. O nosso objetivo é sempre servir a comunidade de melhor maneira e queremos continuar a ter meios para dar continuidade aos objetivos de solidariedade social e auxílio às populações desfavorecidas na zona do Porto.

Perante a crise da pandemia e a crise económica que se seguirá, que comportamento espera dos diferentes quadrantes da sociedade, em particular do setor financeiro?
Temos uma expetativa de uma grande resiliência da maioria dos setores e confiança no apoio que o setor financeiro vai dar à economia real. É verdade que os primeiros apoios que surgiram foram complexos de aceder e com muita burocracia que os afasta das necessidades reais das empresas, mas acredito que se aprenda rapidamente com os erros e que em breve tenhamos mais facilidade de aceder a linhas de financiamento e a outro tipo de apoios.

O novo quadro comunitário que só deve chegar às empresas no final de março de 2021 vai ser muito importante, mas está ainda relativamente distante para empresas com tesourarias muito “esticadas”. É fundamental entretanto a agilização de outros apoios, nomeadamente aqueles com garantias públicas.

Como vamos sair desta crise? Temos ouvido muita apreensão, no setor social, com a saúde financeira das instituições. O Diretor Geral da Ordem da Trindade também está apreensivo?
Por um lado, todos nós consumidores, utentes, contribuintes vamos ser mais exigentes com as empresas e instituições, sendo que aquelas que vão prevalecer são as de caráter verdadeiro, com um propósito relevante para a sociedade e que defendam causas com as quais as comunidades que servem se identificam. Por outro lado, sairemos da crise com uma consciência mais generalizada de que são precisos valores positivos que nos unam.

Apesar de apreensivo permaneço otimista e acredito que vamos aprender com esta crise e que consequentemente vamos sair dela com melhores organizações a funcionar de uma forma mais ética e solidária, e uma comunidade mais forte e verdadeira como resultado disso.

“Obviamente que nem todos estão a remar no mesmo sentido. É um pouco inerente à natureza humana. O que é preciso é visão e liderança exemplar”.

Considera que nem todos estão a remar no sentido solidário? O que é preciso fazer para termos mais solidariedade europeia?
Obviamente que nem todos estão a remar no mesmo sentido. É um pouco inerente à natureza humana. O que é preciso é visão e liderança exemplar. Felizmente líderes como Merkel, Macron e Von der Leyen deram recentemente bons exemplos dessa liderança à qual subjaz, no meu entendimento, uma visão positiva, solidária para o futuro da Europa. Bento XVI também detalhou com muita clarividência, durante outra crise recente, princípios de funcionamento da sociedade e da economia que me parecem muito relevantes e que nos podem guiar nestes momentos difíceis.

O que precisam os líderes de hoje?
Os líderes hoje em dia precisam de ser uma referência e uma fonte de energia positiva para as suas equipas. Para isso é muito importante ser competente no que se está a fazer, ser genuíno, saber comunicar com empatia, e ser um verdadeiro elemento da equipa, não alguém que está por cima da equipa a “mandar”. Os “soft skills” são fundamentais.

Respostas rápidas:
O maior risco: 
Não correr riscos.
O maior erro: Complacência.
A maior lição: 
O primeiro “banho de humildade” (quando achava que sabia tudo).
A maior conquista:
Disponibilidade para aprender todos os dias.

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