Todos os que já viajaram de avião certamente estão familiarizados com este anúncio que a tripulação faz, momentos antes da partida do aparelho, significando que as saídas estão em modo de emergência. Esse modo de emergência é o modo em que, se for necessário abrir as portas, as mangas de evacuação se insuflarão, permitindo que as pessoas se escapem, deslizando sobre as referidas mangas.

O cross-check faz parte dos procedimentos em que os membros da tripulação certificam que a saída do seu lado oposto foi devidamente colocada em modo de emergência, ou seja, armed.

Não vamos falar das eventuais consequências da não observância destes dois procedimentos, pois tal não pode suceder. O que podemos imaginar, apenas e só para ajudar nosso raciocínio ao longo do texto, são as consequências de uma falha mecânica e das mangas de evacuação não funcionarem. Seria drástico.

Todos tomam decisões, quer como líderes e tomam decisões sobre liderança, quer como seguidores, ou mesmo na esfera privada. Imagine se fosse possível tomar todas as decisões que tivessem um “mecanismo de segurança” equivalente ao armed and cross checked. Quantos erros poderiam ser evitados ou minimizados.

Na literatura sobre o processo de tomada de decisão, pelo menos são identificadas sete etapas que deveriam ser cumpridas antes de se operacionalizar uma decisão: o diagnóstico do problema (no qual já falamos noutro artigo), coleta de informação, identificação de alternativas, avaliação das informações, plano de implementação da decisão e a reavaliação da decisão.
Mas sabemos que quem gere, nem sempre tem tempo para cumprir todos esses passos, pois existem situações de emergência em quase todas as profissões, em que alguém tem de tomar uma decisão que, eventualmente, no futuro revelar-se-á boa ou má.

Não sendo situações de emergência, as decisões devem seguir os tais sete passos. E passariam por um procedimento de armed and cross checked.

Decisões em armed seria uma espécie de ter sempre um plano B (implementar as alternativas) caso haja uma falha. Na verdade, algumas vezes, ao tomar decisões e num ambiente de incertezas que carateriza o mundo instável de hoje, nem sempre há tempo para arquitetar qualquer outra alternativa, não há tempo nem recursos, nem saída para uma decisão alternativa e tomamo-la como sendo a melhor decisão no momento, com base na informação disponível. Se acrescentarmos a pressão do instantâneo, da concorrência comercial ou profissional e, ao nível particular, a pressão das redes sociais que exigem alguma resposta ou posicionamento, ou o nosso próprio ímpeto em reagir, então não há mesmo tempo para plano alternativo. Mas na indústria da aviação, mesmo que o voo esteja muito atrasado, este procedimento de armed and cross check não pode ser eliminado em nome de ganhar tempo.

Decisões cross-checked seriam as decisões que passariam por uma espécie de validação de segunda ordem da decisão a ser tomada. É claro que isso já acontece em órgãos de gestão colegiais, daí a necessidade de existirem, primeiramente, competências e conhecimentos, mas também diversidade de dons na formação do processo decisório.

Mas infelizmente, decisões que são tomadas individualmente e sem alguma socialização ou validação adequadas, acarretam maior grau de erro. Por isso, na auditoria prevalece o princípio de quatro olhos. Podemos nos socorrer também do princípio de segregação de funções.

Assim, num processo normal de planeamento, as decisões devem ser programadas, os riscos avaliados, os fatores críticos de sucesso ou fracasso devem ser amplamente conhecidos de modo a que possam ser geridos. As alternativas devem ser evidentes e prontas para serem executadas.

Portas em disarm and cross check, pois o voo, perdão, o artigo terminou.

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Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária... Ler Mais